segunda-feira, 26 de março de 2012

O rei sem ofício

Era uma vez um rei que havia esquecido o velho conselho dos sábios, segundo o qual quem nasce na comodidade e no conforto precisa fazer um esforço pessoal maior do que os outros. Mesmo assim era um rei justo e popular.Um dia, quando viajava para visitar uma de suas terras mais distantes, uma tempestade desabou e separou o seu barco de sua escolta. A tempestade serenou depois de sete dias de fúria. O barco havia afundado e os únicos sobreviventes do naufrágio foram o rei e sua pequena filha, pois eles, de algum modo, haviam conseguido subir numa balsa.
Depois de muitas horas, a balsa foi jogada numa praia de um país totalmente desconhecido para os viajantes. Inicialmente foram recolhidos por pescadores que cuidaram deles e que depois de algum tempo disseram:
- Somos muito pobres e não podemos continuar a mantê-los. Se caminharem para o interior, quem sabe poderão encontrar os meios de ganhar a vida.
Agradecendo aos pescadores e sentindo pesar por não poder conviver com eles, o rei começou a vagar pela região. Ele e a princesa foram de aldeia em aldeia, de povoado em povoado, buscando comida e ajuda. Não aparentavam ser melhores que mendigos, e assim eram tratados.
Às vezes conseguiam algum pedaço de pão, outras vezes palha seca para dormir.
Cada vez que o rei procurava melhorar sua situação, pedindo trabalho, perguntavam-no:
- O que você sabe fazer?
O rei então se dava conta de que não era capaz de realizar as tarefas exigidas, e retomava seu caminho.
Em todo o país existiam poucas oportunidades de tarefas manuais, pois havia muitos trabalhadores especializados. À medida em que iam de um lugar para outro, o rei cada vez mais se dava conta de que ser rei sem país era uma condição inútil.
Ele refletia cada vez mais sobre o provérbio dos anciãos, que dizia: "Só pode ser considerado seu aquilo que puder sobreviver a um naufrágio."
Depois de três anos nessa experiência miserável e sem futuro, ambos encontravam pela primeira vez uma fazenda cujo proprietário estava procurando alguém que cuidasse de suas ovelhas. Ele viu o rei e a princesa e lhes perguntou: 
- Precisam de dinheiro?
E eles responderam que sim.
- Sabem cuidar de ovelhas?
- Não - disse o rei.
- Pelo menos você é honesto - disse o fazendeiro - e por isso darei a você uma oportunidade de ganhar a vida.
O fazendeiro os enviou ao campo com algumas ovelhas, e logo aprenderam que tudo o que precisavam fazer era protegê-las dos lobos e cuidar para que não se perdessem.
Uma cabana lhes foi dada e, conforme os anos foram passando, o rei recuperou algo de sua dignidade, embora não tenha recuperado sua felicidade. A princesa se transformou numa jovem bela como uma fada. Como ganhavam apenas o necessário para viver, não podiam ainda planejar o retorno às suas terras.    
Um dia quando havia saído para caçar, o sultão daquele país viu a moça e enamorou-se dela. Então enviou um representante ao pai da jovem, para pedi-la em casamento.
- Ó camponês - disse o mensageiro, - o sultão, meu amo e senhor, pede a mão de sua filha em casamento.
- E o que ele sabe fazer, qual é o seu ofício e como ele pode ganhar a vida? - perguntou o ex-rei.
- Idiota! Vocês camponeses são todos iguais - gritou o mensageiro. - Você não entende que um rei não precisa ter ofício, pois sua habilidade consiste em conduzir reinos, e que você foi eleito para uma honra que ordinariamente estaria muito além de qualquer esperança possível para as pessoas comuns?
- Tudo o que sei - disse o rei pastor - é que a menos que o seu amo, sendo sultão ou não, possa ganhar a própria vida, não será marido para minha filha. Eu sei uma ou duas coisas a respeito do valor das habilidades.
O mensageiro regressou e contou ao seu amo real o que o estúpido camponês havia dito, acrescentando:
-Não devemos nos preocupar com pessoas como essa gente, senhor, porque elas não sabem nada sobre as ocupações dos reis.
Mesmo assim, uma vez recobrado de sua surpresa, o sultão disse:
- Estou perdidamente apaixonado pela filha desse pastor e por isso devo estar preparado para fazer qualquer coisa que seu pai ordene, a fim de casar-me com ela.
Deixou o império nas mãos de um regente e foi ser aprendiz de um tecelão de tapetes. Depois de quase um ano já dominava a arte de fazer tapetes simples. Com alguns de seus próprios trabalhos foi até a cabana do rei-pastor. Apresentou-se diante dele dizendo:
- Sou o sultão deste país e queria casar-me com sua filha, se ela me aceitar. Tendo recebido a mensagem, de que você requer de um futuro genro habilidades úteis, estudei tecelagem. Estes são alguns exemplos de meu trabalho.
- Quanto tempo você levou para fazer este tapete? - perguntou o rei-pastor.
- Três semanas - respondeu o sultão.
- Quando o vender, quanto tempo você poderá viver com o que obtiver?
- Três meses - respondeu o sultão.
- Você pode se casar com minha filha, se ela quiser aceitá-lo - disse o pai.
O sultão ficou encantado e feliz quando aprincesa consentiu em casar-se com ele.
- Seu pai - disse ele, - mesmo sendo um camponês, é um homem sábio e sagaz.
- Um camponês pode ser tão inteligente quanto um sultão - disse a princesa, - mas um rei, se teve as experiências necessárias, pode ser tão sábio como o camponês sagaz.
O sultão e a princesa se casaram com todo o esplendor. O rei-pastor, com a ajuda de seu novo genro, regressou ao seu país, onde ficou conhecido para sempre como um monarca bom e inteligente, que nunca se cansou de alentar a todos e a cada um dos súditos para que aprendessem um ofício útil.

