terça-feira, 4 de setembro de 2018

Por que perdoar?











O que significa perdoar? Você realmente já perdoou alguém? Você já se perdoou alguma vez? Por que é tão difícil perdoar alguém quando nos sentimos profundamente magoados? Por que é tão difícil se perdoar quando nos arrependemos de uma má decisão ou da falta de alguma decisão? E qual é a importância em se perdoar? Existe algum benefício real em se perdoar? Será que perdoar está exclusivamente relacionado a ficar bem com Deus?
Quando se fala em perdoar imediatamente um link religioso é acionado: "... perdoai-os Senhor... eles não sabem o que fazem..." disse Jesus em seus últimos momentos, diante de um sofrimento brutal. Esta incrível demonstração de desprendimento tornou-se um forte alicerce do catolicismo e inunda o imaginário coletivo até os dias de hoje. Normalmente o ato de perdoar é associado ao exemplo deixado por Jesus para a humanidade. E diante de tamanha demonstração de amor e desprendimento, corremos o risco de ficarmos estagnados. Explico: a ideia de que perdoar, por ser uma tarefa tão difícil e tão improvável, faz com que acreditemos que seja uma tarefa possível somente para Deus.

Mas 
do ponto de vista terapêutico, perdoar é perfeitamente possível e é sobre isso que pretendo tratar aqui. Perdoar é muito importante para a boa saúde mental e emocional, porque está associado a se jogar fora o lixo que alguém ou alguma situação da vida depositou dentro de nós. Significa se livrar de uma sensação extenuante de se estar enxugando gelo, de se estar em looping e refém de sentimentos angustiantes de raiva, impotência e baixa estima. Abrimos espaço interno para recuperar o protagonismo da própria vida. Estes sentimentos angustiantes quando cristalizados, atuam como tumores que drenam a energia da pessoa, impedindo-a de ser espontânea, criativa, produtiva e de tomar decisões mais adequadas na vida. 
Também é preciso esclarecer que perdoar não é nunca para aquele que causou o sofrimento. Perdoar é sempre para aquele que sofre. Não se pode confundir o ato de perdoar com permissividade. Não se trata de simplesmente desculpar alguém que faltou com o respeito, ou foi cruel e agressivo. Também não significa que se deve esquecer algo doloroso que tenha acontecido, nem que não se possa sentir raiva, ou que se deva minimizar um sofrimento muito grande. Lidar adequadamente com a própria raiva e com a dor, fazem parte da saúde e do crescimento emocional. Estes sentimentos ruins podem ser transformados em combustível para mudanças importantes da própria vida. E do ponto de vista fisiológico, perdoar reduz o estresse e diminui muitos sintomas físicos associados, diminui fatores de risco para doenças cardiovasculares e câncer, fortalece o sistema imunológico e reduz significativamente a tensão muscular.

Dependendo da intensidade da mágoa gerada, perdoar torna-se uma tarefa realmente muito difícil e muito dolorosa de se realizar. Quase sempre podemos precisar de ajuda para realizá-la. Qualquer pessoa que se comprometa consigo mesma, até mesmo aquelas que sofreram perdas devastadoras, podem conseguir. Talvez a maior dificuldade em se perdoar esteja relacionada ao sentimento angustiante de impotência e estagnação que experimentamos diante da 
agressividade desmedida, ou simples desconsideração de outras pessoas para conosco. Quando percebemos ausência de culpa e de sinais de preocupação e reparação quando agem mal conosco, nos sentimos estagnados e impotentes. Sentimentos tão angustiantes podem fazer brotar a necessidade do revide, calcados na ilusão de que fazendo sofrer em dobro aquele que me fez sofrer, meu sentimento angustiante de impotência e estagnação irá se dissipar. Na verdade, nesta condição nos tornamos reféns e coadjuvantes dos próprios sentimentos. Presos no looping da angústia onde as ações e desejos dos outros ditarão as regras de como iremos nos sentir. E diante de sentimentos tão ruins, como pensar em perdoar?
Pois bem, perdoar só é possível a partir de uma firme decisão pessoal. O sujeito precisa escolher realmente sair da incômoda condição de coadjuvante, para protagonista da própria vida. Precisa decidir em ser o único responsável pelos próprios sentimentos. Ao fazer isso, tira a responsabilidade sobre seus sentimentos, daquele que lhe fez sofrer - a culpa por como está se sentindo arrasado, não será mais dos outros. Em não sendo mais dos outros,  agora sim pode se responsabilizar e mudar essa condição. E para isso existem técnicas e reflexões terapêuticas que buscam facilitar essa enorme empreitada, aumentando muito a chance de se cumpri-la.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O Diagnóstico psicológico e suas diferenças






