quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ser espontâneo é estar "presente"

Em minha última postagem escrevi sobre a teoria da espontaneidade de Moreno e do psicodrama, além do que considero uma aproximação desse conceito com o trabalho clínico que venho fazendo. Fiquei feliz por ter recebido muitos comentários, a maior parte deles veio através de e-mails, e outros que foram postados diretamente no blog. Considerei necessário continuar com o assunto para buscar responder e completar algumas questões que de alguma forma chamaram a atenção. Pretendia responder diretamente, em cada comentário, mas achei mais adequado e mais completo prosseguir com o texto e espero que essa forma saia a contento.


A teoria da espontaneidade de Moreno não é em hipótese alguma um valor absoluto. Ao contrário, é uma bela e interessante tentativa de organizar e sistematizar o "ser-em-situação" que está mergulhado nas mais diversas e dinâmicas formas de experiência. O sujeito despojado de sua força espontânea e criadora fica reduzido a uma mera engrenagem ou peça, um autômato que repete valores e comportamentos estereotipados. Essa condição normalmente produz sofrimento através de um sentimento de vazio, de impotência e de inutilidade. A espontaneidade quando age, faz o sujeito presente nas situações afetivas e sociais de sua vida, tornando-o agente ativo do próprio destino. Alfredo Naffah Neto em seu maravilhoso livro: "Psicodramatizar", faz uma citação que sintetiza muito bem: " Como uma ponte de ligação entre o presente, o passado e o futuro, entre o real e o imaginário, é sempre através de seus horizontes espacio-temporais e da posição que assume perante o mundo que habita, que se exprime e se realiza uma certa modalidade existencial, uma certa forma de ser."  
A espontaneidade pode se manifestar produzindo criações maravilhosas e inéditas (ações normalmente atribuídas aos gênios), ou simplesmente transformando e dando vida e presença a comportamentos repetitivos do cotidiano. Ser espontâneo não significa "ser o gênio da lâmpada" ou se ter a necessidade de provocar a mudança pela simples mudança. Ser espontâneo significa "estar presente" nas situações da própria vida, transformando adequadamente os seus aspectos insatisfatórios. Em sua teoria Moreno considerou que  a espontaneidade se apresenta através de quatro formas complementares:


a) a espontaneidade que ativa e dá nova cor às conservas culturais e estereótipos sociais. Esse tipo de espontaneidade confere novidade e vivacidade a sentimentos, ações e expressões verbais que nada mais são do que repetições de situações que o sujeito experimentou antes, milhares e milhares de vezes (caminhar, comer, bater papo, etc). Ou seja, nada tem de original ou criador. O que existe de novo aqui é o "sabor especial" que o sujeito atribui a sua vida cotidiana e a sua rotina. Para esse sentimento especial de vivacidade, Moreno deu o nome de: Qualidade dramática do sujeito, que funciona como uma espécie de "energização" e "tonificação" do eu, produzindo um modo genuíno de auto-expressão.
b) a espontaneidade que produz a criação de novas formas de arte e estruturas ambientais. Este sentimento de pura criatividade está totalmente atrelado ao compromisso de se criar novas formas, novas ideias e novas invenções. O sujeito está permanentemente empenhado em produzir novas experiências em seu íntimo, a fim de que elas possam transformar o mundo a sua volta. Como o próprio Moreno enfatizou, o exemplo acima trata de um sujeito idealizado, mas certamente temos vários exemplos de verdadeiros "gênios", na história.
c) a espontaneidade que atua na formação de livres expressões da personalidade. Aqui a originalidade do sujeito atua na produção e expansão daquilo que já existe e não é novo, mas que ganha uma nova cor e se expande. Moreno cita como exemplo os desenhos das crianças e a poesia dos adolescentes, que acrescentam algo novo à velha forma original, sem lhe modificar a essência.
d) a espontaneidade que produz respostas adequadas a novas situações. Uma pessoa pode ser criativaoriginal dramática, mas não necessariamente produzir uma resposta adequada à situação que está vivenciando. Quando se fala em "resposta adequada", se está querendo dizer "resposta adequada" à situação em que se está inserido. Moreno cita vários exemplos: um incêndio, um assalto, uma emergência qualquer em que salvar a própria vida é o que existe de mais adequado. Nesses casos a espontaneidade faz uso da inteligência, do senso de oportunidade, da memória do sujeito (conservas), da originalidade e do bom-senso para a escolha adequada. "É uma aptidão plástica de adaptação, mobilidade e flexibilidade do eu, indispensável a um organismo em rápido crescimento num meio em rápida mudança." - Psicodrama, pg. 144 - Cultrix - 1975 Moreno, Jacob L. 


