quinta-feira, 26 de julho de 2012

As dores da alma


A dor é o que existe de mais terrível na condição humana, não só pelo sofrimento que causa, mas também por ser uma experiência intransferível e solitária. Intransferível porque ninguém consegue assumir o lugar do "outro" que está com dor e sofrendo. Quem está ao lado de quem sente dor, sente a dor da impotência, mas não a dor daquele que sofre. Solitária porque a dor terá que ser vivenciada somente por aquele que está sofrendo. Um bom exemplo dessa sensação de impotência: qual pai e qual mãe não gostariam de transferir para si, a dor insuportável de um filho? Se isso fosse possível, a dor transferida doeria menos que a dor de ver um filho sofrer. A dor é uma velha conhecida, desde os tempos em que fomos um bebezinho: experimentamos cólicas e outras sensações de desconforto não necessariamente físicas. Sei de muitas histórias de pais e mães que contam o desespero que sentiram porque algum filho chorou ininterruptamente, por meses. Um desespero aumentado pelo fato de bebês não falarem e não poderem apontar com precisão: "é aqui que dói". Talvez essa seja a primeira experiência do "cuidador", aquele que permanece ao lado e ajuda o "outro" que sofre a atravessar sua angústia, por verdadeira impossibilidade de assumir o seu lugar.
Tratar do sofrimento humano é a tentativa de "tirar a dor" de alguém que sofre. Quem ajuda o outro na hora do sofrimento máximo, recebe a admiração e o amor mais sincero, destinado somente aos heróis. Acredito nisto porque nos momentos em que sofremos, estamos solitários e desprovidos de qualquer atrativo. Quem fica ao lado, fica por amor verdadeiro. Os médicos fazem (ou deveriam fazer) o papel deste herói: "tiram a dor" do corpo do sujeito utilizando seu poder e sua sabedoria. O sujeito quebra um braço ou uma perna e um bom exame de imagens (raios X, tomografia, etc.), dará ao médico uma boa dimensão do dano "causador da dor". A partir dai vem o diagnóstico e os procedimentos necessários para tratar e “tirar a dor".
Mas existem outros tipos de "dor": dor de angústia, dor de medo, dor de espera interminável, dor de cotovelo, dor de amor, dor de rejeição, dor de depressão, dor de ansiedade extrema, dor de luto (como dói...), etc. Chamo essas dores de "dores da alma". As "dores” da alma são indizíveis e invisíveis, muito embora existam e sejam capazes de fazer um sujeito chegar ao ponto de suicidar-se, surtar, abandonar sua família, etc. São invisíveis porque não podem ser vistas a olho nu (ninguém enxerga uma ferida de uma mágoa), ou através de nenhum tipo de exame de imagens, ou de sangue, ou etc. E são indizíveis porque muitas vezes (quase sempre), carecem de qualquer sentido lógico ou facilmente compreensível, explicável e aceitável.  

E por serem invisíveis e indizíveis, as dores da alma não podem contar com a intervenção e ajuda de nenhum "herói externo". Somente o "herói interno”, que faz parte da alma do sujeito que sofre e que está dentro dele, é que pode enxergar, compreender e curar as dores e o sofrimento daquela alma. O psicólogo é o facilitador (ou deveria ser) que pode ajudar o sujeito a dar voz ao seu herói interior para enfrentar e tratar as dores de sua própria alma. Ele sabe "ouvir" (ou deveria saber) e procura formas e maneiras de buscar os significados das dores invisíveis e indizíveis, contidos no "dicionário misterioso" que cada alma possui. Os mistérios da alma são sorrateiros e não se permitem ser explicados facilmente. Quase sempre não possuem racionalidade e nem lógica pura e aceitável. Para tratar as dores da sua alma, o herói interior precisa fazer uma travessia solitária pela angústia que causa seu sofrimento. Solitária porque quem sofre é quem precisa realizá-la, é quem precisa "remar" em direção ao porto seguro. 
Lembro-me da lenda de Orfeu que foi o único mortal cuja música se aproximou em qualidade, da música divina. Na lendária viagem do Argo, sob o comando de Jasão, ele foi um importante "membro" da tripulação. Sempre que os heróis estavam exaustos e enfrentavam dificuldades em remar e seguir adiante, Orfeu começava a executar canções com sua lira, uma mais bela que a outra. A mágica da música recobrava o ânimo dos heróis e os remos se moviam novamente.
Quando realiza a penosa travessia, o herói "renasce" tornando-se um "verdadeiro herói". A expressão "renascer" me leva para a melhor definição de angústia que já encontrei: Rubem Alves (O Médico): "A palavra angústia nasceu do verbo latino angere, que significa apertar, sufocar. Assim, no seu nascedouro, angústia queria dizer estreiteza. O nascimento foi literalmente nossa primeira grande angústia e, pelo resto de nossas vidas, sempre que passarmos por algum canal apertado e escuro, vamos sentir novamente o que sentimos para nascer". Toda vez que "atravessamos a angústia", nascemos novamente e nos tornamos "outra pessoa". Quando conseguimos atravessar a angústia, a dor fica para trás transformada na vitamina que nos torna mais fortes e mais experientes, com um novo ânimo. A dor se transforma na sabedoria que cria novas formas, novas possibilidades e novas esperanças.    


