sexta-feira, 18 de março de 2011

O Tsunami do Japão e o Sentimento de Desamparo do Mundo

Na última semana fomos todos pegos de surpresa com os terríveis acontecimentos ocorridos no Japão. Um terromoto de grandes proporções seguido de maremoto da mesma grandeza e agressividade, matou milhares de pessoas, destruiu cidades inteiras e deixou a míngua aqueles que conseguiram sobreviver. As imagens de prédios enormes balançando como se fossem de papel, casas e lojas caindo, ondas enormes invadindo cidades e destuíndo e arrastando tudo pela frente, deixaram uma inequívoca sensação de angústia, medo, incerteza e compaixão. Olhando as imagens que a internet e a TV mostraram, é muito difícil entender que pessoas que estavam em sua rotina diária, trabalhando, namorando, tristes ou alegres, de uma hora para a outra, ou estavam mortas ou desabrigadas ou separadas definitivamente de seus entes queridos. Como num piscar de olhos, suas vidas mudaram para sempre, sem seu consentimento ou desejo, sem qualquer preparação ou planejamento. Foi visível que esses eventos mexeram muito com todos nós. Nos dias que se seguiram aos acontecimentos, enquanto tomava meu cafézinho na padaria nos intervalos dos atendimentos de meu consultório, percebi que quando a TV mostrava novas imagens, o volume das conversas diminuia e todos passavam a prestar atenção nas novas notícias.
Recentemente também houve o terremoto que matou milhares de pessoas no Haiti e que também mobilizou o mundo e trouxe muito sentimento de compaixão. Mas agora foi diferente... As pessoas se sentiram mais atingidas, mais envolvidas e mais mexidas. E por que há essa diferença? Creio que as consequências de um terremoto no Haiti, são de uma certa forma e maneira mais "esperadas" dentro do imaginário coletivo. A maior parte das pessoas encara o Haiti como um país muito pobre, sem infra-estrutura, com muita miséria, etc, etc e etc. Uma catástrofe num lugar assim, só pode ter consequências como as que houveram. Cansei de ouvir comentários semelhantes naquela ocasião. Isso é muito diferente do Japão, uma potência econômica e tecnológica que é admirada, que foi capaz de se recosntruir rapidamente após o final da 2ª grande guerra, que tem um povo disciplinado e culto, etc, etc e etc. Um país que ocupa um lugar de destaque naquilo que mais valorizamos como modelo de civilização e desenvolvimento: poder econômico e alta tecnologia. Mesmo com tudo isso, boa parte do país foi destruída, como se fosse de papel. Nada e nenhuma tecnologia impediu ou foi capaz de antever o que estava por vir. Foi como se nossos "deuses" mais contemporâneos e poderosos (a alta tecnologia e o poder econômico), tivessem acabado de demonstrar que possuem "pés-de-barro".

O reflexo desses acontecimentos trouxe para a superfície um sentimento muito estrutural, que lutamos contra o tempo todo e que buscamos transformar e domar, desde a mais tenra idade: o "sentimento de desamparo". Um sentimento que quando se instala, produz angústia sem fim, depressão, incerteza e medo. Ver o "sentimento de desamparo" dos japoneses que sobreviveram e não possuem mais casa, trabalho, família, etc, é muito assustador. Percebemos que na realidade não temos nenhum tipo de controle ou regra sobre os eventos que a natureza pode ou não, produzir. Mesmo tendo alcançado um enorme desenvolvimento tecnológico, a civilização não está à salvo! "Tudo pode estar por um segundo..." já dizia Gilberto Gil em sua música maravilhosa (Tempo Rei).
Esses eventos nos remeteram ao temor maior, que começamos a sentir a partir do momento que nascemos: O temor do desamparo, que produz a terrível angústia da incerteza da sobrevivência. Foi no momento do nascimento que enfrentamos o nosso primeiro sentimento de angústia. Li num livro maravilhoso de Rubem Alves ("O Médico" que escreveu em homenagem a seu filho), a melhor definição de angústia que já conheci: angústia significa "caminho estreito" - o nascimento é o nosso primeiro "caminho estreito" a ser percorrido. É o nosso primeiro grande desafio a ser enfrentado. A sensação de desamparo foi definida por Freud como: "O estado do lactente que, dependendo inteiramente de outrem para a satisfação de suas necessidades (sede, fome), é impotente para realizar a ação específica adequada para pôr fim a tensão interna (produzida pela fome, pela sede e pelo medo). Para o adulto, o estado de desamparo é o protótipo da situação traumática geradora de angústia." Freud observou que um bebê humano tem uma total dependência com relação a sua mãe/cuidador. Essa vivência irá influenciar de forma decisiva a estruturação do psiquismo e suas consequências na vida do adulto.

Diante de tanta morte e destruição, prefiro enfrentar a sensação de desamparo e de angústia pensando na vida e não na morte. Em um novo nascimento, em uma nova etapa a ser percorrida pela civilização. Vou procurar ser humilde e não me esquecer que não podemos controlar nada nesse mundo, alem de nós próprios (e isso com muitas ressalvas...). Talvez a melhor forma de se lembrar disso seja viver o presente intensamente, mesmo que ele seja muito doloroso e, participar ativamente e da melhor maneira possível, dentro do grande grupo que forma a espécie humana. Não vivemos e não podemos viver sozinhos.

Um comentário:

  1. Uau! Excelente análise. Para mim, o maremoto é algo muito assustador, é implacável por onde passa. Fiquei hipnotizada pelas cenas.

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