O que esperar do papel do psicólogo(a) e onde localizar a fronteira que delimita seu campo de atuação? O que se espera que o psicólogo(a) faça quando precisar atuar em situações complexas como por exemplo: o sofrimento psíquico de alguém exigir cuidados psiquiátricos além da psicoterapia processual, ou a necessidade de aplicação de testes projetivos ou psicométricos, ou compreender a personalidade e seu conjunto de possibilidades, ou identificar e estudar comportamentos, ou selecionar perfis específicos para trabalhos específicos, etc.? A resposta principal e mais importante: na prática a psicologia está focada em aliviar o sofrimento psíquico de seu cliente.  Algumas vezes o psicodiagnóstico é o ponto de partida para qualquer ação ou intervenção, diante do problema que se apresenta. O psicodiagnóstico é a tentativa de organizar as informações que se apresentam através do cliente, utilizando-se dos vários conhecimentos e teorias que compõe o estudo psicológico, com o único objetivo e finalidade de ajudá-lo. O diagnóstico psicológico praticado pelo psicólogo, como outros tipos de diagnóstico determinados por outras ciências, deve atender a objetivos já definidos teoricamente, de acordo com a sua linha de trabalho. Ao mesmo tempo, essa prática constante permite que esses conhecimentos e teorias já determinados previamente, sejam validados ou até mesmo, modificados, num movimento que aumenta a possibilidade de compreensão de um determinado fenômeno. Essa é uma velha questão entre teoria e prática que ocorre em todas as ciências: uma não sobrevive sem a outra - uma alimenta a outra. A prática clínica diária é o que tem impulsionado o desenvolvimento de novos modelos de psicodiagnóstico, forçando a melhor compreensão ou modificação de conceitos e teorias que já estavam previamente estabelecidos.

Diagnóstico vem do grego diagnõstikós - que tem o significado de: discernimento ou faculdade de conhecer ou ver através de. Mas trata-se de um conhecer e de um ver, que procura ir além daquilo que o senso comum já conhece. E para se "ir além", é necessário se fazer uso de conceitos e teorias filosóficas ou científicas, que sempre variam conforme o tipo de compreensão que se queira ter acerca de algum fenômeno. O caminho para este conhecimento é percorrido através de processos e observações, que geram avaliações e interpretações. E o curioso é que toda avaliação e interpretação, sempre está vinculada e à serviço de uma forma de se ver o mundo, de se pensar e de se estruturar conceitos e teorias. Sim, existem várias formas de se ver o mundo e de se construir teorias. Um mesmo fenômeno pode ser observado por vários tipos e formas de se pensar, gerando teorias, compreensões e atuações distintas. Um bom exemplo que é muito comum: pessoas que procuram pela medicina homeopática para se tratar de algum problema, certamente teriam uma compreensão e um método de atuação muito diferentes, se procurassem pela medicina alopática ou pela medicina antroposófica para tratar do mesmo problema.

