domingo, 16 de janeiro de 2022

Temos consciência?





O que é a consciência?

Antes de mais nada, acho legal entendermos o que é consciência: dicionário Aurélio - 1.Filos. Atributo altamente desenvolvido na espécie humana e que se define por uma oposição básica: é o atributo pelo qual o homem toma em relação ao mundo (e, posteriormente, em relação aos chamados estados interiores, subjetivos) aquela distância em que se cria a possibilidade de níveis mais altos de integração. São muitas as visões que a psicologia traz, mas aqui pretendo discorrer sobre a visão junguiana, que é a que mais me identifico. Jung enxergou a consciência como uma pequena parte da psique, ainda em desenvolvimento, ainda muito frágil, mas fundamental para a individualidade do homem (sua identidade) e para o fortalecimento da civilização (tornar possível a vida em sociedade). A ciência estima que a evolução natural da consciência venha ocorrendo de forma vagarosa e também conflitante. Seu estado civilizado tem origens nos tempos da invenção da escrita (4000 AC) e pelo que podemos perceber, ainda há muito o que evoluir. Grandes áreas da mente humana ainda permanecem muito primitivas. Basta entrarmos na internet e verificarmos as notícias que logo concordaremos com essa afirmação.
Pois bem, considerando que a consciência é uma pequena parte da mente humana, é prudente desfazer uma confusão que normalmente ocorre no senso comum: a consciência não pode ser confundida com a psique! A psique diferentemente da consciência, é a totalidade da mente humana. Trabalha todos os aspectos da personalidade: pensamentos, sentimentos e comportamentos, tanto conscientes como inconscientes, é essencialmente simbólica e sua função é regular e estabilizar o sujeito internamente. A psique em toda a sua abrangência, é ainda um grande mistério que precisa de muitos estudos e de muita pesquisa. 

Qual é a importância e o papel da consciência?

A grande importância da consciência é a sua capacidade em isolar de forma saudável a maior parte da nossa mente, aquela parte misteriosa que ainda desconhecemos, e que é totalmente simbólica e caótica. Isso permite que possamos nos concentrar em uma coisa de cada vez: aprender, organizar, refazer, criar, produzir e viver em conjunto. Esta é uma conquista indiscutível e fundamental dos indivíduos e do mundo civilizado. Sem isso não haveria civilização e talvez ainda estivéssemos vivendo em pequenas hordas!
E o que seria esse isolamento saudável? É a capacidade da consciência através de uma série de processos mentais e emocionais, de organizar, selecionar e lidar com percepções, recordações, pensamentos, sentimentos, intuições, coisas boas ou ruins, tanto do mundo externo (sensorial e consciente) como do interno (emoções e inconsciente). O resultado desse processo saudável, cria os elementos  que fortalecem a identidade e a continuidade da pessoa.  E o que isso significa? Significa que assim podemos sentir hoje que somos a mesma pessoa que ontem.
O funcionamento desse processo, é para que as experiências que temos se tornem conscientes, combinando informações sensoriais e objetivas do mundo externo, com os conteúdos cifrados e simbólicos do inconsciente. E quanto mais a consciência vai recebendo informações novas (internas e externas), organizando e reorganizando, mais ela se amplia e se fortalece. Isso seria em outras palavras a tal expansão da consciência. E a consciência mais expandida, consequentemente aumenta a força da identidade e consequentemente, o fortalecimento da civilização. 

A fragilidade da consciência

A consciência inspira muitos cuidados! Ela ainda é uma aquisição muito recente da espécie humana, muito frágil e está sujeita a perigos e ameaças que podem facilmente lhe causar transtornos. O principal deles é a sua fragmentação: quando não sei mais quem sou e perco a identidade, quando tudo perde o sentido e o significado e como defesa desenvolvemos processos neuróticos. Emoções incontidas e não trabalhadas (que pertencem ao inconsciente), normalmente tem esse poder de prejudicar a consciência. As experiências e a forma como percebemos e sentimos a vida, quando são ruins ou quando consideramos como uma ameaça (angústias, complexos, traumas etc...), podem nos fazer sofrer em excesso. Como defesa, tiramos da frente para escapar do sofrimento. Fazemos isso recalcando esses acontecimentos no inconsciente pelo simples fato de ainda não caberem na consciência. Em outras palavras, não conseguimos lidar com esse sofrimento conscientemente. Não damos conta de conscientemente, sequer olhar para eles.  Então acabamos “esquecendo” deles e, na verdade nós não esquecemos, apenas tiramos da consciência jogando-os para o inconsciente. Uma vez no inconsciente, esses sentimentos e memórias não desaparecem, continuam lá, latentes,  influenciando nosso estado de espírito, comportamentos e nossa vida em geral. 
Nos casos mais graves, dependendo da predisposição da pessoa e da carga energética e simbólica do conteúdo recalcado e reprimido, essas forças podem atuar para danificar e dissociar a consciência, prejudicando o equilíbrio e a capacidade de se individuar e continuar. As formas como essa tragédia pode ocorrer, também ainda são cheias de mistérios e de incertezas. Há muito o que se estudar e pesquisar. Em outras palavras, é quando uma pessoa perde a sua alma. Em saúde mental quando se fala em perda da alma, corretamente logo se faz a associação direta com aqueles que se tornaram psicóticos e que antigamente (infelizmente), tinham o destino dos manicômios: Os loucos!