Obs. e Dica: Assisti ao espetáculo infantil “Sonhatório” (Cia Truks – Teatro de Bonecos), que está em cartaz no SESC Pinheiros até o dia 29/07 (NÃO PERCAM!). Nosso objetivo era levar nossa filha de quatro anos para o teatro, mas fomos surpreendidos pela magia do teatro de bonecos e pela maravilha do encantamento do “faz de conta”. A peça conta a história de três loucos (sonhadores, alienados...) que esperam pelo almoço em um sanatório (daí o trocadilho com o título da peça). Enquanto aguardam pela comida, protagonizam uma verdadeira enxurrada de espontaneidade e criatividade: todos os objetos da cozinha criam vida e passam a ter papeis em histórias conhecidas pela maioria das pessoas, que tocam no fundo da alma. É mais um exemplo maravilhoso do poder que adquirimos quando decidimos “imaginar” e “brincar”, enquanto a vida nos faz “esperar por alguma coisa”.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Capitão, a Fada contadora de histórias e o Mago

Era uma vez o capitão de um barco muito especial, que gostava muito de crianças e de desenhar e colorir histórias. Esse capitão tinha um chapéu que também era especial, pois de um lado ele era claro como o dia e tinha um lindo sol que brilhava.  Do outro lado ele era escuro como a noite e tinha pequenas estrelas que o iluminavam. Esse barco que o capitão dirigia também era muito especial porque ficava estacionado em um porto cheio de crianças. Todas as tardes algumas crianças entravam no barco e ficavam lá, brincando com o capitão e seu ajudante durante todo o tempo. Os pais e mães destas crianças gostavam e confiavam muito neste capitão, porque enxergavam em seus olhos todo o amor sincero que o capitão era capaz de dar para seus filhos.
Nesse barco tinham: brinquedos, um tanque de areia, cordas, balanços e as crianças cantavam, faziam roda, brincavam, tomavam lanche e sempre ouviam histórias antes de ir embora. O capitão gostava muito daquelas crianças e adorava ficar lá, cuidando delas. Porém, um dia, ele ouviu um chamado muito especial que vinha lá do outro lado do mundo, onde moram os cangurus, os coalas e os ornitorrincos. Esse lugar era muito distante e, todos os dias, enquanto aqui o sol brilhava lá as estrelas iluminavam o céu. E quando aqui as estrelas chegavam, lá aparecia o sol, assim como mostrava os dois lados do chapéu do capitão.
O capitão tinha muita vontade de conhecer esse lugar e então conversou com seu coração durante um tempo e decidiu ir morar lá, nessa terra distante O seu ajudante que era muito querido e gostava muito das crianças, então ganhou o chapéu do capitão. O capitão, para não ficar com muita saudade das crianças que ficavam com ele toda tarde, guardou com muito carinho o sorriso de cada uma delas dentro do seu coração. Mais ainda, deu de presente para cada uma delas um lindo chapéu, igualzinho ao seu, para que não se esquecessem que mesmo enquanto ele estiver morando lá do outro lado do mundo, elas vão continuar em seu coração.