O "ser-em-situação" está sempre em movimento. Assim, o corpo do sujeito é o veículo motor de sua espontaneidade. Esse processo tem início na infância, quando a criança se identifica com o adulto e representa ludicamente o seu papel. Moreno chamava essa "conquista" da criança como "função psicodramática" - capacidade de jogo simbólico onde inverte papéis com os pais e descobre, através da vivência, a rede dos papéis sociais em que está inscrita a sua identidade. Dessa forma a função psicodramática transforma a espontaneidade, antes apenas uma função adaptativa, numa função criativa.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Espontaneidade é a capacidade natural de reinventar


Diante de situações e circunstâncias boas ou ruins, tendemos a agir mecanicamente, produzindo respostas semelhantes ou repetidas para as situações do cotidiano. Qualquer bom observador é capaz de reparar que na maior parte do tempo as pessoas tendem a repetir como num ritual, seus comportamentos e emoções. Seja em situações boas ou ruins. "Repetimos" aquilo que já aprendemos na vida para de alguma maneira nos sentirmos seguros e sobreviver - "esse jeito de fazer, de pensar, de sofrer ou de rir" é o "jeito que conheço". Precisamos e contamos com a previsibilidade, como um guia que precisa ser seguido. Mas "segurança" em excesso também traz sentimentos não muito bons: enfado, sensação de estagnação, sentimento de vazio e de perda de tempo, desnorteamento, etc. Exemplos do que estou dizendo não faltam: casamentos e namoros mornos e cambaleantes, empregos ou trabalhos insuportáveis, círculos familiares ou de amizade que não produzem mais prazer, mesmices, etc. O que me chama a atenção é que mesmo diante do vazio causado pela "repetição" constante, insistimos em continuar "repetindo". A necessidade da previsibilidade acaba falando mais alto. Sejam hábitos que precisam ser mudados, sejam relações que precisam se reconfigurar, etc.
Me lembro do tempo em que fazia atendimentos na clínica da faculdade e numa sessão em que fui observado pelo meu orientador (que era psicanalista) através da sala de espelhos, perdi uma enorme oportunidade (certamente pelo meu nervosismo) de apresentar uma interpretação para meu paciente. Tenho certeza até hoje de que o que eu iria dizer àquela pessoa, iria ajudá-la muito naquele momento. Após o atendimento e já na supervisão, expus ao meu orientador o quanto estava chateado pela minha distração. Para minha surpresa ouvi um conselho que se mostra verdadeiro até hoje: " Não se preocupe, nós neuróticos sempre repetimos... e seu paciente não foge à regra... logo, logo você terá a sua oportunidade novamente". E ele estava muito certo!
Mudar não é nada fácil para a maior parte das pessoas. É terrível mudar hábitos, mudar de vida, mudar de emprego, mudar conceitos, mudar de amigos, mudar... Isso normalmente só acontece quando somos empurrados à força pelas circunstâncias. Precisamos de esquemas prontos para seguir adiante e nos sentirmos em segurança. Aprendemos a repetir para sobreviver mas o efeito colateral da repetição produz "conservas" (expressão psicodramática que significa: ficar parado em estado seguro, preservar)  que  escravizam e engessam a capacidade da pessoa em ser flexível e criativa. Parece bastante óbvio que as "conservas" são muito importantes por serem uma espécie de armazém de conhecimento e de aprendizado que funcionam como uma espécie de guia. Mas para viver de maneira criativa e espontânea, é preciso ousar e se permitir a um certo grau de novidade e de flexibilidade para o novo. O novo produzirá novos conhecimentos e novos "jeitos de ser e fazer", aperfeiçoando ou até mesmo modificando o conteúdo armazenado nas "conservas". No momento da criação do novo, ocorre de uma certa maneira um rompimento com aquilo que já está estabelecido e determinado pelas "conservas". Caso contrário o novo não surgiria. A evolução do conhecimento científico é um ótimo exemplo: novos achados surgem e complementam ou até mesmo substituem o que já se sabia.