                                        -----XXX-----

Texto trabalhado em psicoterapia de grupo e publicado à pedido dos participantes, com o desenvolvimento dos seguintes temas: "a experiência como fonte de aprendizado, auto-imagem, sobrevivência, enfrentamento de dificuldades, missão pessoal e valor da vida.

("O rei sem ofício" - Histórias da Tradição Sufi - Rio de Janeiro - 1993 - Edições Dervish, página 41.)    
   

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O ciúme

“Nunca amamos alguém. Amamos tão-somente, a idéia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmo – que amamos. Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma idéia nossa.” Fernando Pessoa

O ciúme é um sentimento natural e reativo a alguma ameaça que se perceba, da perda em relação a algo que seja considerado valioso e importante. Numa relação em que haja ciúme existem no mínimo três personagens: o sujeito ativo do ciúme que é a pessoa que sente ciúme, o sujeito analítico do ciúme que é a pessoa de quem se sente ciúme e, o "terceiro" que é o responsável pelo motivo do ciúme. Entender o ciúme é uma tarefa difícil e que depende muito da disponibilidade do sujeito em procurar dentro de si, as fronteiras entre um sentimento natural e instintivo e, fora de si em situações objetivas que justifiquem a angústia de seus sentimentos de desconfiança (o cabível e o incabível). Caso essas fronteiras sejam ultrapassadas, o sentimento de ciúme pode se agravar e tornar-se patológico na forma de obsessão e paranóia. A psicanálise diz que o ciúme possessivo tem suas origens na primeira infância, quando a criança sente-se ameaçada pela presença dos irmãos ou do pai, em relação ao seu sentimento de amor pela mãe. Através dessa linha de pensamento, nas situações em que de alguma maneira "passamos mal" por esta fase, o ciúme do adulto ivariavelmente ultrapassará as fronteiras entre a reação natural e o impulso patológico. Quando isso ocorre tem-se como resultado situações de muito sofrimento e limitação para os sujeitos envolvidos: limitação da liberdade, falta de confiança em si e no outro, auto-estima precária, etc.
O ciúme patológico é caracterizado pelo desejo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos do parceiro ou parceira. Pesquisando sobre o assunto encontrei relatos de atitudes e comportamentos caóticos de pacientes, que servem como bons exemplos do sentimento de ciúme patológico:  verificar se a pessoa está onde e com quem disse que estaria, abrir correspondências, ouvir telefonemas, examinar bolsos, bolsas, carteiras, recibos, telefone celular, computador, roupas íntimas, seguir o companheiro(a), contratar detetives particulares, etc. Todas essas ações são tentativas de aliviar a angústia provocada pelo sentimento de ciúme fora de controle, que normalmente tem como resultado a permanência do mal estar da dúvida. Isso significa que o "estado de vigilância" permanente causado pelo ciúme patológico, jamais se dissolve. A resolução dessa dificuldade passa necessariamente pela busca de ajuda especializada.