(Marina Maluf Alves)



Winnicott (1975) : "... é no brincar que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral."


Minha postagem deste mês é uma reverência aos maravilhosos personagens da vida real, que dedicam suas vidas à arte e à saúde das pequenas grandes almas deste mundo:

Agradeço profundamente ao "Capitão Marina M. Alves", por toda a sua generosidade, criatividade, docilidade e compromisso com a educação pré-escolar. Seu lindo e importante trabalho certamente contribuirá muito para a formação dos nossos "futuros adultos", tornando-os mais humanos, mais criativos, mais generosos e principalmente, felizes. Desejo que  o "outro lado do mundo" possa usufruir de todo o seu talento, com muita alegria e amor.
Também agradeço a "Fada Contadora de Histórias Alessandra Giordano", que embora não conheça o "Capitão Marina", ficará feliz em se sentir de certa forma "representada" pela criação dessa linda história, que tem o objetivo lúdico de tornar mais possível a difícil digestão do adeus (mesmo que por pouco tempo...). A "Fada Alessandra" certamente influenciou e influencia muitos "Capitães", ajudando a colorir seus chapéus. Para isso conta com a ajuda de suas Fadas ajudantes, em especial a Fada Miriam Winiaver Garini, que levou a alegria, o riso e a diversão para uma porção de crianças de um certo reino, em um certo dia...  Ao "Mago Tato Fischer",  fica o eterno agradecimento pela "magia" de sua música e pelo "encantamento" de suas mágicas, que tem o incrível poder de abrir mais ainda os corações das crianças, lhes pondo um lindo sorriso no rosto. A "mágica" é o "toque final" dos anjos que torna o "chapéu" dos muitos capitães que existem pelo mundo, tão poderoso e tão especial.


"Contar Histórias - um recurso arteterapêutico de transformação e cura" - Alessandra Giordano - 2007 - Editora Artes Médicas.


Tato Fischer - http://www.tatofischer.com.br/ - Músico, compositor, maestro, arranjador, professor de canto e de piano, mágico e "mago".

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ser espontâneo é estar "presente"

Em minha última postagem escrevi sobre a teoria da espontaneidade de Moreno e do psicodrama, além do que considero uma aproximação desse conceito com o trabalho clínico que venho fazendo. Fiquei feliz por ter recebido muitos comentários, a maior parte deles veio através de e-mails, e outros que foram postados diretamente no blog. Considerei necessário continuar com o assunto para buscar responder e completar algumas questões que de alguma forma chamaram a atenção. Pretendia responder diretamente, em cada comentário, mas achei mais adequado e mais completo prosseguir com o texto e espero que essa forma saia a contento.


A teoria da espontaneidade de Moreno não é em hipótese alguma um valor absoluto. Ao contrário, é uma bela e interessante tentativa de organizar e sistematizar o "ser-em-situação" que está mergulhado nas mais diversas e dinâmicas formas de experiência. O sujeito despojado de sua força espontânea e criadora fica reduzido a uma mera engrenagem ou peça, um autômato que repete valores e comportamentos estereotipados. Essa condição normalmente produz sofrimento através de um sentimento de vazio, de impotência e de inutilidade. A espontaneidade quando age, faz o sujeito presente nas situações afetivas e sociais de sua vida, tornando-o agente ativo do próprio destino. Alfredo Naffah Neto em seu maravilhoso livro: "Psicodramatizar", faz uma citação que sintetiza muito bem: " Como uma ponte de ligação entre o presente, o passado e o futuro, entre o real e o imaginário, é sempre através de seus horizontes espacio-temporais e da posição que assume perante o mundo que habita, que se exprime e se realiza uma certa modalidade existencial, uma certa forma de ser."  
A espontaneidade pode se manifestar produzindo criações maravilhosas e inéditas (ações normalmente atribuídas aos gênios), ou simplesmente transformando e dando vida e presença a comportamentos repetitivos do cotidiano. Ser espontâneo não significa "ser o gênio da lâmpada" ou se ter a necessidade de provocar a mudança pela simples mudança. Ser espontâneo significa "estar presente" nas situações da própria vida, transformando adequadamente os seus aspectos insatisfatórios. Em sua teoria Moreno considerou que  a espontaneidade se apresenta através de quatro formas complementares:


a) a espontaneidade que ativa e dá nova cor às conservas culturais e estereótipos sociais. Esse tipo de espontaneidade confere novidade e vivacidade a sentimentos, ações e expressões verbais que nada mais são do que repetições de situações que o sujeito experimentou antes, milhares e milhares de vezes (caminhar, comer, bater papo, etc). Ou seja, nada tem de original ou criador. O que existe de novo aqui é o "sabor especial" que o sujeito atribui a sua vida cotidiana e a sua rotina. Para esse sentimento especial de vivacidade, Moreno deu o nome de: Qualidade dramática do sujeito, que funciona como uma espécie de "energização" e "tonificação" do eu, produzindo um modo genuíno de auto-expressão.
b) a espontaneidade que produz a criação de novas formas de arte e estruturas ambientais. Este sentimento de pura criatividade está totalmente atrelado ao compromisso de se criar novas formas, novas ideias e novas invenções. O sujeito está permanentemente empenhado em produzir novas experiências em seu íntimo, a fim de que elas possam transformar o mundo a sua volta. Como o próprio Moreno enfatizou, o exemplo acima trata de um sujeito idealizado, mas certamente temos vários exemplos de verdadeiros "gênios", na história.
c) a espontaneidade que atua na formação de livres expressões da personalidade. Aqui a originalidade do sujeito atua na produção e expansão daquilo que já existe e não é novo, mas que ganha uma nova cor e se expande. Moreno cita como exemplo os desenhos das crianças e a poesia dos adolescentes, que acrescentam algo novo à velha forma original, sem lhe modificar a essência.
d) a espontaneidade que produz respostas adequadas a novas situações. Uma pessoa pode ser criativaoriginal dramática, mas não necessariamente produzir uma resposta adequada à situação que está vivenciando. Quando se fala em "resposta adequada", se está querendo dizer "resposta adequada" à situação em que se está inserido. Moreno cita vários exemplos: um incêndio, um assalto, uma emergência qualquer em que salvar a própria vida é o que existe de mais adequado. Nesses casos a espontaneidade faz uso da inteligência, do senso de oportunidade, da memória do sujeito (conservas), da originalidade e do bom-senso para a escolha adequada. "É uma aptidão plástica de adaptação, mobilidade e flexibilidade do eu, indispensável a um organismo em rápido crescimento num meio em rápida mudança." - Psicodrama, pg. 144 - Cultrix - 1975 Moreno, Jacob L. 


O "ser-em-situação" está sempre em movimento. Assim, o corpo do sujeito é o veículo motor de sua espontaneidade. Esse processo tem início na infância, quando a criança se identifica com o adulto e representa ludicamente o seu papel. Moreno chamava essa "conquista" da criança como "função psicodramática" - capacidade de jogo simbólico onde inverte papéis com os pais e descobre, através da vivência, a rede dos papéis sociais em que está inscrita a sua identidade. Dessa forma a função psicodramática transforma a espontaneidade, antes apenas uma função adaptativa, numa função criativa.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Espontaneidade é a capacidade natural de reinventar