O rompimento dessas "conservas" se dá através de movimentos espontâneos e criativos, que produzem respostas novas e adequadas, para questões e aflições antigas. A espontaneidade, a flexibilidade e a experiência vivida, trabalham juntas como forças criativas e transformadoras da realidade, produzindo novos conceitos, novos olhares, novos comportamentos e atitudes, etc. Não é possível ser espontâneo sem ser flexível e sem "experimentar na prática". Penso que é neste ponto que a maioria das pessoas estancam na busca pelo novo e tendem mais facilmente a repetir e a não mudar. Se um indivíduo conhecer de antemão a espécie de situação que vai encontrar quanto a sua forma, tempo, consequências e lugar, o espaço para a espontaneidade deixará de existir. Como já disse antes, é natural que busquemos a segurança da previsibilidade. Mas o que ocorre na maior parte das vezes é que buscamos a previsibilidade através de uma  fantasia de que podemos prever e controlar tudo. E isso não é possível. Essa é uma das principais características da ansiedade. Há uma feliz  frase de Mao Tsé Tung que exemplifica muito bem: "Para adquirir conhecimentos é preciso participar na prática que transforma a realidade. Para se conhecer o gosto de uma pêra, é preciso transformá-la, comendo-a."

A espontaneidade se manifesta como que por instinto, de forma não racional ou premeditada. Creio que o "ser espontâneo" e criativo está mais atento ao "aqui e agora", livre para a experiência nova que está inserido e, menos atento às suas fantasias de previsibilidade. Um jogo de futebol pode ser um bom exemplo: Trata-se de um jogo que existe a mais de cem anos, com praticamente as mesmas regras, a mesma bola, o mesmo formato, o mesmo jeito. No entanto de tempos em tempos, surge um novo jogador que simplesmente transforma esse jogo velho de maneira imprevisível. Onde à princípio, tudo é previsível, surge algo novo e inédito. Todos param para assistir e se encantam.
O psicodrama de Moreno bebeu muito do conhecimento do filósofo francês  Henri Louis Bergson, que acreditava na "experiência imediata e na intuição" como verdadeiras ferramentas de compreensão da realidade, mais do que a razão e a previsibilidade da lógica científica. Begson dizia que: "a percepção "mergulha no real através de suas raízes profundas", em que a realidade não será construída ou reconstruída, mas tocada, penetrada, vivida" Moreno dizia que a razão e a lógica estavam "engessadas" pelas leis universais que procuram explicar a realidade de maneira previsível e fixa: "Um certo grau de imprevisibilidade dos eventos futuros  é uma premissa em que deve se assentar a idéia da espontaneidade. O futuro pertence ao acaso..." Em outras palavras, não podemos controlar o futuro ou as pessoas (a fantasia mais presente na ansiedade), podemos apenas viver e experienciar um dia de cada vez. Alguns casos de depressão e ansiedade que tenho acompanhado no consultório e que tem apresentado um desfecho positivo e de alguma melhora perceptível dos pacientes, levam a um questionamento quase que rotineiro, realizado de várias maneiras mas sempre com o mesmo sentido e conteúdo: "Por que estou me sentindo bem melhor se nada mudou na minha vida? Será que estou melhor mesmo?" E minha resposta tem sido com frequência, sempre a mesma: "Creio que o que mudou não foi a sua vida, e sim você e a forma de vivencia-la".