Por ser muito ampla e vasta, a própria psicologia possui dentro de seu campo conceitual e de atuação, muitas formas diferentes de se pensar e construir teorias e conhecimentos. Essa multiplicidade de informações pode as vezes acabar reforçando uma certa confusão de papeis e de campos de atuação que vou procurar esclarecer minimamente. Talvez isso se explique pelo fato da psicologia estar inserida no conjunto das ciências humanas, que buscam compreender qualquer fenômeno humano. Os fenômenos humanos são muito complexos e a busca por dados e informações, pode exigir o uso de informações de outras fontes e ciências. Ao mesmo tempo, fenômenos humanos também podem e são estudados por outras ciências. Mas embora possa fazer uso de dados de outras ciências, as funções do psicólogo devem sempre estar se referindo aos fenômenos humanos, abrangidos pela psicologia. A psicologia é composta por vários tipos de conhecimento, teorias e modos de pensar, que produzem técnicas e compreensões específicas e distintas. E esses conhecimentos e métodos é que irão determinar o campo de atuação e competência do psicólogo(a).

A preocupação com o psicodiagnóstico surgiu desde que as doenças mentais passaram a ser consideradas como doenças e distúrbios passíveis de serem estudados e tratados (por volta do final do Séc.XIX), e não mais como possessões ou punições divinas. Desde então, a psicologia clínica passou a observá-las, descrevê-las e classificá-las. A psicologia clínica se iniciou e se desenvolveu através do ramo da medicina voltado para o estudo das doenças mentais: a psiquiatria. Foram os médicos os primeiros a se preocuparem com a saúde mental e a fundarem a psicologia clínica. Diferente da psicologia, a medicina está inserida no campo das ciências naturais. O modelo médico inicial enfatizava os aspectos patológicos do indivíduo, nosologia (ramo da medicina que estuda e classifica as doenças...) e fazia uso de instrumentos que pudessem medir as características do indivíduo. Essas foram as fundações para o surgimento dos testes psicométricos que visam determinar da capacidade intelectual, aptidões e dificuldades cognitivas enfrentadas pelo indivíduo. Hoje em dia são muito utilizados para fornecer orientação para pais, professores, médicos, instituições, psicólogos, etc.
Nesta esteira também surgiu o modelo comportamental, que observa o fenômeno humano através do comportamento, preocupando-se em determinar as leis que o regem e as variáveis que o influenciam. Sua ação preocupa-se em poder agir sobre ele, mantendo-o, substituindo-o ou modelando-o. 
Em outras palavras o modelo médico se baseou nas ciências naturais para compreender os fenômenos humanos, considerando que assim poderia observar, medir e classificar.

No início do Séc.XX surgem as novas escolas que passam a encarar o psicodiagnóstico de maneira diferente, levando em conta a subjetividade humana. Ao contrário do comportamento ou de testes que possam ser medidos, a subjetividade humana como o próprio nome diz, não pode ser objetiva. Cada indivíduo é singular em sua subjetividade. Para estas escolas não é possível avaliar os fenômenos humanos através de regras gerais, que servem para se observar os fenômenos observáveis da natureza. Outra diferença crucial está no fato destas escolas considerarem impossível se separar ou haver algum tipo de isenção, entre o observador (aquele que está estudando o fenômeno humano), e o objeto que se está observando (o indivíduo e sua subjetividade). Considera que o observador também é humano e também possui subjetividade. Portanto, enquanto observa e cria teorias, não pode negar a participação de sua subjetividade neste processo. Este novo pensamento sobre os fenômenos humanos se originou na filosofia, que considerava que todo o conhecimento existente havia sido estabelecido pelo homem, e por isso mesmo, com a participação de toda a sua subjetividade. E assim ficou claro que os métodos objetivos das ciências naturais onde o modelo médico se baseava, não poderiam ser transpostos para as ciências humanas. 
As principais escolas que surgiram passaram a criar novas teorias e novas formas de atuação. A escola humanista passa a considerar o psicodiagnóstico um reducionismo e passa a criticá-lo em seu aspecto classificatório. Considerava que se tratavam de racionalizações baseadas em julgamentos que desprezavam o aspecto humano. Já a escola fenomenológico-existencial considerava que a dados obtidos por entrevistas ou em testes poderiam sim ser úteis para o processo de psicoterapia, ajudando as pessoas no caminho do autoconhecimento. Mas um caminho a ser percorrido e mediado entre o psicólogo e seu cliente, onde o resultado final ainda estava em construção. A escola psicanalítica surge e revoluciona a psicologia. Ela introduz o conceito de inconsciente e se preocupa em estudar os processos intrapsíquicos, a dinâmica da personalidade, os comportamentos psicopatológicos, sua origem e prognóstico. Cria-se uma nova teoria que passa a valorizar as entrevistas como instrumento de trabalho, a criação de testes projetivos (testes baseados na hipótese projetiva: ao procurar organizar uma informação ambígua, o indivíduo projeta aspectos de sua própria personalidade), e a relação entre o psicólogo(a) e seu cliente. Assim a psicanálise criou instrumentos sutis e poderosos para observar o que se passa com o indivíduo, por detrás de seu comportamento aparente.