Diante de situações e circunstâncias boas ou ruins, tendemos a agir mecanicamente, produzindo respostas semelhantes ou repetidas para as situações do cotidiano. Qualquer bom observador é capaz de reparar que na maior parte do tempo as pessoas tendem a repetir como num ritual, seus comportamentos e emoções. Seja em situações boas ou ruins. "Repetimos" aquilo que já aprendemos na vida para de alguma maneira nos sentirmos seguros e sobreviver - "esse jeito de fazer, de pensar, de sofrer ou de rir" é o "jeito que conheço". Precisamos e contamos com a previsibilidade, como um guia que precisa ser seguido. Mas "segurança" em excesso também traz sentimentos não muito bons: enfado, sensação de estagnação, sentimento de vazio e de perda de tempo, desnorteamento, etc. Exemplos do que estou dizendo não faltam: casamentos e namoros mornos e cambaleantes, empregos ou trabalhos insuportáveis, círculos familiares ou de amizade que não produzem mais prazer, mesmices, etc. O que me chama a atenção é que mesmo diante do vazio causado pela "repetição" constante, insistimos em continuar "repetindo". A necessidade da previsibilidade acaba falando mais alto. Sejam hábitos que precisam ser mudados, sejam relações que precisam se reconfigurar, etc.
Me lembro do tempo em que fazia atendimentos na clínica da faculdade e numa sessão em que fui observado pelo meu orientador (que era psicanalista) através da sala de espelhos, perdi uma enorme oportunidade (certamente pelo meu nervosismo) de apresentar uma interpretação para meu paciente. Tenho certeza até hoje de que o que eu iria dizer àquela pessoa, iria ajudá-la muito naquele momento. Após o atendimento e já na supervisão, expus ao meu orientador o quanto estava chateado pela minha distração. Para minha surpresa ouvi um conselho que se mostra verdadeiro até hoje: " Não se preocupe, nós neuróticos sempre repetimos... e seu paciente não foge à regra... logo, logo você terá a sua oportunidade novamente". E ele estava muito certo!
Mudar não é nada fácil para a maior parte das pessoas. É terrível mudar hábitos, mudar de vida, mudar de emprego, mudar conceitos, mudar de amigos, mudar... Isso normalmente só acontece quando somos empurrados à força pelas circunstâncias. Precisamos de esquemas prontos para seguir adiante e nos sentirmos em segurança. Aprendemos a repetir para sobreviver mas o efeito colateral da repetição produz "conservas" (expressão psicodramática que significa: ficar parado em estado seguro, preservar)  que  escravizam e engessam a capacidade da pessoa em ser flexível e criativa. Parece bastante óbvio que as "conservas" são muito importantes por serem uma espécie de armazém de conhecimento e de aprendizado que funcionam como uma espécie de guia. Mas para viver de maneira criativa e espontânea, é preciso ousar e se permitir a um certo grau de novidade e de flexibilidade para o novo. O novo produzirá novos conhecimentos e novos "jeitos de ser e fazer", aperfeiçoando ou até mesmo modificando o conteúdo armazenado nas "conservas". No momento da criação do novo, ocorre de uma certa maneira um rompimento com aquilo que já está estabelecido e determinado pelas "conservas". Caso contrário o novo não surgiria. A evolução do conhecimento científico é um ótimo exemplo: novos achados surgem e complementam ou até mesmo substituem o que já se sabia.

O rompimento dessas "conservas" se dá através de movimentos espontâneos e criativos, que produzem respostas novas e adequadas, para questões e aflições antigas. A espontaneidade, a flexibilidade e a experiência vivida, trabalham juntas como forças criativas e transformadoras da realidade, produzindo novos conceitos, novos olhares, novos comportamentos e atitudes, etc. Não é possível ser espontâneo sem ser flexível e sem "experimentar na prática". Penso que é neste ponto que a maioria das pessoas estancam na busca pelo novo e tendem mais facilmente a repetir e a não mudar. Se um indivíduo conhecer de antemão a espécie de situação que vai encontrar quanto a sua forma, tempo, consequências e lugar, o espaço para a espontaneidade deixará de existir. Como já disse antes, é natural que busquemos a segurança da previsibilidade. Mas o que ocorre na maior parte das vezes é que buscamos a previsibilidade através de uma  fantasia de que podemos prever e controlar tudo. E isso não é possível. Essa é uma das principais características da ansiedade. Há uma feliz  frase de Mao Tsé Tung que exemplifica muito bem: "Para adquirir conhecimentos é preciso participar na prática que transforma a realidade. Para se conhecer o gosto de uma pêra, é preciso transformá-la, comendo-a."

