sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Quando a doença entra em cena - relação saúde / doença

                                                                       (O médico - 1891 - Sir Samuel Luke Fildes)

A vida moderna e corrida é uma máquina de estímulos que nos mantém sempre ocupados, correndo atrás do próprio rabo, não parando para ver e escutar qualquer coisa que atrapalhe nossa maratona diária. É comum a sensação de se estar sempre atrasado, nunca se estando onde realmente se está: o aqui e agora praticamente não existe em nosso dia-a-dia porque o pensamento sempre está no próximo compromisso, e nunca naquilo que se está fazendo realmente. Falamos muito mais do que ouvimos e para nos proteger, criamos um certo isolamento que nos mantém longe dos problemas e dificuldades das outras pessoas. Em outras palavras, confundimos privacidade com individualismo e usamos isto como desculpa para nos mantermos distantes, isolados e protegidos. Vivemos numa roda-viva que costumamos criticar, mas que diariamente alimentamos e damos força, mesmo sem perceber. Repetimos conservas e padrões de um comportamento mecânico, que são adequados para um sistema econômico e social, que precisa que todos estejam permanentemente "produzindo e consumindo". Neste estado mantemos uma fantasia muito comum: quanto mais me movimentar, mais vou conquistar e consumir. Quanto mais movimento mecânico e não espontâneo, menos criatividade, menos tempo para a escuta e para o compartilhamento.
Na maior parte das vezes se estabelece um ciclo infinito, onde sempre se corre atrás daquilo que não está aqui e agora, mas em algum lugar do futuro ou do passado. Este ciclo costuma ser rompido drasticamente nos momentos em que surge alguma adversidade, capaz de tirar o sujeito de sua maratona infinita. Nos momentos em que a vida apresenta adversidades, as pessoas costumam lembrar que precisam muito umas das outras. A doença é uma das adversidades que força o sujeito a lembrar de que não vive sozinho. Receber um diagnóstico médico indesejado para si, ou para alguém próximo, é sempre assustador. A doença tem o poder de excluir o sujeito da roda produtiva e consumidora, acrescentando ao sofrimento que já produz naturalmente, o sentimento de vergonha e humilhação. Parte importante da tristeza que se estabelece com o surgimento da doença, está relacionado com a vergonha de não se sentir mais produtivo.
No momento em que alguém recebe uma notícia ruim sobre sua saúde, ou sobre a saúde de alguém próximo, a vida vira de pernas para o ar. Quase tudo que tinha muito sentido, deixa de ter sentido e surgem os sentimentos angustiantes de medo, desamparo e indefinição. Quando a doença entra em cena, o distanciamento que antes protegia passa a ser uma das maiores dificuldades e fonte de sofrimento.
O sujeito doente que sai em busca de um profissional ou instituição para ajudá-lo, tem a fundamental necessidade de calor humano, acolhimento e orientações esclarecedoras. Sabemos e escutamos histórias de que houve um tempo, em que profissionais e instituições cuidavam do corpo doente de uma pessoa, mas também se preocupavam em estimular o otimismo e a alegria, que são ingredientes mágicos e preciosos no processo de qualquer tipo de cura e tratamento. A escuta atenta e continente da história do sujeito, a empatia e a generosidade são elementos fundamentais nesta relação. Quando se procura por ajuda profissional, procura-se por esse sujeito quase mítico, capaz de acolher, ouvir, entender, orientar e ajudar.
Nestes momentos difíceis, espera-se muito mais do que conhecimento técnico e científico.

Os profissionais de saúde que em tese são aqueles que conhecem e tem acesso a sabedoria da ciência, possuem o status de "deuses" nos momentos angustiantes causados pela doença. Um status que quase sempre os envaidece. O imaginário comum está repleto de "deuses" que salvaram muitas vidas e devolveram a alegria para muitos doentes e suas famílias. E muitas vezes isso foi, ou é verdade, felizmente. Mas quando falamos na visão moderna que a ciência apresenta sobre a saúde, especialmente na saúde pública, na maior parte das vezes o sujeito doente se defronta com profissionais e instituições que não possuem tempo para olhá-lo, escutá-lo e estimulá-lo.  O atendimento disponibilizado para a população costuma ser rápido e impessoal, se preocupando mais com o cumprimento de regras e protocolos reconhecidos cientificamente. Quase não há conversa e compartilhamento, apenas uma racionalidade científica, médica e sociológica, que busca enxergar e proteger a saúde, mas que costuma se esquecer do sujeito. A saúde é enxergada através da decomposição do corpo humano em elementos constituintes, no funcionamento e desagregação deste elementos, na relação dos seres humanos com seus corpos, nas mentes humanas, na sexualidade humana, no sofrimento humano e na morte humana.
Esta visão está profundamente enraizada e atrelada a atuação do profissional, que possui um discurso técnico e especializado, focado nas relações das ciências com suas próprias teorias e conceitos. O sujeito doente está fora deste discurso.
A essência da racionalidade científica é claramente construtivista, mas sua forma de atuação a torna excessivamente prática, impositiva e classificatória: os anormais portadores de doenças, síndromes e distúrbios. Impessoalizar o atendimento faz com que vertentes mais subjetivas do sujeito adoecido, sejam ignoradas. Com isso perde-se a oportunidade de se acrescentar elementos mais humanos e determinantes na relação saúde / doença. Não é incomum pessoas doentes esconderem dos profissionais que as atendem, por puro medo ou pura incompreensão, fatos relevantes que poderiam contribuir muito com seu diagnóstico, tratamento e desenlace. Não se sentem a vontade e não confiam, contribuindo para o aumento do distanciamento desta relação.
É preciso lembrar que os profissionais de saúde também fazem parte deste mundo corrido e surdo. E como todas as pessoas, muitas vezes se comportam como surdos e ilhados, mesmo nos momentos em que suas atitudes, crenças e capacidade em proporcionar afeto, possuam um enorme peso e poder de influência. Lembrá-los disto quando necessário, é uma importante contribuição que talvez ajude a reduzir este distanciamento. Tenho a forte crença de que a vida só tem sentido nas relações de afeto, troca e aprendizagem que somos capazes de construir e manter. Embora reconheça que nos dias de hoje esteja cada vez mais difícil manter esta crença, me esforço muito para manter este propósito.
A atitude de acolher, escutar e compartilhar talvez esteja mais atrelada pelos ideias contemplativos do Ser e de suas causas, oriundos da filosofia grega clássica. Parece que em algum momento da história a ciência se distanciou destes ideais, permitindo que seu lado mais pragmático, aparentemente neutro e impositivo, ocupasse a maior porção do espaço na relação saúde / doença.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Os Três Surdos