Muitas outras questões acabam se misturando e desaguando equivocadamente na vala comum do sentimento de ciúme. Culturalmente consideramos que a fase do namoro seja o ápice do prazer de uma relação, que já está fadada a morrer após o casamento. Acredita-se que toda a magia dos tempos de namoro irá desaparecer quando as dificuldades da vida real e da convivência do casal, forem postas à prova na rotina e no cotidiano. A paixão, o amor e a vontade de estar junto deixarão de ser os sentimentos básicos da convivência do casal, para transformarem-se em inércia, tédio e conveniência. O sentimento de amor é sempre uma idealização e uma fantasia que sucumbe ao teste de realidade da vida em comum. A convivência e a proximidade com o outro, nos faz enxergar seus defeitos, decepcionando-nos e desfazendo a fantasia. E pensando dessa maneira, a única solução seria ficar longe para "naõ se decepcionar" e preservar a idealização e a fantasia. Mas talvez amar não seja deixar de enxergar os defeitos do companheiro(a), mas sim compartilhá-los e, sinceramente, torná-los parte ativa e até mesmo divertida da relação. Os problemas da vida são reais e contundentes, não tendo nada de idealização ou atração romântica. Cuidar dos filhos, da sobrevivência, das doenças, das dívidas, dos problemas que a convivência cria e das regras diárias que temos que minimamente cumprir, são necessidades imperiosas. Enxergo como etapas que precisamos passar, se o bom senso se fizer presente. Por exemplo, não é recomendável que se tenha uma intensa vida noturna em uma fase em que os filhos sejam de colo ou muito pequenos. É a fase do casal  "lamber a cria" e isso alterna (como tudo), momentos bons e inesquecíveis, com momentos muito exaustivos e tensos. Isso não irá durar a vida inteira, nem uma coisa e nem outra coisa. Simplesmente irá passar e deixar muitas lições. Infelizmente o mundo de hoje cria a falsa necessidade de que precisamos de "novidade" o tempo inteiro e, que essa novidade está sempre "lá fora". Talvez a "novidade" seja sempre um exercício de descoberta de si mesmo, frente as novas situações que a vida apresenta. Por essa razão acredito que o cotidiano e a rotina não precisam necessariamente ter o caráter de afastar o casal de sua relação íntima. Como neuróticos que somos, por definição amamos a repetição porque é nela que nos sentimos seguros.