A consciência para ampliar e se fortificar, precisa mais do que a lógica e  razão.

Costumamos achar que a consciência precisa única e exclusivamente da razão e dos cinco sentidos para funcionar adequadamente. Embora a razão e uma clara percepção dos sentidos sejam muito importantes, são insuficientes! Jung observou que o ser humano não consegue perceber e compreender por completo, a realidade objetiva a sua volta. Sempre irá precisar intuir outras formas e estratégias para perceber o mundo e a si mesmo. Ou seja, precisa buscar elementos inconscientes e internos para combinar com a percepção sensorial e objetiva externa e, ai sim, ampliar sua consciência, trazendo luz e sentido para aquilo que está experimentando e conhecendo
Há quem questione: mas para perceber o mundo eu preciso apenas dos meus sentidos e da razão para interpretá-lo. E digo que esse é um grande equívoco! E para me explicar aqui, quero repetir uma frase maravilhosa da escritora Anais Nin: "Não vemos as coisas como elas são, nós vemos as coisas como nós somos." O que poética e lindamente Anais Nin sintetizou numa frase, significa que tudo o que é observado racionalmente pela consciência e pelos sentidos (audição, visão, paladar, olfato e tato), é transposto da realidade objetiva para a mente e se transforma em experiências psíquicas. ou realidade subjetiva. 
A realidade objetiva torna-se então, realidade subjetiva. E a subjetividade de uma pessoa é apenas daquela pessoa! Da mesma maneira e ao mesmo tempo, aspectos da experiência que escaparam aos sentidos, também se tornam experiências psíquicas, só que inconscientes. Ficam escondidinhas "embaixo do tapete", sem que tenhamos consciência delas. Só serão percebidas em algum momento de intuição, meditação ou o mais comum, através de sonhos. E surgem sempre como um "segundo pensamento". Não como um pensamento racional e lógico, mas como uma imagem simbólica e aparentemente maluca que não pode ser muito explicada. Não conseguimos explicar com lógica a intuição, a espontaneidade e criatividade. 
Em síntese, saúde mental é Consciência e Inconsciente convivendo num estado profundo e equilibrado de interdependência: o bem-estar de um é impossível sem o bem-estar do outro. E é um equívoco considerar que a consciência limite-se a utilizar apenas a lógica e a razão em seu processo. 

A consciência é o principal instrumento para o autoconhecimento

A maior parte dos nossos conteúdos emocionais são simbólicos, míticos e  inconscientes e sequer temos acesso a eles. Muito pouco sobre como realmente somos está em nossa consciência e sob nosso controle. Ou seja, quase tudo o que fazemos (pensar, sentir, intuir e agir) é totalmente influenciado pelo inconsciente e não passa pela consciência porque costumamos bloquear e evitar. Fazemos isso, na minha opinião, por dois motivos: primeiro por medo desse mundo caótico e  assustador que é o inconsciente. É um mundo onde não temos controle do que nos será revelado. E isso é muito assustador. E lidamos com esse medo considerando como bobagens ilógicas ou crendices e superstições, as mensagens enviadas pelo inconsciente que recebemos o tempo todo. 
Em segundo lugar, fazemos isso porque desde o período do renascimento, privilegiamos o uso da razão para resolver todos os nossos problemas. Não há dúvida de que a razão foi uma grande conquista do homem para resolver suas dificuldades. A ciência e a tecnologia evoluíram consideravelmente, graças ao método e à razão como ferramentas para equacionar problemas e criar soluções. Quase tudo que podemos usufruir com os avanços da tecnologia e da medicina por exemplo, devemos ao poder do método e da razão.  
Mas é preciso admitir que a razão é insuficiente para uma boa compreensão da própria existência e da realidade que se faz parte. Uma pessoa pode ter uma grande capacidade racional de desenvolver métodos e fazer um uso nada edificante disso. Por exemplo: criar armas de destruição em massa, construir fornos para queimar cadáveres de vítimas em larga escala, manipular leis e pessoas em benefício próprio, manipular e desorientar pessoas com fake news em plena pandemia, ou até mesmo preparar armadilhas para atrair e espancar homossexuais. No sentido contrário, há pessoas que simplesmente doam toda sua capacidade, tempo e saúde para indivíduos, organizações ou instituições que usam e abusam enquanto houver o que tirar, até não sobrar nada. Em ambos os casos, claramente não se tem consciência e controle das emoções e das ações.
Não há dúvida nenhuma de que nestes casos temos pessoas com muitos problemas e, aparentemente, com nenhuma disposição para enfrentá-los. Aqui não há expansão da consciência, ao contrário, há um rancor ou uma necessidade para que o mundo fique parado, porque tenho a sensação de que não consigo acompanhar.    
Compreender e ter consciência de quais são meus limites e quais são as minhas habilidades, o que verdadeiramente me faz sentir raiva, desprezo, culpa, medo, alegria, motivação, certezas etc,  certamente evitaria ou no mínimo ajudaria a evitar as situações acima. Situações onde há o risco da perda da identidade e destruição da civilização e da liberdade.
Talvez a perda da alma seja o aspecto da saúde mental que mais encontremos hoje em dia, nos atos de violência descabida e extrema, racismo, intolerância de toda espécie etc.  Reflexão: será que uma pessoa que mate ou abuse de crianças a sangue frio, que espanque sua companheira, ou que detone uma bomba num local cheio de gente,  tem realmente consciência?