A espontaneidade se manifesta como que por instinto, de forma não racional ou premeditada. Creio que o "ser espontâneo" e criativo está mais atento ao "aqui e agora", livre para a experiência nova que está inserido e, menos atento às suas fantasias de previsibilidade. Um jogo de futebol pode ser um bom exemplo: Trata-se de um jogo que existe a mais de cem anos, com praticamente as mesmas regras, a mesma bola, o mesmo formato, o mesmo jeito. No entanto de tempos em tempos, surge um novo jogador que simplesmente transforma esse jogo velho de maneira imprevisível. Onde à princípio, tudo é previsível, surge algo novo e inédito. Todos param para assistir e se encantam.
O psicodrama de Moreno bebeu muito do conhecimento do filósofo francês  Henri Louis Bergson, que acreditava na "experiência imediata e na intuição" como verdadeiras ferramentas de compreensão da realidade, mais do que a razão e a previsibilidade da lógica científica. Begson dizia que: "a percepção "mergulha no real através de suas raízes profundas", em que a realidade não será construída ou reconstruída, mas tocada, penetrada, vivida" Moreno dizia que a razão e a lógica estavam "engessadas" pelas leis universais que procuram explicar a realidade de maneira previsível e fixa: "Um certo grau de imprevisibilidade dos eventos futuros  é uma premissa em que deve se assentar a idéia da espontaneidade. O futuro pertence ao acaso..." Em outras palavras, não podemos controlar o futuro ou as pessoas (a fantasia mais presente na ansiedade), podemos apenas viver e experienciar um dia de cada vez. Alguns casos de depressão e ansiedade que tenho acompanhado no consultório e que tem apresentado um desfecho positivo e de alguma melhora perceptível dos pacientes, levam a um questionamento quase que rotineiro, realizado de várias maneiras mas sempre com o mesmo sentido e conteúdo: "Por que estou me sentindo bem melhor se nada mudou na minha vida? Será que estou melhor mesmo?" E minha resposta tem sido com frequência, sempre a mesma: "Creio que o que mudou não foi a sua vida, e sim você e a forma de vivencia-la".