Claro que uma relação pode simplesmente acabar e nesses casos, a saúde e a sanidade está justamente no fim dessa relação. O mesmo mistério que faz duas pessoas se apaixonarem, pode fazer com que essa paixão termine. Ninguém pode controlar esses sentimentos, mas isso não pode ser confundido com a falta de cuidados básicos que uma relação necessita no dia-a-dia, para poder sobreviver. Tenho uma teoria antiga de que a sinceridade é uma ferramenta fantástica para lidar com o sentimento de tédio e as consequências do sentimento de ciúme. Fiquei feliz em encontrar uma recente pesquisa americana sobre casais heterossexuais que praticam suingue e a forma como procuram lidar com o desgaste de suas relações e o sentimento de ciúme. Através dessa pesquisa também encontrei interpretações de vários tipos de abordagens psicológicas, etre elas um texto de Contardo Caligaris: (Visser e McDonald, no “British Journal of Social Psychology” (vol. 46, nº 2, junho 2007): “Swings and Roundabouts: Management of Jealousy in Heterosexual Swinging Couples” (suingue e carrosséis: administração do ciúme em casais heterossexuais que praticam o suingue). (Ai vai o link para quem quiser saber mais: http://sro.sussex.ac.uk/1576/)
Entre os resultados encontrados está que a sinceridade nesse tipo de relação funcionou como um belo antídoto contra a corrosão criada pela convivência, imposta pela rotina e pelas dificuldades da vida em comum e ou individuais dos parceiros, a ponto de tolerarem as aventuras sexuais de ambos, fora do casamento. A força do envolvimento afetivo sobre o sexual foi permitida e admitida pela predominância da sinceridade entre esses casais. Nestes casos o parceiro(a) foi sempre o primeiro(a) a saber e esse sentimento de prioridade garantiu a suprioridade do envolvimento afetivo sobre o envolvimento sexual com outros. Uma das sensações mais difíceis e aflitivas nos casos de infidelidade, é que o(a) amante sabe do companheiro(a), mas este não sabe do amante. A prova que a sinceridade foi muito eficaz está em inferirmos que, se um amante souber que sua performance foi discutida durante o café da manhã, ele provavelmente desaparecerá.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Excesso ou ausência de culpa

Em relação a culpa existem duas situações extremas: o excesso do sentimento de culpa  que produz um enorme sofrimento psíquico - "culpa intolerável", ou a sua ausência, que tem como reflexo a "falta de um sentimento moral" ou a "incapacidade para a culpa".
É comum encontrarmos pessoas que são sobrecarregas por um sentimento de culpa que, devido ao seu excesso, acabam bloqueadas e limitadas por ele. A sensação que o sujeito tem é comparada com o peso de um enorme fardo em suas costas, que é aliviada quando surge uma oportunidade adequada para uma "ação compensatória", como a realização de alguma ação cooperativa e construtiva para com os outros. Basta "fazer o bem" que a sensação de bloqueio quase que desaparece, produzindo um enorme alívio. Mas se houver qualquer falha ou qualquer impossibilidade de realização dessa ação construtiva, a culpa intolerável retorna de forma cruel e avassaladora, bloqueando e limitando novamente o sujeito. Em resumo trata-se de um sentimento de sobrecarga e limitação, que ocorre com muitas pessoas que levam uma vida considerada normal, se repetindo de maneira sistêmica. O sujeito carrega consigo um sofrimento crônico, produtor de ansiedade e de muita angústia.
O tratamento analítico para a "culpa intolerável" leva para a procura das origens desse sofrimento, que podem estar relacionadas com a "melancolia" e com a "neurose obssessiva". Melancolia - que é uma forma organizada do estado de depressão, ao qual todas as pessoas estão sujeitas. O sujeito que sofre de melancolia sente-se diretamente responsável por desgraças e problemas que, analisados racionalmente, passam muito longe de sua responsabilidade individual. Alguns exemplos: a fome no mundo, as guerras mundiais, a desigualdade social, a crueldade com os animais, etc. A crença quase que indestrutível do sujeito nessa falsa responsabilidade que atribui a si mesmo,  é o campo necessário e perfeito para o surgimento da culpa incontrolável. Neurose obssessiva - que são idéias, compulsões e comportamentos expressos através de rituais específicos, criados pelo próprio indivíduo, com o objetivo de acertar e reparar situações ou alguma coisa que considere errado. O sujeito sofre com uma ruminação indesejável e interminável de idéias, dúvidas e escrúpulos, que o leva a inibições do pensamento e da ação objetiva. Em outras palavras o sujeito está sempre tentando acertar  e reparar alguma coisa, que  em sua fantasia ele considera errado. Logo fica claro para quem está observando e provavelmente para o próprio sujeito, que ele não terá êxito nenhum em sua tentativa de acertar e reparar, mas as ruiminações são mais fortes e os rituais sempre se repetem, atuando como um remédio que ameniza e alivia o sentimento da culpa incontrolável - ("se não agir assim, serei o responsável pelas consequências...").