Seja qual for o modelo acima seguido pelo psicólogo(a), ele estará atuando dentro do campo da psicologia, cujo maior objetivo é compreender seu cliente a fim de ajudá-lo.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Quando a doença entra em cena - relação saúde / doença

                                                                       (O médico - 1891 - Sir Samuel Luke Fildes)

A vida moderna e corrida é uma máquina de estímulos que nos mantém sempre ocupados, correndo atrás do próprio rabo, não parando para ver e escutar qualquer coisa que atrapalhe nossa maratona diária. É comum a sensação de se estar sempre atrasado, nunca se estando onde realmente se está: o aqui e agora praticamente não existe em nosso dia-a-dia porque o pensamento sempre está no próximo compromisso, e nunca naquilo que se está fazendo realmente. Falamos muito mais do que ouvimos e para nos proteger, criamos um certo isolamento que nos mantém longe dos problemas e dificuldades das outras pessoas. Em outras palavras, confundimos privacidade com individualismo e usamos isto como desculpa para nos mantermos distantes, isolados e protegidos. Vivemos numa roda-viva que costumamos criticar, mas que diariamente alimentamos e damos força, mesmo sem perceber. Repetimos conservas e padrões de um comportamento mecânico, que são adequados para um sistema econômico e social, que precisa que todos estejam permanentemente "produzindo e consumindo". Neste estado mantemos uma fantasia muito comum: quanto mais me movimentar, mais vou conquistar e consumir. Quanto mais movimento mecânico e não espontâneo, menos criatividade, menos tempo para a escuta e para o compartilhamento.
Na maior parte das vezes se estabelece um ciclo infinito, onde sempre se corre atrás daquilo que não está aqui e agora, mas em algum lugar do futuro ou do passado. Este ciclo costuma ser rompido drasticamente nos momentos em que surge alguma adversidade, capaz de tirar o sujeito de sua maratona infinita. Nos momentos em que a vida apresenta adversidades, as pessoas costumam lembrar que precisam muito umas das outras. A doença é uma das adversidades que força o sujeito a lembrar de que não vive sozinho. Receber um diagnóstico médico indesejado para si, ou para alguém próximo, é sempre assustador. A doença tem o poder de excluir o sujeito da roda produtiva e consumidora, acrescentando ao sofrimento que já produz naturalmente, o sentimento de vergonha e humilhação. Parte importante da tristeza que se estabelece com o surgimento da doença, está relacionado com a vergonha de não se sentir mais produtivo.
No momento em que alguém recebe uma notícia ruim sobre sua saúde, ou sobre a saúde de alguém próximo, a vida vira de pernas para o ar. Quase tudo que tinha muito sentido, deixa de ter sentido e surgem os sentimentos angustiantes de medo, desamparo e indefinição. Quando a doença entra em cena, o distanciamento que antes protegia passa a ser uma das maiores dificuldades e fonte de sofrimento.
O sujeito doente que sai em busca de um profissional ou instituição para ajudá-lo, tem a fundamental necessidade de calor humano, acolhimento e orientações esclarecedoras. Sabemos e escutamos histórias de que houve um tempo, em que profissionais e instituições cuidavam do corpo doente de uma pessoa, mas também se preocupavam em estimular o otimismo e a alegria, que são ingredientes mágicos e preciosos no processo de qualquer tipo de cura e tratamento. A escuta atenta e continente da história do sujeito, a empatia e a generosidade são elementos fundamentais nesta relação. Quando se procura por ajuda profissional, procura-se por esse sujeito quase mítico, capaz de acolher, ouvir, entender, orientar e ajudar.
Nestes momentos difíceis, espera-se muito mais do que conhecimento técnico e científico.