segunda-feira, 26 de março de 2012

O rei sem ofício

Era uma vez um rei que havia esquecido o velho conselho dos sábios, segundo o qual quem nasce na comodidade e no conforto precisa fazer um esforço pessoal maior do que os outros. Mesmo assim era um rei justo e popular.Um dia, quando viajava para visitar uma de suas terras mais distantes, uma tempestade desabou e separou o seu barco de sua escolta. A tempestade serenou depois de sete dias de fúria. O barco havia afundado e os únicos sobreviventes do naufrágio foram o rei e sua pequena filha, pois eles, de algum modo, haviam conseguido subir numa balsa.
Depois de muitas horas, a balsa foi jogada numa praia de um país totalmente desconhecido para os viajantes. Inicialmente foram recolhidos por pescadores que cuidaram deles e que depois de algum tempo disseram:
- Somos muito pobres e não podemos continuar a mantê-los. Se caminharem para o interior, quem sabe poderão encontrar os meios de ganhar a vida.
Agradecendo aos pescadores e sentindo pesar por não poder conviver com eles, o rei começou a vagar pela região. Ele e a princesa foram de aldeia em aldeia, de povoado em povoado, buscando comida e ajuda. Não aparentavam ser melhores que mendigos, e assim eram tratados.
Às vezes conseguiam algum pedaço de pão, outras vezes palha seca para dormir.
Cada vez que o rei procurava melhorar sua situação, pedindo trabalho, perguntavam-no:
- O que você sabe fazer?
O rei então se dava conta de que não era capaz de realizar as tarefas exigidas, e retomava seu caminho.
Em todo o país existiam poucas oportunidades de tarefas manuais, pois havia muitos trabalhadores especializados. À medida em que iam de um lugar para outro, o rei cada vez mais se dava conta de que ser rei sem país era uma condição inútil.
Ele refletia cada vez mais sobre o provérbio dos anciãos, que dizia: "Só pode ser considerado seu aquilo que puder sobreviver a um naufrágio."
Depois de três anos nessa experiência miserável e sem futuro, ambos encontravam pela primeira vez uma fazenda cujo proprietário estava procurando alguém que cuidasse de suas ovelhas. Ele viu o rei e a princesa e lhes perguntou: 
- Precisam de dinheiro?
E eles responderam que sim.
- Sabem cuidar de ovelhas?
- Não - disse o rei.
- Pelo menos você é honesto - disse o fazendeiro - e por isso darei a você uma oportunidade de ganhar a vida.
O fazendeiro os enviou ao campo com algumas ovelhas, e logo aprenderam que tudo o que precisavam fazer era protegê-las dos lobos e cuidar para que não se perdessem.
Uma cabana lhes foi dada e, conforme os anos foram passando, o rei recuperou algo de sua dignidade, embora não tenha recuperado sua felicidade. A princesa se transformou numa jovem bela como uma fada. Como ganhavam apenas o necessário para viver, não podiam ainda planejar o retorno às suas terras.    
Um dia quando havia saído para caçar, o sultão daquele país viu a moça e enamorou-se dela. Então enviou um representante ao pai da jovem, para pedi-la em casamento.
- Ó camponês - disse o mensageiro, - o sultão, meu amo e senhor, pede a mão de sua filha em casamento.
- E o que ele sabe fazer, qual é o seu ofício e como ele pode ganhar a vida? - perguntou o ex-rei.
- Idiota! Vocês camponeses são todos iguais - gritou o mensageiro. - Você não entende que um rei não precisa ter ofício, pois sua habilidade consiste em conduzir reinos, e que você foi eleito para uma honra que ordinariamente estaria muito além de qualquer esperança possível para as pessoas comuns?
- Tudo o que sei - disse o rei pastor - é que a menos que o seu amo, sendo sultão ou não, possa ganhar a própria vida, não será marido para minha filha. Eu sei uma ou duas coisas a respeito do valor das habilidades.
O mensageiro regressou e contou ao seu amo real o que o estúpido camponês havia dito, acrescentando:
-Não devemos nos preocupar com pessoas como essa gente, senhor, porque elas não sabem nada sobre as ocupações dos reis.
Mesmo assim, uma vez recobrado de sua surpresa, o sultão disse:
- Estou perdidamente apaixonado pela filha desse pastor e por isso devo estar preparado para fazer qualquer coisa que seu pai ordene, a fim de casar-me com ela.
Deixou o império nas mãos de um regente e foi ser aprendiz de um tecelão de tapetes. Depois de quase um ano já dominava a arte de fazer tapetes simples. Com alguns de seus próprios trabalhos foi até a cabana do rei-pastor. Apresentou-se diante dele dizendo:
- Sou o sultão deste país e queria casar-me com sua filha, se ela me aceitar. Tendo recebido a mensagem, de que você requer de um futuro genro habilidades úteis, estudei tecelagem. Estes são alguns exemplos de meu trabalho.
- Quanto tempo você levou para fazer este tapete? - perguntou o rei-pastor.
- Três semanas - respondeu o sultão.
- Quando o vender, quanto tempo você poderá viver com o que obtiver?
- Três meses - respondeu o sultão.
- Você pode se casar com minha filha, se ela quiser aceitá-lo - disse o pai.
O sultão ficou encantado e feliz quando aprincesa consentiu em casar-se com ele.
- Seu pai - disse ele, - mesmo sendo um camponês, é um homem sábio e sagaz.
- Um camponês pode ser tão inteligente quanto um sultão - disse a princesa, - mas um rei, se teve as experiências necessárias, pode ser tão sábio como o camponês sagaz.
O sultão e a princesa se casaram com todo o esplendor. O rei-pastor, com a ajuda de seu novo genro, regressou ao seu país, onde ficou conhecido para sempre como um monarca bom e inteligente, que nunca se cansou de alentar a todos e a cada um dos súditos para que aprendessem um ofício útil.

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Texto trabalhado em psicoterapia de grupo e publicado à pedido dos participantes, com o desenvolvimento dos seguintes temas: "a experiência como fonte de aprendizado, auto-imagem, sobrevivência, enfrentamento de dificuldades, missão pessoal e valor da vida.

("O rei sem ofício" - Histórias da Tradição Sufi - Rio de Janeiro - 1993 - Edições Dervish, página 41.)