segunda-feira, 26 de março de 2012

O rei sem ofício

Era uma vez um rei que havia esquecido o velho conselho dos sábios, segundo o qual quem nasce na comodidade e no conforto precisa fazer um esforço pessoal maior do que os outros. Mesmo assim era um rei justo e popular.Um dia, quando viajava para visitar uma de suas terras mais distantes, uma tempestade desabou e separou o seu barco de sua escolta. A tempestade serenou depois de sete dias de fúria. O barco havia afundado e os únicos sobreviventes do naufrágio foram o rei e sua pequena filha, pois eles, de algum modo, haviam conseguido subir numa balsa.
Depois de muitas horas, a balsa foi jogada numa praia de um país totalmente desconhecido para os viajantes. Inicialmente foram recolhidos por pescadores que cuidaram deles e que depois de algum tempo disseram:
- Somos muito pobres e não podemos continuar a mantê-los. Se caminharem para o interior, quem sabe poderão encontrar os meios de ganhar a vida.
Agradecendo aos pescadores e sentindo pesar por não poder conviver com eles, o rei começou a vagar pela região. Ele e a princesa foram de aldeia em aldeia, de povoado em povoado, buscando comida e ajuda. Não aparentavam ser melhores que mendigos, e assim eram tratados.
Às vezes conseguiam algum pedaço de pão, outras vezes palha seca para dormir.
Cada vez que o rei procurava melhorar sua situação, pedindo trabalho, perguntavam-no:
- O que você sabe fazer?
O rei então se dava conta de que não era capaz de realizar as tarefas exigidas, e retomava seu caminho.
Em todo o país existiam poucas oportunidades de tarefas manuais, pois havia muitos trabalhadores especializados. À medida em que iam de um lugar para outro, o rei cada vez mais se dava conta de que ser rei sem país era uma condição inútil.
Ele refletia cada vez mais sobre o provérbio dos anciãos, que dizia: "Só pode ser considerado seu aquilo que puder sobreviver a um naufrágio."
Depois de três anos nessa experiência miserável e sem futuro, ambos encontravam pela primeira vez uma fazenda cujo proprietário estava procurando alguém que cuidasse de suas ovelhas. Ele viu o rei e a princesa e lhes perguntou: 
- Precisam de dinheiro?
E eles responderam que sim.
- Sabem cuidar de ovelhas?
- Não - disse o rei.
- Pelo menos você é honesto - disse o fazendeiro - e por isso darei a você uma oportunidade de ganhar a vida.
O fazendeiro os enviou ao campo com algumas ovelhas, e logo aprenderam que tudo o que precisavam fazer era protegê-las dos lobos e cuidar para que não se perdessem.
Uma cabana lhes foi dada e, conforme os anos foram passando, o rei recuperou algo de sua dignidade, embora não tenha recuperado sua felicidade. A princesa se transformou numa jovem bela como uma fada. Como ganhavam apenas o necessário para viver, não podiam ainda planejar o retorno às suas terras.    
Um dia quando havia saído para caçar, o sultão daquele país viu a moça e enamorou-se dela. Então enviou um representante ao pai da jovem, para pedi-la em casamento.
- Ó camponês - disse o mensageiro, - o sultão, meu amo e senhor, pede a mão de sua filha em casamento.
- E o que ele sabe fazer, qual é o seu ofício e como ele pode ganhar a vida? - perguntou o ex-rei.
- Idiota! Vocês camponeses são todos iguais - gritou o mensageiro. - Você não entende que um rei não precisa ter ofício, pois sua habilidade consiste em conduzir reinos, e que você foi eleito para uma honra que ordinariamente estaria muito além de qualquer esperança possível para as pessoas comuns?
- Tudo o que sei - disse o rei pastor - é que a menos que o seu amo, sendo sultão ou não, possa ganhar a própria vida, não será marido para minha filha. Eu sei uma ou duas coisas a respeito do valor das habilidades.
O mensageiro regressou e contou ao seu amo real o que o estúpido camponês havia dito, acrescentando:
-Não devemos nos preocupar com pessoas como essa gente, senhor, porque elas não sabem nada sobre as ocupações dos reis.
Mesmo assim, uma vez recobrado de sua surpresa, o sultão disse:
- Estou perdidamente apaixonado pela filha desse pastor e por isso devo estar preparado para fazer qualquer coisa que seu pai ordene, a fim de casar-me com ela.
Deixou o império nas mãos de um regente e foi ser aprendiz de um tecelão de tapetes. Depois de quase um ano já dominava a arte de fazer tapetes simples. Com alguns de seus próprios trabalhos foi até a cabana do rei-pastor. Apresentou-se diante dele dizendo:
- Sou o sultão deste país e queria casar-me com sua filha, se ela me aceitar. Tendo recebido a mensagem, de que você requer de um futuro genro habilidades úteis, estudei tecelagem. Estes são alguns exemplos de meu trabalho.
- Quanto tempo você levou para fazer este tapete? - perguntou o rei-pastor.
- Três semanas - respondeu o sultão.
- Quando o vender, quanto tempo você poderá viver com o que obtiver?
- Três meses - respondeu o sultão.
- Você pode se casar com minha filha, se ela quiser aceitá-lo - disse o pai.
O sultão ficou encantado e feliz quando aprincesa consentiu em casar-se com ele.
- Seu pai - disse ele, - mesmo sendo um camponês, é um homem sábio e sagaz.
- Um camponês pode ser tão inteligente quanto um sultão - disse a princesa, - mas um rei, se teve as experiências necessárias, pode ser tão sábio como o camponês sagaz.
O sultão e a princesa se casaram com todo o esplendor. O rei-pastor, com a ajuda de seu novo genro, regressou ao seu país, onde ficou conhecido para sempre como um monarca bom e inteligente, que nunca se cansou de alentar a todos e a cada um dos súditos para que aprendessem um ofício útil.