C.Jung – “O controle de si mesmo é virtude das mais raras e extraordinárias.”

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O equilíbrio necessário - intuição x razão


Equilíbrio psicológico significa reagir psicologicamente de forma adequada e moderada diante de estímulos externos e internos, permitindo um certo autocontrole sobre a vida e também sobre os próprios instintos. A saúde da psique depende basicamente do equilíbrio psicológico. Quando o equilíbrio deixa de existir, o homem entra em colapso tornando-se refém dos acontecimentos externos ou internos. Passa a reagir de forma exagerada diante dos fatos tornando-se extremamente sensível e instável. Tudo parece perder o sentido e o significado. Em tempos difíceis como os de hoje em dia, onde o sentimento de angústia pode ser encontrado em qualquer conversa um pouco mais profunda, o equilíbrio psicológico parece estar ameaçado.   
O sentimento de angústia tem dado o tom maior para boa parte das pessoas. Angústia é uma expressão que tem sua origem no latim e significa: caminho estreito, aflição intensa, agonia, limite de espaço e de tempo. Significado perfeito para estes tempos difíceis e motivos para esse estado emocional pesado parecem não faltar. Começa por termos a sensação de não termos mais tempo para nada. O tempo está passando muito rápido e não conseguimos sequer parar por um instante.  Sem contar que a convivência no mundo atual está recheada de extrema violência, com muitos conflitos, mentiras (fake news), desorientação, doenças novas e assustadoras, doenças velhas que estavam praticamente extintas e estão ressurgindo, falta de oportunidades, intolerância e brutalidade. Parece que o valor pela vida e pelo ser humano desceu significativamente a régua, ou se foi para sempre. Atitudes e comportamentos inacreditáveis nos fazem crer que as portas do esgoto subterrâneo da psique humana estão escancaradas. O homem civilizado está sendo colocado à prova e a sensação desesperadora que temos, é que ele está perdendo feio. A saúde da psique que já possui uma fragilidade genuína, diante de cenários macro tão difíceis demonstra estar acusando o golpe. Perda de sentido na vida, explosões de raiva, descontrole, depressão, transtornos de ansiedade e uma importante fragmentação da identidade tem sido sintomas muito comuns. Minha experiência profissional tem confirmado essa impressão, infelizmente.