Os profissionais de saúde que em tese são aqueles que conhecem e tem acesso a sabedoria da ciência, possuem o status de "deuses" nos momentos angustiantes causados pela doença. Um status que quase sempre os envaidece. O imaginário comum está repleto de "deuses" que salvaram muitas vidas e devolveram a alegria para muitos doentes e suas famílias. E muitas vezes isso foi, ou é verdade, felizmente. Mas quando falamos na visão moderna que a ciência apresenta sobre a saúde, especialmente na saúde pública, na maior parte das vezes o sujeito doente se defronta com profissionais e instituições que não possuem tempo para olhá-lo, escutá-lo e estimulá-lo.  O atendimento disponibilizado para a população costuma ser rápido e impessoal, se preocupando mais com o cumprimento de regras e protocolos reconhecidos cientificamente. Quase não há conversa e compartilhamento, apenas uma racionalidade científica, médica e sociológica, que busca enxergar e proteger a saúde, mas que costuma se esquecer do sujeito. A saúde é enxergada através da decomposição do corpo humano em elementos constituintes, no funcionamento e desagregação deste elementos, na relação dos seres humanos com seus corpos, nas mentes humanas, na sexualidade humana, no sofrimento humano e na morte humana.
Esta visão está profundamente enraizada e atrelada a atuação do profissional, que possui um discurso técnico e especializado, focado nas relações das ciências com suas próprias teorias e conceitos. O sujeito doente está fora deste discurso.
A essência da racionalidade científica é claramente construtivista, mas sua forma de atuação a torna excessivamente prática, impositiva e classificatória: os anormais portadores de doenças, síndromes e distúrbios. Impessoalizar o atendimento faz com que vertentes mais subjetivas do sujeito adoecido, sejam ignoradas. Com isso perde-se a oportunidade de se acrescentar elementos mais humanos e determinantes na relação saúde / doença. Não é incomum pessoas doentes esconderem dos profissionais que as atendem, por puro medo ou pura incompreensão, fatos relevantes que poderiam contribuir muito com seu diagnóstico, tratamento e desenlace. Não se sentem a vontade e não confiam, contribuindo para o aumento do distanciamento desta relação.
É preciso lembrar que os profissionais de saúde também fazem parte deste mundo corrido e surdo. E como todas as pessoas, muitas vezes se comportam como surdos e ilhados, mesmo nos momentos em que suas atitudes, crenças e capacidade em proporcionar afeto, possuam um enorme peso e poder de influência. Lembrá-los disto quando necessário, é uma importante contribuição que talvez ajude a reduzir este distanciamento. Tenho a forte crença de que a vida só tem sentido nas relações de afeto, troca e aprendizagem que somos capazes de construir e manter. Embora reconheça que nos dias de hoje esteja cada vez mais difícil manter esta crença, me esforço muito para manter este propósito.
A atitude de acolher, escutar e compartilhar talvez esteja mais atrelada pelos ideias contemplativos do Ser e de suas causas, oriundos da filosofia grega clássica. Parece que em algum momento da história a ciência se distanciou destes ideais, permitindo que seu lado mais pragmático, aparentemente neutro e impositivo, ocupasse a maior porção do espaço na relação saúde / doença.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Os Três Surdos