                                        -----XXX-----

Texto trabalhado em psicoterapia de grupo e publicado à pedido dos participantes, com o desenvolvimento dos seguintes temas: "a experiência como fonte de aprendizado, auto-imagem, sobrevivência, enfrentamento de dificuldades, missão pessoal e valor da vida.

("O rei sem ofício" - Histórias da Tradição Sufi - Rio de Janeiro - 1993 - Edições Dervish, página 41.)    
   

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O ciúme

“Nunca amamos alguém. Amamos tão-somente, a idéia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmo – que amamos. Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa.” Fernando Pessoa

O ciúme é um sentimento natural e reativo a alguma ameaça que se perceba, da perda em relação a algo que seja considerado valioso e importante. Numa relação em que haja ciúme existem no mínimo três personagens: o sujeito ativo do ciúme que é a pessoa que sente ciúme, o sujeito analítico do ciúme que é a pessoa de quem se sente ciúme e, o "terceiro" que é o responsável pelo motivo do ciúme. Entender o ciúme é uma tarefa difícil e que depende muito da disponibilidade do sujeito em procurar dentro de si, as fronteiras entre um sentimento natural e instintivo e, fora de si em situações objetivas que justifiquem a angústia de seus sentimentos de desconfiança (o cabível e o incabível). Caso essas fronteiras sejam ultrapassadas, o sentimento de ciúme pode se agravar e tornar-se patológico na forma de obsessão e paranóia. A psicanálise diz que o ciúme possessivo tem suas origens na primeira infância, quando a criança sente-se ameaçada pela presença dos irmãos ou do pai, em relação ao seu sentimento de amor pela mãe. Através dessa linha de pensamento, nas situações em que de alguma maneira "passamos mal" por esta fase, o ciúme do adulto ivariavelmente ultrapassará as fronteiras entre a reação natural e o impulso patológico. Quando isso ocorre tem-se como resultado situações de muito sofrimento e limitação para os sujeitos envolvidos: limitação da liberdade, falta de confiança em si e no outro, auto-estima precária, etc.
O ciúme patológico é caracterizado pelo desejo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos do parceiro ou parceira. Pesquisando sobre o assunto encontrei relatos de atitudes e comportamentos caóticos de pacientes, que servem como bons exemplos do sentimento de ciúme patológico:  verificar se a pessoa está onde e com quem disse que estaria, abrir correspondências, ouvir telefonemas, examinar bolsos, bolsas, carteiras, recibos, telefone celular, computador, roupas íntimas, seguir o companheiro(a), contratar detetives particulares, etc. Todas essas ações são tentativas de aliviar a angústia provocada pelo sentimento de ciúme fora de controle, que normalmente tem como resultado a permanência do mal estar da dúvida. Isso significa que o "estado de vigilância" permanente causado pelo ciúme patológico, jamais se dissolve. A resolução dessa dificuldade passa necessariamente pela busca de ajuda especializada.