A psique diante das adversidades tende ao desequilíbrio, mas precisa fundamentalmente dele para não adoecermos gravemente. Um equilíbrio que combine os fatores externos e objetivos, com os fatores internos e subjetivos: consciência inconsciente trabalhando juntos para a produção do "sentido" e da "significação" da vida e de si próprio. De forma natural consciência inconsciente dependem simbioticamente um do outro. Não é possível um estar bem se o outro não estiver. Mas a consciência do homem moderno e sua relação com o inconsciente, parece estar doente e sem conexão, cada vez mais desprovida de "significação"
Se o cenário interno não estiver bom, claro que o cenário externo também não estará. Não podemos esquecer que a forma como enxergamos o mundo e a vida, são projeções de nossa mente: ("Não vemos as coisas como elas são, nós vemos as coisas como nós somos! - Anaís Nin"). Esses argumentos me fazem crer que talvez uma boa maneira de melhorarmos esse mundo difícil e caótico, seria primeiro melhorando nosso mundo interno. E como podemos fazer isso? Talvez seja prestando mais atenção na riqueza do mundo interno, restabelecendo uma boa conexão entre consciência inconsciente e permitindo que a criatividade traga soluções genuínas e transformadoras para a vida.
Permitir-se experimentar conscientemente sentimentos, sentidos e intuições. Quando ressalto "experimentar conscientemente", me refiro ao fato da intuição e dos sentidos pertencerem ao mundo inconsciente, e não fazerem parte da consciência, que naturalmente costuma rejeitar as mensagens sempre cifradas enviadas pelo inconsciente. A consciência do homem moderno por utilizar normalmente a lógica e a razão, tende a ignorar essas mensagens cifradas através de sonhos, impressões e intuições. Combinada com os conteúdos inconscientes, a percepção da realidade objetiva e externa aumenta significativamente porque aumenta-se a quantidade e a qualidade dos sentidos, aumentando e fortalecendo a consciência. A intuição poderá espontânea e criativamente trazer luz para aquilo que se está observando conscientemente e que parece não ter saída. A espontaneidade e a criatividade surgem do mundo inconsciente, trazendo respostas novas para questões antigas. Aumentando a sua percepção da realidade, o homem saberá como se posicionar e se adaptar equilibradamente diante das dificuldades e das facilidades.
Como dizia Gilberto Gil em sua linda canção: "A luz nasce na escuridão".

Mas infelizmente, olhar para dentro de si parece não ter nenhuma validade ou importância para a maior parte das pessoas. Nos acostumamos a apenas "pensar" para organizar intelectualmente aquilo que percebemos sensorialmente (5 sentidos) sobre as experiências da vida. Provavelmente isso esteja relacionado com o medo recorrente que o homem tem do novo e daquilo que provocará mudanças onde aparentemente ele perderá o controle. E uma forma de se proteger desse medo é ignorar tudo o que não pareça ser racional e intelectualmente lógico. A lógica racional nos faz crer erroneamente, que estamos no controle. O conteúdo inconsciente é sempre simbólico, mítico e consequentemente mais assustador. Suas mensagens são sempre cifradas. Sonhar, meditar, dançar, fazer mantras, ouvir música, observar telas de arte, esculturas, ler poemas, contemplar a natureza, são maneiras e atividades que podem facilitar esse contato. A linguagem dos sonhos é um bom exemplo da forma simbólica como o inconsciente se comunica. Observar os próprios sonhos e utilizá-los como forma de meditação, inspiração e motivação para a mudança. A psicologia Jungiana se utiliza da "imaginação ativa" como uma importante forma de transcendência e autoconhecimento. Jung foi o precursor deste método e o utilizou para estimular pacientes psiquiátricos a extravasarem fantasias inconscientes e conscientes e exercitarem a espontaneidade e criatividade através das artes. Este assunto tem me fascinado ultimamente e pretendo discorrer mais sobre ele futuramente. 
Mas neste mundo corrido, ao invés disso a maior parte das pessoas está aprisionada pela tecnologia. O homem moderno dedica mais tempo para a tecnologia do que para si mesmo. Passou a confiar quase que cegamente na tecnologia para resolver todos os problemas do seu dia a dia. Curiosamente, na medida em que o conhecimento tecnológico aumenta sua abrangência e capacidade em propor novas soluções, diminui-se na mesma ou maior proporção o grau de humanização. Estamos isolados diante de uma tela, praticamente impossibilitados de exercitar a empatia. Para se humanizar é preciso entrar em contato profundo com a própria humanidade e compartilhá-la através de nossas ações práticas e objetivas na vida cotidiana.
Volto a escrever mais sobre a riqueza do inconsciente e na importância da sua conexão com a consciência, como forma de preservá-la saudável, maior e menos frágil.


terça-feira, 4 de setembro de 2018

Por que perdoar?











O que significa perdoar? Você realmente já perdoou alguém? Você já se perdoou alguma vez? Por que é tão difícil perdoar alguém quando nos sentimos profundamente magoados? Por que é tão difícil se perdoar quando nos arrependemos de uma má decisão ou da falta de alguma decisão? E qual é a importância em se perdoar? Existe algum benefício real em se perdoar? Será que perdoar está exclusivamente relacionado a ficar bem com Deus?
Quando se fala em perdoar imediatamente um link religioso é acionado: "... perdoai-os Senhor... eles não sabem o que fazem..." disse Jesus em seus últimos momentos, diante de um sofrimento brutal. Esta incrível demonstração de desprendimento tornou-se um forte alicerce do catolicismo e inunda o imaginário coletivo até os dias de hoje. Normalmente o ato de perdoar é associado ao exemplo deixado por Jesus para a humanidade. E diante de tamanha demonstração de amor e desprendimento, corremos o risco de ficarmos estagnados. Explico: a ideia de que perdoar, por ser uma tarefa tão difícil e tão improvável, faz com que acreditemos que seja uma tarefa possível somente para Deus.