Era uma vez um pastor surdo, surdo como uma porta. Todos os dias ele levava suas ovelhas para pastar ao pé de uma colina e ali ficava o dia todo tomando conta delas, só parando para descansar por volta do meio-dia, quando sua mulher lhe trazia o almoço.
Um dia, porém, o sol já ia alto e nada de aparecer a mulher. Preocupado e com fome, o pastor achou que era melhor dar uma chegadinha até sua casa; mas como, se não podia deixar suas ovelhas sozinhas? Por sorte, olhando em volta, ele viu, não longe dali, um camponês. Esse camponês também era surdo, surdo como uma porta. E estava ali compenetrado, colhendo o milho que plantara, quando viu o pastor aproximar-se gesticulando e falando:
 - Amigo, eu estou com muita fome e preciso buscar meu almoço. Será que você poderia olhar meu rebanho que ali está? É só por alguns minutinhos!
O camponês, é claro, não ouviu nada. Mas supôs, pelos gestos do pastor, que ele lhe pedia algo para comer, para ele e para suas ovelhas, só algumas espigas. Não querendo repartir seu milho, ele respondeu muito sério:
- Não me peça isso, por favor. É melhor ir andando, antes que eu me zangue! Vá, não insista!
O pastor agradeceu-lhe e saiu correndo, pois entendera algo como "Não se preocupe, amigo. Vá, não perca tempo!".
Chegando em casa, descobriu que sua mulher torcera o pé, por isso não fora levar seu almoço. Depois de cuidar dela, comeu alguma coisa e voltou para seu rebanho. Ao pé da colina, as ovelhas pastavam sossegadas; contando-as, o pastor verificou que não faltava nenhuma. Isso o deixou contente e com vontade de agradecer ao camponês o favor que lhe prestara. "Pois ele nem me conhece e foi tão atencioso!", pensou. "Vou mostrar-lhe minha generosidade!" E, escolhendo uma de suas ovelhas, uma pequena que estava com a pata quebrada, colocou-a nas costas e dirigiu-se ao camponês:
- Amigo, muito obrigado por ter tomado conta das minhas ovelhas! Quero recompensá-lo, oferecendo-lhe esta aqui.
Mas o camponês desconfiadíssimo, pensou que ele estivesse insistindo em conseguir seu milho:
- Não, eu já disse que não tenho nada a ver com suas ovelhas. E, se essa ao está pequena porque não come, o problema não é meu.
- Você não quer o meu presente? - tornou, sem entender nada, o pastor. - Ora, vamos, eu insisto, não vai me fazer falta. Aliás, confesso, esta aqui teria mesmo de ser sacrificada; veja sua patinha: está quebrada!
- O quê??? - enfureceu-se o outro. - E você ainda se atreve a me acusar de ter quebrado a pata deste animal? Mas que atrevido!
E investiu contra o pastor, que, ofendidíssimo com a recusa, enfrentou-o esbravejando: 
- Seu orgulhoso! Quem você pensa que é, para rejeitar meu presente? Você vai ver só!
E estavam a ponto de se atracar quando passou por ali um ladrão, que acabara de roubar um cavalo. Pois esse ladrão também era surdo. Surdo como... vocês sabem. Os dois briguentos correram até ele, um gritando mais que o outro, tentando conseguir que alguém resolvesse a disputa. O ladrão, como era de se esperar, não ouviu coisa alguma, mas se assustou com o que pensou entender:
- Como? Vocês vem me dizer que este cavalho lhes pertence? Pois fiquem sabendo que este cavalo não é de nenhum dos dois! Eu acabei de roubá-lo do meu vizinho! Eu sou ladrão, mas sou mais honesto do que vocês!
E partiu também para cima deles, pronto para brigar. Felizmente, neste momento passava pela estrada um velho sacerdote, de hábito preto e barbas brancas. Os três, quando o viram, tiveram a mesma ideia: correr até ele e pedir-lhe que solucionasse a questão. Cada um contou-lhe sua versão do caso e o sacerdote percebeu que tudo não passava de um grande mal-entendido. Mas como desfazer aquela complicação, se os três não podiam ouvir? O sacerdote pensou, pensou, coçou a barba, franziu o cenho, porém nada lhe ocorria.
Enquanto isso, o ladrão achou melhor aproveitar a oportunidade e fugir, sorrateiro, antes que fosse preso; o camponês, impressionado pelo ar sério do sacerdote, também achou melhor sair de mansinho, para não ser admoestado por sua sovinice; e o pastor, por sua vez, temendo uma possível reprimenda daquele santo e severo homem, considerou de bom alvitre voltar às suas pacatas ovelhas.
O sacerdote, vendo desfeita a confusão, sorriu, pensativo. Sem dúvida, naquele dia ele aprendera uma coisa: quando se conversa com surdos, o melhor que se tem a fazer é fingir-se de mudo...