Muitas outras questões acabam se misturando e desaguando equivocadamente na vala comum do sentimento de ciúme. Culturalmente consideramos que a fase do namoro seja o ápice do prazer de uma relação, que já está fadada a morrer após o casamento. Acredita-se que toda a magia dos tempos de namoro irá desaparecer quando as dificuldades da vida real e da convivência do casal, forem postas à prova na rotina e no cotidiano. A paixão, o amor e a vontade de estar junto deixarão de ser os sentimentos básicos da convivência do casal, para transformarem-se em inércia, tédio e conveniência. O sentimento de amor é sempre uma idealização e uma fantasia que sucumbe ao teste de realidade da vida em comum. A convivência e a proximidade com o outro, nos faz enxergar seus defeitos, decepcionando-nos e desfazendo a fantasia. E pensando dessa maneira, a única solução seria ficar longe para "naõ se decepcionar" e preservar a idealização e a fantasia. Mas talvez amar não seja deixar de enxergar os defeitos do companheiro(a), mas sim compartilhá-los e, sinceramente, torná-los parte ativa e até mesmo divertida da relação. Os problemas da vida são reais e contundentes, não tendo nada de idealização ou atração romântica. Cuidar dos filhos, da sobrevivência, das doenças, das dívidas, dos problemas que a convivência cria e das regras diárias que temos que minimamente cumprir, são necessidades imperiosas. Enxergo como etapas que precisamos passar, se o bom senso se fizer presente. Por exemplo, não é recomendável que se tenha uma intensa vida noturna em uma fase em que os filhos sejam de colo ou muito pequenos. É a fase do casal  "lamber a cria" e isso alterna (como tudo), momentos bons e inesquecíveis, com momentos muito exaustivos e tensos. Isso não irá durar a vida inteira, nem uma coisa e nem outra coisa. Simplesmente irá passar e deixar muitas lições. Infelizmente o mundo de hoje cria a falsa necessidade de que precisamos de "novidade" o tempo inteiro e, que essa novidade está sempre "lá fora". Talvez a "novidade" seja sempre um exercício de descoberta de si mesmo, frente as novas situações que a vida apresenta. Por essa razão acredito que o cotidiano e a rotina não precisam necessariamente ter o caráter de afastar o casal de sua relação íntima. Como neuróticos que somos, por definição amamos a repetição porque é nela que nos sentimos seguros.