Mas 
do ponto de vista terapêutico, perdoar é perfeitamente possível e é sobre isso que pretendo tratar aqui. Perdoar é muito importante para a boa saúde mental e emocional, porque está associado a se jogar fora o lixo que alguém ou alguma situação da vida depositou dentro de nós. Significa se livrar de uma sensação extenuante de se estar enxugando gelo, de se estar em looping e refém de sentimentos angustiantes de raiva, impotência e baixa estima. Abrimos espaço interno para recuperar o protagonismo da própria vida. Estes sentimentos angustiantes quando cristalizados, atuam como tumores que drenam a energia da pessoa, impedindo-a de ser espontânea, criativa, produtiva e de tomar decisões mais adequadas na vida. 
Também é preciso esclarecer que perdoar não é nunca para aquele que causou o sofrimento. Perdoar é sempre para aquele que sofre. Não se pode confundir o ato de perdoar com permissividade. Não se trata de simplesmente desculpar alguém que faltou com o respeito, ou foi cruel e agressivo. Também não significa que se deve esquecer algo doloroso que tenha acontecido, nem que não se possa sentir raiva, ou que se deva minimizar um sofrimento muito grande. Lidar adequadamente com a própria raiva e com a dor, fazem parte da saúde e do crescimento emocional. Estes sentimentos ruins podem ser transformados em combustível para mudanças importantes da própria vida. E do ponto de vista fisiológico, perdoar reduz o estresse e diminui muitos sintomas físicos associados, diminui fatores de risco para doenças cardiovasculares e câncer, fortalece o sistema imunológico e reduz significativamente a tensão muscular.

Dependendo da intensidade da mágoa gerada, perdoar torna-se uma tarefa realmente muito difícil e muito dolorosa de se realizar. Quase sempre podemos precisar de ajuda para realizá-la. Qualquer pessoa que se comprometa consigo mesma, até mesmo aquelas que sofreram perdas devastadoras, podem conseguir. Talvez a maior dificuldade em se perdoar esteja relacionada ao sentimento angustiante de impotência e estagnação que experimentamos diante da 
agressividade desmedida, ou simples desconsideração de outras pessoas para conosco. Quando percebemos ausência de culpa e de sinais de preocupação e reparação quando agem mal conosco, nos sentimos estagnados e impotentes. Sentimentos tão angustiantes podem fazer brotar a necessidade do revide, calcados na ilusão de que fazendo sofrer em dobro aquele que me fez sofrer, meu sentimento angustiante de impotência e estagnação irá se dissipar. Na verdade, nesta condição nos tornamos reféns e coadjuvantes dos próprios sentimentos. Presos no looping da angústia onde as ações e desejos dos outros ditarão as regras de como iremos nos sentir. E diante de sentimentos tão ruins, como pensar em perdoar?
Pois bem, perdoar só é possível a partir de uma firme decisão pessoal. O sujeito precisa escolher realmente sair da incômoda condição de coadjuvante, para protagonista da própria vida. Precisa decidir em ser o único responsável pelos próprios sentimentos. Ao fazer isso, tira a responsabilidade sobre seus sentimentos, daquele que lhe fez sofrer - a culpa por como está se sentindo arrasado, não será mais dos outros. Em não sendo mais dos outros,  agora sim pode se responsabilizar e mudar essa condição. E para isso existem técnicas e reflexões terapêuticas que buscam facilitar essa enorme empreitada, aumentando muito a chance de se cumpri-la.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O Diagnóstico psicológico e suas diferenças






O que esperar do papel do psicólogo(a) e onde localizar a fronteira que delimita seu campo de atuação? O que se espera que o psicólogo(a) faça quando precisar atuar em situações complexas como por exemplo: o sofrimento psíquico de alguém exigir cuidados psiquiátricos além da psicoterapia processual, ou a necessidade de aplicação de testes projetivos ou psicométricos, ou compreender a personalidade e seu conjunto de possibilidades, ou identificar e estudar comportamentos, ou selecionar perfis específicos para trabalhos específicos, etc.? A resposta principal e mais importante: na prática a psicologia está focada em aliviar o sofrimento psíquico de seu cliente.  Algumas vezes o psicodiagnóstico é o ponto de partida para qualquer ação ou intervenção, diante do problema que se apresenta. O psicodiagnóstico é a tentativa de organizar as informações que se apresentam através do cliente, utilizando-se dos vários conhecimentos e teorias que compõe o estudo psicológico, com o único objetivo e finalidade de ajudá-lo. O diagnóstico psicológico praticado pelo psicólogo, como outros tipos de diagnóstico determinados por outras ciências, deve atender a objetivos já definidos teoricamente, de acordo com a sua linha de trabalho. Ao mesmo tempo, essa prática constante permite que esses conhecimentos e teorias já determinados previamente, sejam validados ou até mesmo, modificados, num movimento que aumenta a possibilidade de compreensão de um determinado fenômeno. Essa é uma velha questão entre teoria e prática que ocorre em todas as ciências: uma não sobrevive sem a outra - uma alimenta a outra. A prática clínica diária é o que tem impulsionado o desenvolvimento de novos modelos de psicodiagnóstico, forçando a melhor compreensão ou modificação de conceitos e teorias que já estavam previamente estabelecidos.