Conto extraído do livro: Novas Histórias Antigas - 9ª reimpressão - página 11 - Brinque-Book, Rosane Pamplona com ilustração de Dino Bernardi Junior.  

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sentimento de insegurança e falta de autonomia



Uma pessoa insegura desconhece o seu próprio valor e duvida muito de suas possibilidades e habilidades, comprometendo sua capacidade em ser espontâneo, criativo e autônomo. Embora cada pessoa possua uma história e singularidade únicas, o sentimento de insegurança apresenta um traço comum diferenciando-se apenas na intensidade: a percepção distorcida e negativa de si mesmo associada ao sentimento de fragilidade e vulnerabilidade excessivas. Pessoas inseguras (crianças ou adultos) sentem-se vulneráveis, fragilizadas e sem confiança em si mesmo e nos outros com quem convivem e compartilham. As demandas de uma criança são diferentes das demandas de um adulto, mas em ambos os casos os sintomas apresentados são semelhantes: retraimento e isolamento social, funcionando como mecanismos de fuga e defesa. Não é incomum crianças inteligentes e sem nenhum problema neurológico ou cognitivo apresentarem dificuldades em se relacionar com amigos na escola e até mesmo em aprender. Da mesma maneira não é incomum a queixa de adultos que se consideram incompetentes e com muito medo de fracassarem em suas atividades ou relações, por sentirem-se inaptos, despreparados ou de alguma maneira inferiores. Para combater o sentimento angustiante de inferioridade e incapacidade, defesas com aparência e reação oposta ao isolamento também são mobilizadas: ansiedade excessiva, personalidades controladoras, arrogância, paranoia e agressividade. 
Em que momento a insegurança se instala? Por que algumas pessoas são mais inseguras? Compartilho da ideia de que a insegurança surge na mais tenra idade (talvez até durante a vida intrauterina) por aspectos internos da criança (instintos), e seja reforçada por fatores externos da criança (ambiente), nas situações em que as capacidades de adaptação e interação fiquem prejudicadas pela inibição da espontaneidade e criatividade. Essas situações geram entraves do desenvolvimento emocional que com algumas modificações e camuflagens, vão se apresentar na vida adulta quase que da mesma maneira com que se apresentaram na infância.