Claro que uma relação pode simplesmente acabar e nesses casos, a saúde e a sanidade está justamente no fim dessa relação. O mesmo mistério que faz duas pessoas se apaixonarem, pode fazer com que essa paixão termine. Ninguém pode controlar esses sentimentos, mas isso não pode ser confundido com a falta de cuidados básicos que uma relação necessita no dia-a-dia, para poder sobreviver. Tenho uma teoria antiga de que a sinceridade é uma ferramenta fantástica para lidar com o sentimento de tédio e as consequências do sentimento de ciúme. Fiquei feliz em encontrar uma recente pesquisa americana sobre casais heterossexuais que praticam suingue e a forma como procuram lidar com o desgaste de suas relações e o sentimento de ciúme. Através dessa pesquisa também encontrei interpretações de vários tipos de abordagens psicológicas, etre elas um texto de Contardo Caligaris: (Visser e McDonald, no “British Journal of Social Psychology” (vol. 46, nº 2, junho 2007): “Swings and Roundabouts: Management of Jealousy in Heterosexual Swinging Couples” (suingue e carrosséis: administração do ciúme em casais heterossexuais que praticam o suingue). (Ai vai o link para quem quiser saber mais: http://sro.sussex.ac.uk/1576/)
Entre os resultados encontrados está que a sinceridade nesse tipo de relação funcionou como um belo antídoto contra a corrosão criada pela convivência, imposta pela rotina e pelas dificuldades da vida em comum e ou individuais dos parceiros, a ponto de tolerarem as aventuras sexuais de ambos, fora do casamento. A força do envolvimento afetivo sobre o sexual foi permitida e admitida pela predominância da sinceridade entre esses casais. Nestes casos o parceiro(a) foi sempre o primeiro(a) a saber e esse sentimento de prioridade garantiu a suprioridade do envolvimento afetivo sobre o envolvimento sexual com outros. Uma das sensações mais difíceis e aflitivas nos casos de infidelidade, é que o(a) amante sabe do companheiro(a), mas este não sabe do amante. A prova que a sinceridade foi muito eficaz está em inferirmos que, se um amante souber que sua performance foi discutida durante o café da manhã, ele provavelmente desaparecerá.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Excesso ou ausência de culpa

Em relação a culpa existem duas situações extremas: o excesso do sentimento de culpa  que produz um enorme sofrimento psíquico - "culpa intolerável", ou a sua ausência, que tem como reflexo a "falta de um sentimento moral" ou a "incapacidade para a culpa".
É comum encontrarmos pessoas que são sobrecarregas por um sentimento de culpa que, devido ao seu excesso, acabam bloqueadas e limitadas por ele. A sensação que o sujeito tem é comparada com o peso de um enorme fardo em suas costas, que é aliviada quando surge uma oportunidade adequada para uma "ação compensatória", como a realização de alguma ação cooperativa e construtiva para com os outros. Basta "fazer o bem" que a sensação de bloqueio quase que desaparece, produzindo um enorme alívio. Mas se houver qualquer falha ou qualquer impossibilidade de realização dessa ação construtiva, a culpa intolerável retorna de forma cruel e avassaladora, bloqueando e limitando novamente o sujeito. Em resumo trata-se de um sentimento de sobrecarga e limitação, que ocorre com muitas pessoas que levam uma vida considerada normal, se repetindo de maneira sistêmica. O sujeito carrega consigo um sofrimento crônico, produtor de ansiedade e de muita angústia.
O tratamento analítico para a "culpa intolerável" leva para a procura das origens desse sofrimento, que podem estar relacionadas com a "melancolia" e com a "neurose obssessiva". Melancolia - que é uma forma organizada do estado de depressão, ao qual todas as pessoas estão sujeitas. O sujeito que sofre de melancolia sente-se diretamente responsável por desgraças e problemas que, analisados racionalmente, passam muito longe de sua responsabilidade individual. Alguns exemplos: a fome no mundo, as guerras mundiais, a desigualdade social, a crueldade com os animais, etc. A crença quase que indestrutível do sujeito nessa falsa responsabilidade que atribui a si mesmo,  é o campo necessário e perfeito para o surgimento da culpa incontrolável. Neurose obssessiva - que são idéias, compulsões e comportamentos expressos através de rituais específicos, criados pelo próprio indivíduo, com o objetivo de acertar e reparar situações ou alguma coisa que considere errado. O sujeito sofre com uma ruminação indesejável e interminável de idéias, dúvidas e escrúpulos, que o leva a inibições do pensamento e da ação objetiva. Em outras palavras o sujeito está sempre tentando acertar  e reparar alguma coisa, que  em sua fantasia ele considera errado. Logo fica claro para quem está observando e provavelmente para o próprio sujeito, que ele não terá êxito nenhum em sua tentativa de acertar e reparar, mas as ruiminações são mais fortes e os rituais sempre se repetem, atuando como um remédio que ameniza e alivia o sentimento da culpa incontrolável - ("se não agir assim, serei o responsável pelas consequências...").