Diagnóstico vem do grego diagnõstikós - que tem o significado de: discernimento ou faculdade de conhecer ou ver através de. Mas trata-se de um conhecer e de um ver, que procura ir além daquilo que o senso comum já conhece. E para se "ir além", é necessário se fazer uso de conceitos e teorias filosóficas ou científicas, que sempre variam conforme o tipo de compreensão que se queira ter acerca de algum fenômeno. O caminho para este conhecimento é percorrido através de processos e observações, que geram avaliações e interpretações. E o curioso é que toda avaliação e interpretação, sempre está vinculada e à serviço de uma forma de se ver o mundo, de se pensar e de se estruturar conceitos e teorias. Sim, existem várias formas de se ver o mundo e de se construir teorias. Um mesmo fenômeno pode ser observado por vários tipos e formas de se pensar, gerando teorias, compreensões e atuações distintas. Um bom exemplo que é muito comum: pessoas que procuram pela medicina homeopática para se tratar de algum problema, certamente teriam uma compreensão e um método de atuação muito diferentes, se procurassem pela medicina alopática ou pela medicina antroposófica para tratar do mesmo problema.

Por ser muito ampla e vasta, a própria psicologia possui dentro de seu campo conceitual e de atuação, muitas formas diferentes de se pensar e construir teorias e conhecimentos. Essa multiplicidade de informações pode as vezes acabar reforçando uma certa confusão de papeis e de campos de atuação que vou procurar esclarecer minimamente. Talvez isso se explique pelo fato da psicologia estar inserida no conjunto das ciências humanas, que buscam compreender qualquer fenômeno humano. Os fenômenos humanos são muito complexos e a busca por dados e informações, pode exigir o uso de informações de outras fontes e ciências. Ao mesmo tempo, fenômenos humanos também podem e são estudados por outras ciências. Mas embora possa fazer uso de dados de outras ciências, as funções do psicólogo devem sempre estar se referindo aos fenômenos humanos, abrangidos pela psicologia. A psicologia é composta por vários tipos de conhecimento, teorias e modos de pensar, que produzem técnicas e compreensões específicas e distintas. E esses conhecimentos e métodos é que irão determinar o campo de atuação e competência do psicólogo(a).

A preocupação com o psicodiagnóstico surgiu desde que as doenças mentais passaram a ser consideradas como doenças e distúrbios passíveis de serem estudados e tratados (por volta do final do Séc.XIX), e não mais como possessões ou punições divinas. Desde então, a psicologia clínica passou a observá-las, descrevê-las e classificá-las. A psicologia clínica se iniciou e se desenvolveu através do ramo da medicina voltado para o estudo das doenças mentais: a psiquiatria. Foram os médicos os primeiros a se preocuparem com a saúde mental e a fundarem a psicologia clínica. Diferente da psicologia, a medicina está inserida no campo das ciências naturais. O modelo médico inicial enfatizava os aspectos patológicos do indivíduo, nosologia (ramo da medicina que estuda e classifica as doenças...) e fazia uso de instrumentos que pudessem medir as características do indivíduo. Essas foram as fundações para o surgimento dos testes psicométricos que visam determinar da capacidade intelectual, aptidões e dificuldades cognitivas enfrentadas pelo indivíduo. Hoje em dia são muito utilizados para fornecer orientação para pais, professores, médicos, instituições, psicólogos, etc.
Nesta esteira também surgiu o modelo comportamental, que observa o fenômeno humano através do comportamento, preocupando-se em determinar as leis que o regem e as variáveis que o influenciam. Sua ação preocupa-se em poder agir sobre ele, mantendo-o, substituindo-o ou modelando-o. 
Em outras palavras o modelo médico se baseou nas ciências naturais para compreender os fenômenos humanos, considerando que assim poderia observar, medir e classificar.