Também há pessoas que demonstram uma certa "incapacidade" em sentir culpa. Felizmente o extremo dessa incapacidade é bastante raro (psicopatia ou comportamento anti-social). Mas não é raro encontrarmos pessoas que levam uma vida normal, e demonstram uma certa incapacidade em sentir preocupação ou sentimento de culpa, ou até mesmo remorso. Se pensarmos no desenvolvimento natural da capacidade de sentir culpa, podemos encontrar indivíduos que tiveram um desenvolvimento sadio apenas em parte. Isso significa que as pessoas que possuem uma certa falta de senso moral não tiveram nos estágios iniciais do seu desenvolvimento emocional, as condições físicas e emocionais que lhes possibilitasse o desenvolvimento de uma capacidade para o sentimento de culpa. Em situações favoráveis a capacidade do sentimento de culpa se constrói gradativamente no indivíduo, de maneira mediada e segura.
Obviamente o sentimento de culpa não pode ser encontrado no início do processo de maturação emocional, pelo fato de o ego ainda não estar suficientemente maduro para oferecer resistência e aceitar responsabilidades pelas pulsões do id (http://manoel-psicogrupos.blogspot.com/2011/05/o-ambiente-e-preservacao-da-essencia-da.html). Tudo começa com o desenvolvimento do respeito aos pais, em especial à mãe. Isso está diretamente relacionado com a oportunidade de "reparação". A "reparação" é um mecanismo descrito por Melanie Klein (*) pelo qual o sujeito procura reparar os efeitos produzidos pelas oscilações entre o amor e o ódio, ainda produzidos de forma intensa e primitiva no bebê e na criança muito pequena. Essas oscilações são muito comuns e normais nos estágios iniciais do desenvolvimento emocional, perdurando por toda a vida. A fronteira entre amor e ódio é extremamente tênue. A diferença está em que o adulto (sadio), por já ter o ego maturado e um consequente repertório desenvolvido, provavelmente controlará seus impulsos e irá resignificá-los e, quando for o caso, poderá "reparar" algum dano causado.
Para a criança em desenvolvimento esse é o maior desafio a ser conquistado, no tempo certo e de forma paciente, generosa e acolhedora pelos pais. Em outras palavras, cabe aos pais propiciar e oferecer a oportunidade de "reparação" como forma de elaboração desses conflitos e também de construção e desenvolvimento de um repertório amplo, espontâneo e sadio.
Basta olharmos os jornais e a internet que encontramos sinais claros desse tipo de falha no desenvolvimento emocional: roubo, mal uso do dinheiro público, homicídios, mentiras, destrutividade, violência descabida, etc. Onde há uma falta de senso moral pessoal, a necessidade do controle externo (inculcado) se faz necessária e imperiosa. Mas é preciso deixar claro que a socialização resultante desse tipo de ação é instável e pouco confiável. Os exemplos dessa instabilidade e pouca efetividade podem ser muitos: sistema carcerário (de adultos e crianças), leis que são criadas e sempre são negligenciadas, escolas reformatórias, etc. Talvez o surgimento de novas instituições que privilegiem e proporcionem o trabalho com o autoconhecimento e o desenvolvimento da capacidade de recuperação do sentimento de culpa, sejam mais efetivos. O desenvolvimento da capacidade de "reparação", mesmo em adultos já formados, produz efeitos duradouros, estáveis, consistentes e mais verdadeiros.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A princesa da água da vida