Também há pessoas que demonstram uma certa "incapacidade" em sentir culpa. Felizmente o extremo dessa incapacidade é bastante raro (psicopatia ou comportamento anti-social). Mas não é raro encontrarmos pessoas que levam uma vida normal, e demonstram uma certa incapacidade em sentir preocupação ou sentimento de culpa, ou até mesmo remorso. Se pensarmos no desenvolvimento natural da capacidade de sentir culpa, podemos encontrar indivíduos que tiveram um desenvolvimento sadio apenas em parte. Isso significa que as pessoas que possuem uma certa falta de senso moral não tiveram nos estágios iniciais do seu desenvolvimento emocional, as condições físicas e emocionais que lhes possibilitasse o desenvolvimento de uma capacidade para o sentimento de culpa. Em situações favoráveis a capacidade do sentimento de culpa se constrói gradativamente no indivíduo, de maneira mediada e segura.
Obviamente o sentimento de culpa não pode ser encontrado no início do processo de maturação emocional, pelo fato de o ego ainda não estar suficientemente maduro para oferecer resistência e aceitar responsabilidades pelas pulsões do id (http://manoel-psicogrupos.blogspot.com/2011/05/o-ambiente-e-preservacao-da-essencia-da.html). Tudo começa com o desenvolvimento do respeito aos pais, em especial à mãe. Isso está diretamente relacionado com a oportunidade de "reparação". A "reparação" é um mecanismo descrito por Melanie Klein (*) pelo qual o sujeito procura reparar os efeitos produzidos pelas oscilações entre o amor e o ódio, ainda produzidos de forma intensa e primitiva no bebê e na criança muito pequena. Essas oscilações são muito comuns e normais nos estágios iniciais do desenvolvimento emocional, perdurando por toda a vida. A fronteira entre amor e ódio é extremamente tênue. A diferença está em que o adulto (sadio), por já ter o ego maturado e um consequente repertório desenvolvido, provavelmente controlará seus impulsos e irá resignificá-los e, quando for o caso, poderá "reparar" algum dano causado.
Para a criança em desenvolvimento esse é o maior desafio a ser conquistado, no tempo certo e de forma paciente, generosa e acolhedora pelos pais. Em outras palavras, cabe aos pais propiciar e oferecer a oportunidade de "reparação" como forma de elaboração desses conflitos e também de construção e desenvolvimento de um repertório amplo, espontâneo e sadio.
Basta olharmos os jornais e a internet que encontramos sinais claros desse tipo de falha no desenvolvimento emocional: roubo, mal uso do dinheiro público, homicídios, mentiras, destrutividade, violência descabida, etc. Onde há uma falta de senso moral pessoal, a necessidade do controle externo (inculcado) se faz necessária e imperiosa. Mas é preciso deixar claro que a socialização resultante desse tipo de ação é instável e pouco confiável. Os exemplos dessa instabilidade e pouca efetividade podem ser muitos: sistema carcerário (de adultos e crianças), leis que são criadas e sempre são negligenciadas, escolas reformatórias, etc. Talvez o surgimento de novas instituições que privilegiem e proporcionem o trabalho com o autoconhecimento e o desenvolvimento da capacidade de recuperação do sentimento de culpa, sejam mais efetivos. O desenvolvimento da capacidade de "reparação", mesmo em adultos já formados, produz efeitos duradouros, estáveis, consistentes e mais verdadeiros.