No início do Séc.XX surgem as novas escolas que passam a encarar o psicodiagnóstico de maneira diferente, levando em conta a subjetividade humana. Ao contrário do comportamento ou de testes que possam ser medidos, a subjetividade humana como o próprio nome diz, não pode ser objetiva. Cada indivíduo é singular em sua subjetividade. Para estas escolas não é possível avaliar os fenômenos humanos através de regras gerais, que servem para se observar os fenômenos observáveis da natureza. Outra diferença crucial está no fato destas escolas considerarem impossível se separar ou haver algum tipo de isenção, entre o observador (aquele que está estudando o fenômeno humano), e o objeto que se está observando (o indivíduo e sua subjetividade). Considera que o observador também é humano e também possui subjetividade. Portanto, enquanto observa e cria teorias, não pode negar a participação de sua subjetividade neste processo. Este novo pensamento sobre os fenômenos humanos se originou na filosofia, que considerava que todo o conhecimento existente havia sido estabelecido pelo homem, e por isso mesmo, com a participação de toda a sua subjetividade. E assim ficou claro que os métodos objetivos das ciências naturais onde o modelo médico se baseava, não poderiam ser transpostos para as ciências humanas. 
As principais escolas que surgiram passaram a criar novas teorias e novas formas de atuação. A escola humanista passa a considerar o psicodiagnóstico um reducionismo e passa a criticá-lo em seu aspecto classificatório. Considerava que se tratavam de racionalizações baseadas em julgamentos que desprezavam o aspecto humano. Já a escola fenomenológico-existencial considerava que a dados obtidos por entrevistas ou em testes poderiam sim ser úteis para o processo de psicoterapia, ajudando as pessoas no caminho do autoconhecimento. Mas um caminho a ser percorrido e mediado entre o psicólogo e seu cliente, onde o resultado final ainda estava em construção. A escola psicanalítica surge e revoluciona a psicologia. Ela introduz o conceito de inconsciente e se preocupa em estudar os processos intrapsíquicos, a dinâmica da personalidade, os comportamentos psicopatológicos, sua origem e prognóstico. Cria-se uma nova teoria que passa a valorizar as entrevistas como instrumento de trabalho, a criação de testes projetivos (testes baseados na hipótese projetiva: ao procurar organizar uma informação ambígua, o indivíduo projeta aspectos de sua própria personalidade), e a relação entre o psicólogo(a) e seu cliente. Assim a psicanálise criou instrumentos sutis e poderosos para observar o que se passa com o indivíduo, por detrás de seu comportamento aparente.

Seja qual for o modelo acima seguido pelo psicólogo(a), ele estará atuando dentro do campo da psicologia, cujo maior objetivo é compreender seu cliente a fim de ajudá-lo.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Quando a doença entra em cena - relação saúde / doença

                                                                       (O médico - 1891 - Sir Samuel Luke Fildes)

A vida moderna e corrida é uma máquina de estímulos que nos mantém sempre ocupados, correndo atrás do próprio rabo, não parando para ver e escutar qualquer coisa que atrapalhe nossa maratona diária. É comum a sensação de se estar sempre atrasado, nunca se estando onde realmente se está: o aqui e agora praticamente não existe em nosso dia-a-dia porque o pensamento sempre está no próximo compromisso, e nunca naquilo que se está fazendo realmente. Falamos muito mais do que ouvimos e para nos proteger, criamos um certo isolamento que nos mantém longe dos problemas e dificuldades das outras pessoas. Em outras palavras, confundimos privacidade com individualismo e usamos isto como desculpa para nos mantermos distantes, isolados e protegidos. Vivemos numa roda-viva que costumamos criticar, mas que diariamente alimentamos e damos força, mesmo sem perceber. Repetimos conservas e padrões de um comportamento mecânico, que são adequados para um sistema econômico e social, que precisa que todos estejam permanentemente "produzindo e consumindo". Neste estado mantemos uma fantasia muito comum: quanto mais me movimentar, mais vou conquistar e consumir. Quanto mais movimento mecânico e não espontâneo, menos criatividade, menos tempo para a escuta e para o compartilhamento.
Na maior parte das vezes se estabelece um ciclo infinito, onde sempre se corre atrás daquilo que não está aqui e agora, mas em algum lugar do futuro ou do passado. Este ciclo costuma ser rompido drasticamente nos momentos em que surge alguma adversidade, capaz de tirar o sujeito de sua maratona infinita. Nos momentos em que a vida apresenta adversidades, as pessoas costumam lembrar que precisam muito umas das outras. A doença é uma das adversidades que força o sujeito a lembrar de que não vive sozinho. Receber um diagnóstico médico indesejado para si, ou para alguém próximo, é sempre assustador. A doença tem o poder de excluir o sujeito da roda produtiva e consumidora, acrescentando ao sofrimento que já produz naturalmente, o sentimento de vergonha e humilhação. Parte importante da tristeza que se estabelece com o surgimento da doença, está relacionado com a vergonha de não se sentir mais produtivo.
No momento em que alguém recebe uma notícia ruim sobre sua saúde, ou sobre a saúde de alguém próximo, a vida vira de pernas para o ar. Quase tudo que tinha muito sentido, deixa de ter sentido e surgem os sentimentos angustiantes de medo, desamparo e indefinição. Quando a doença entra em cena, o distanciamento que antes protegia passa a ser uma das maiores dificuldades e fonte de sofrimento.
O sujeito doente que sai em busca de um profissional ou instituição para ajudá-lo, tem a fundamental necessidade de calor humano, acolhimento e orientações esclarecedoras. Sabemos e escutamos histórias de que houve um tempo, em que profissionais e instituições cuidavam do corpo doente de uma pessoa, mas também se preocupavam em estimular o otimismo e a alegria, que são ingredientes mágicos e preciosos no processo de qualquer tipo de cura e tratamento. A escuta atenta e continente da história do sujeito, a empatia e a generosidade são elementos fundamentais nesta relação. Quando se procura por ajuda profissional, procura-se por esse sujeito quase mítico, capaz de acolher, ouvir, entender, orientar e ajudar.
Nestes momentos difíceis, espera-se muito mais do que conhecimento técnico e científico.