Era uma vez, quando não havia tempo, no País do Lugar Nenhum, uma pobre garota chamada Raida, que vivia solitária em uma pequena cabana.
Um dia, caminhando pelo bosque, Raida viu que um enxame de abelhas havia bandonado sua colméia, e decidiu recolher o mel.
- "Levarei esse mel ao mercado e o venderei. Com o dinheiro que conseguir procurarei melhorar de vida", disse para si mesma.
Raida correu para casa e voltou com um pote, enchendo-o de mel. Ela não sabia no entanto que a causa de sua pobreza era um gênio maléfico que tentava por todos os meios impedir que ela tivesse êxito em qualquer coisa.
O gênio acordou quando alguma coisa lhe disse que Raida estava começando a fazer algo de útil. Ele correu ao lugar onde ela se encontrava com a intenção de causar-lhe problemas. Logo que viu Raida com o mel o gênio se transformou em um galho de árvore e empurrou seu braço, de maneira que o pote caiu e quebrou, entornando todo o mel. O gênio ainda sob a forma de um galho, ria-se com satisfação, balançando-se de um lado para o outro.
-"Isto a deixará furiosa!", disse para si mesmo.
Mas ela apenas contemplou o mel e pensou:
- "Não importa, as formigas vão comer o mel, e talvez algo surja disso."
Raida tinha visto uma fileira de formigas cujas exploradoras já estavam experimentando o mel para ver se lhes seria útil. Quando começou a atravessar a floresta, no caminho de volta para sua cabana, Raida notou que um cavaleiro estava vindo em sua direção. Quando estava a apenas alguns metros dela, o homem levantou o chicote displicentemente e, ao passar, bateu num galho. Raida viu que era uma árvore de amoras, e que o golpe tinha feito com que as frutas maduras caissem no chão. Ela pensou:
- "Boa idéia. Recolherei as amoras e as levarei ao mercado para vendê-las. Talvez algo surja disso."
O gênio a viu juntando as frutas e riu-se por dentro. Quando ela terminou de encher seu cesto ele se transfromou em um burro e a seguiu silenciosamente pelo caminho que levava ao mercado. Quando Raida se sentou para descansar, o gênio sob a forma de burro aproximou-se, esfregando o focinho, e então de repente a horrível criatura se jogou sobre o cesto de amoras, esmagando-as até a polpa. O suco espalhou-se pelo caminho, e o falso burro afastou-se galopando alegremente entre os arbustos.
Raida olhou para as frutas com desânimo. Nesse momento no entanto a rainha estava passando por ali, a caminho da capital.
- "Detenham-se imdediatamente!" - ordenou aos carregadores da liteira. - "Essa jovem perdeu tudo. Seu burro esmagou as frutas e fugiu. Ela estará perdida se não a ajudarmos."
Assim foi que a rainha convidou Raida a subir em sua liteira, e rapidamente se tornaram amigas. A rainha deu uma casa a Raida, e logo ela se converteu em uma próspera comerciante, por seus próprios méritos.
Quando o gênio viu como as coisas estavam indo bem para Raida, deu uma boa examinada na casa para ver o que poderia fazer para arruiná-la. Ele percebeu que todas as mercadorias eram guardadas em um armazém atrás da casa. De modo que botou fogo na casa e no armazém, que se queimaram até os alicerces em menos tempo que se leva para contar.
Raida saiu da casa correndo quando sentiu o cheiro da fumaça, e contemplou as ruínas com pesar. Então percebeu que uma fila de pequenas formigas estava se formando. Elas carregavam grão a grão su reserva de milho, que estivera embaixo da casa, para outro local de maior segurança. Para ajudá-las, Raida ergueu uma grande pedra que cobria o formigueiro, e debaixo dela brotou uma fonte de água. Enquanto Raida a experimentava as pessoas da cidade iam se juntando à sua volta, exclamando:
- A água da vida! Isto é que foi profetizado!
Elas contarama à Raida como havia sido profetizado que, um dia, depois de um incêndio e de muitos desastres, uma fonte seria encontrada por uma jovem que não se afligia com as calamidades que lhe aconteciam. Esta seria a última fonte da vida.
E foi assim que Raida se tornou conhecida como a Princesa da Água da Vida, da qual até hoje é guardiã. Essa água pode ser bebida para dar imortalidade àqueles que a encontram, por não se impressionarem pelas calamidades que lhes possam ocorrer.