O processo de desenvolvimento emocional surge desde antes do nascimento e é contínuo, permanecendo durante toda a vida do indivíduo. Por ser contínuo, o adulto sempre pode retomar hoje, aspectos e dificuldades que tiveram origem em seu passado, seja no âmbito interno (instintos), ou externo (ambiente). Os vários estágios deste processo ajudam a observar e compreender razoavelmente as dificuldades que surgem durante a vida das pessoas, bloqueando a capacidade do sujeito em ser espontâneo e criativo para adaptar-se a uma nova realidade. A saúde psíquica depende muito do bom equilíbrio entre estes dois fatores (interno e externo), fundamentais para que o desenvolvimento ocorra e o sujeito possa desenvolver sua autoestima para seguir adiante. A família da criança é o seu primeiro grupo e faz o papel do ambiente externo que porá à prova sua capacidade de adaptação e interação. Aos poucos, se tudo correr bem, o futuro adulto será saudável e capaz de se identificar com grupos cada vez mais amplos e complexos, sem perder o senso de si mesmo e de espontaneidade individual.
O crescimento individual da criança caminha do estágio da dependência para a independência, em direção a autonomia do futuro adulto. A autonomia do adulto depende muito de sua autoestima - aquele amor próprio que se desenvolve através da certeza de que fizemos e fazemos parte, fomos e somos aceitos, fomos e somos amados e, que todos que nos amam torcem por nós e confiam que seremos capazes de enfrentar sozinhos as dificuldades que fazem parte da vida. Ai está a importância do papel dos pais ou cuidadores, como responsáveis diretos em procurar garantir as condições mais adequadas para que o desenvolvimento individual da criança possa ocorrer da melhor maneira possível.

O mundo corrido e materialista de hoje praticamente torna incompatível a disponibilidade dos pais para conviver mais tempo com suas crianças. Ao mesmo tempo cria uma ilusão com função compensatória de que, "condições adequadas" estejam relacionadas apenas com a provisão material: uma boa casa, boa escola, babás 24 horas por dia, cursos de piano, balé, natação, inglês, brinquedos, passeios, etc. Há a ilusão de que se possa proporcionar felicidade e demonstrar afeto, suprindo a criança com todo tipo de necessidade material (muitas vezes em excesso).
Ter roupas, brinquedos, uma boa casa e ir a uma boa escola é muito importante e desejável, mas é apenas um aspecto das obrigações paternas. O desenvolvimento emocional da criança está vinculado principalmente com a experiência de se "estar junto" com ela. A experiência de "estar junto" é vivenciada através do contato direto e cotidiano: colo, brincar junto, mimos, beijos, abraços, broncas, conversas, cócegas, desenhar, pintar, compartilhamento à mesa, cantar, tocar, contar histórias, ouvir histórias, etc. Nenhum objeto de consumo é capaz de substituir esta experiência.
Com a vida tensa e cada vez mais corrida de hoje, não é nada fácil criar este tempo e disponibilidade. Depois de um dia muito cansativo de trabalho, é muito difícil "estar junto" e disponível. É preciso se fazer uma opção firme para se encontrar este espaço  e certamente essa escolha produzirá consequências significativas na rotina e na vida dos pais. Esta é uma aflição muito comum dos dias de hoje e desconheço a existência de uma fórmula de sucesso. Mas se desejamos que nossas crianças tornem-se adultos mais seguros e felizes, é preciso se construir este espaço. Este é um grande desafio e ao mesmo tempo uma grande oportunidade para pais e cuidadores utilizarem sua espontaneidade e criatividade e se adaptarem em uma nova rotina, sem perderem de vista suas necessidades e anseios profissionais.
O lado bom é que a medida em que a criança se desenvolve e conquista aos poucos sua autonomia, escolhas que foram deixadas para um segundo plano podem voltar a ser consideradas. Bônus inegáveis desta opção: a) quando se "está junto" com os filhos tem-se a oportunidade de retornar à própria infância e ao próprio desenvolvimento emocional - Isto sempre traz benefícios e autoconhecimento; b) ter a certeza de que a facilitação do desenvolvimento emocional dos filhos são ingredientes muito importantes e determinantes na formação de um futuro adulto mais humano e mais feliz.  Talvez estes sejam  ingredientes indispensáveis para a construção de um mundo melhor de se viver: mais humano, menos corrido e mais seguro.

Recomendo a leitura do blog OvO http://beabaos.wordpress.com/2013/01/30/mimo/ de Beatriz Antunes, onde este assunto é tratado através da visão de uma mãe que fez a escolha de "estar junto" com sua filha.