Os profissionais de saúde que em tese são aqueles que conhecem e tem acesso a sabedoria da ciência, possuem o status de "deuses" nos momentos angustiantes causados pela doença. Um status que quase sempre os envaidece. O imaginário comum está repleto de "deuses" que salvaram muitas vidas e devolveram a alegria para muitos doentes e suas famílias. E muitas vezes isso foi, ou é verdade, felizmente. Mas quando falamos na visão moderna que a ciência apresenta sobre a saúde, especialmente na saúde pública, na maior parte das vezes o sujeito doente se defronta com profissionais e instituições que não possuem tempo para olhá-lo, escutá-lo e estimulá-lo.  O atendimento disponibilizado para a população costuma ser rápido e impessoal, se preocupando mais com o cumprimento de regras e protocolos reconhecidos cientificamente. Quase não há conversa e compartilhamento, apenas uma racionalidade científica, médica e sociológica, que busca enxergar e proteger a saúde, mas que costuma se esquecer do sujeito. A saúde é enxergada através da decomposição do corpo humano em elementos constituintes, no funcionamento e desagregação deste elementos, na relação dos seres humanos com seus corpos, nas mentes humanas, na sexualidade humana, no sofrimento humano e na morte humana.
Esta visão está profundamente enraizada e atrelada a atuação do profissional, que possui um discurso técnico e especializado, focado nas relações das ciências com suas próprias teorias e conceitos. O sujeito doente está fora deste discurso.
A essência da racionalidade científica é claramente construtivista, mas sua forma de atuação a torna excessivamente prática, impositiva e classificatória: os anormais portadores de doenças, síndromes e distúrbios. Impessoalizar o atendimento faz com que vertentes mais subjetivas do sujeito adoecido, sejam ignoradas. Com isso perde-se a oportunidade de se acrescentar elementos mais humanos e determinantes na relação saúde / doença. Não é incomum pessoas doentes esconderem dos profissionais que as atendem, por puro medo ou pura incompreensão, fatos relevantes que poderiam contribuir muito com seu diagnóstico, tratamento e desenlace. Não se sentem a vontade e não confiam, contribuindo para o aumento do distanciamento desta relação.
É preciso lembrar que os profissionais de saúde também fazem parte deste mundo corrido e surdo. E como todas as pessoas, muitas vezes se comportam como surdos e ilhados, mesmo nos momentos em que suas atitudes, crenças e capacidade em proporcionar afeto, possuam um enorme peso e poder de influência. Lembrá-los disto quando necessário, é uma importante contribuição que talvez ajude a reduzir este distanciamento. Tenho a forte crença de que a vida só tem sentido nas relações de afeto, troca e aprendizagem que somos capazes de construir e manter. Embora reconheça que nos dias de hoje esteja cada vez mais difícil manter esta crença, me esforço muito para manter este propósito.
A atitude de acolher, escutar e compartilhar talvez esteja mais atrelada pelos ideias contemplativos do Ser e de suas causas, oriundos da filosofia grega clássica. Parece que em algum momento da história a ciência se distanciou destes ideais, permitindo que seu lado mais pragmático, aparentemente neutro e impositivo, ocupasse a maior porção do espaço na relação saúde / doença.