                                                                     -X-


Desejo a todos um feliz natal e um ano novo cheio de saúde, realizações e alegrias. Que possamos olhar para as nossas dificuldades e impedimentos com atenção, aprendizagem, capacidade de adaptação e reação. Agir através das "pequenas ações" que podemos verdadeiramente executar em nosso dia-a-dia. Ou seja, viver sempre no presente, aproveitando o passado como lição aprendida e o futuro como meta a ser atingida. Acredito que essa é a única forma de vencermos o "gênio maléfico", que só existe dentro de nós. Muita "água da vida" para todos nós!! Feliz 2012!

("A Princesa da Água da Vida" - Histórias da Tradição Sufi - Rio de Janeiro - 1993 - Edições Dervish, página 244.)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A capacidade de sentir culpa

Não existem evidências de que pessoas consideradas normais, sejam incapazes de desenvolver um senso moral que possibilite o sentimento de culpa. No entanto existem graus de sucesso ou fracasso no desenvolvimento do senso moral, tanto em adultos como em crianças. Essa característica não se relaciona em nada com a capacidade ou incapacidade intelectual do indivíduo, mas está totalmente atrelada ao seu desenvolvimento emocional.
Desde o nascimento inicia-se um complexo processo de medição e mediação de forças: os instintos que procuram pelo imperioso objetivo de se satisfazerem (pulsões do id) e, o desenvolvimento das forças de controle sobre os instintos (mediação do ego). Aos poucos e gradativamente, a criança passa a adquirir forças de controle através da introjeção ou incorporação dos limites que o ambiente lhe apresenta (a educação). A contenda entre id e ego fez com que Freud criasse um nome específico para tratar essa questão: superego. Como sei que muitos dos leitores deste blog não são psicólogos ou não possuem contato com expressões psicanalíticas, tomo aqui o cuidado de explicitar o significado dos termos que utilizei acima: "pulsão" - processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética, fator de motricidade) que faz o organismo tender para um objetivo; "id" - polo pulsional da personalidade cujos conteúdos são inconscientes; "ego" - polo defensivo da personalidade responsável pelos mecanismos de defesa do "eu"; "superego" - instância da personalidade responsável pela introjeção e interiorização das interdições parentais (Vocabulário da Psicanálise - Laplanche e Pontalis - Martins Fontes).        

Pois bem, a palavra introjeção significa uma aceitação mental e emocional de alguma dificuldade ou limite apresentado pelo ambiente. Isso ocorre durante toda a vida mas, principalmente durante o processo educacional. Neste caso a ansiedade amadureceu rumo ao sentimento de culpa, que irá se instalar na essência da intenção criminosa, antes da realização do crime em si.
Isso é muito diferente de imposição! Quando algo é imposto e inculcado, a essência verdadeira do indivíduo não se modificou! Isso pelo simples fato de não ter ocorrido a aceitação mental e emocional, ingredientes fundamentais para que o controle dos instintos possa ocorrer de dentro para fora e, de forma verdadeira. A situação contrária onde os instintos são controlados de fora para dentro, se assemelha mais a um ambiente autoritário e ditador, onde o medo de ser descoberto é o único responsável pelo mínimo convívio social existente. Basta uma pequena distração do controle externo para que o caos se estabeleça. Não somos capazes de aceitar mentalmente e emocionalmente, nada que nos seja imposto e enfiado goela abaixo. Principalmente fatos e limites que discordamos ou não aceitamos, mesmo que sejam ridiculamente coerentes e pertinentes. Em outras palavras, a incapacidade em ter limites e moralidade do adulto, provavelmente esteja relacionada com a sua impossibilidade enquanto criança, em ter desfrutado de um ambiente que lhe proporcionasse o tempo necessário para que essa difícil digestão ocorresse. Certamente existem limites para que a culpa se expresse e, há uma psicopatologia do sentimento de culpa, que pretendo abordar em uma próxima publicação. Mas a capacidade de sentir culpa mesmo quando inconsciente e aparentemente irracional, implica um certo grau de crescimento emocional, normalidade psíquica, e esperança.