Era uma vez um pastor surdo, surdo como uma porta. Todos os dias ele levava suas ovelhas para pastar ao pé de uma colina e ali ficava o dia todo tomando conta delas, só parando para descansar por volta do meio-dia, quando sua mulher lhe trazia o almoço.
Um dia, porém, o sol já ia alto e nada de aparecer a mulher. Preocupado e com fome, o pastor achou que era melhor dar uma chegadinha até sua casa; mas como, se não podia deixar suas ovelhas sozinhas? Por sorte, olhando em volta, ele viu, não longe dali, um camponês. Esse camponês também era surdo, surdo como uma porta. E estava ali compenetrado, colhendo o milho que plantara, quando viu o pastor aproximar-se gesticulando e falando:
 - Amigo, eu estou com muita fome e preciso buscar meu almoço. Será que você poderia olhar meu rebanho que ali está? É só por alguns minutinhos!
O camponês, é claro, não ouviu nada. Mas supôs, pelos gestos do pastor, que ele lhe pedia algo para comer, para ele e para suas ovelhas, só algumas espigas. Não querendo repartir seu milho, ele respondeu muito sério:
- Não me peça isso, por favor. É melhor ir andando, antes que eu me zangue! Vá, não insista!
O pastor agradeceu-lhe e saiu correndo, pois entendera algo como "Não se preocupe, amigo. Vá, não perca tempo!".
Chegando em casa, descobriu que sua mulher torcera o pé, por isso não fora levar seu almoço. Depois de cuidar dela, comeu alguma coisa e voltou para seu rebanho. Ao pé da colina, as ovelhas pastavam sossegadas; contando-as, o pastor verificou que não faltava nenhuma. Isso o deixou contente e com vontade de agradecer ao camponês o favor que lhe prestara. "Pois ele nem me conhece e foi tão atencioso!", pensou. "Vou mostrar-lhe minha generosidade!" E, escolhendo uma de suas ovelhas, uma pequena que estava com a pata quebrada, colocou-a nas costas e dirigiu-se ao camponês:
- Amigo, muito obrigado por ter tomado conta das minhas ovelhas! Quero recompensá-lo, oferecendo-lhe esta aqui.
Mas o camponês desconfiadíssimo, pensou que ele estivesse insistindo em conseguir seu milho:
- Não, eu já disse que não tenho nada a ver com suas ovelhas. E, se essa ao está pequena porque não come, o problema não é meu.
- Você não quer o meu presente? - tornou, sem entender nada, o pastor. - Ora, vamos, eu insisto, não vai me fazer falta. Aliás, confesso, esta aqui teria mesmo de ser sacrificada; veja sua patinha: está quebrada!
- O quê??? - enfureceu-se o outro. - E você ainda se atreve a me acusar de ter quebrado a pata deste animal? Mas que atrevido!
E investiu contra o pastor, que, ofendidíssimo com a recusa, enfrentou-o esbravejando: 
- Seu orgulhoso! Quem você pensa que é, para rejeitar meu presente? Você vai ver só!
E estavam a ponto de se atracar quando passou por ali um ladrão, que acabara de roubar um cavalo. Pois esse ladrão também era surdo. Surdo como... vocês sabem. Os dois briguentos correram até ele, um gritando mais que o outro, tentando conseguir que alguém resolvesse a disputa. O ladrão, como era de se esperar, não ouviu coisa alguma, mas se assustou com o que pensou entender:
- Como? Vocês vem me dizer que este cavalho lhes pertence? Pois fiquem sabendo que este cavalo não é de nenhum dos dois! Eu acabei de roubá-lo do meu vizinho! Eu sou ladrão, mas sou mais honesto do que vocês!
E partiu também para cima deles, pronto para brigar. Felizmente, neste momento passava pela estrada um velho sacerdote, de hábito preto e barbas brancas. Os três, quando o viram, tiveram a mesma ideia: correr até ele e pedir-lhe que solucionasse a questão. Cada um contou-lhe sua versão do caso e o sacerdote percebeu que tudo não passava de um grande mal-entendido. Mas como desfazer aquela complicação, se os três não podiam ouvir? O sacerdote pensou, pensou, coçou a barba, franziu o cenho, porém nada lhe ocorria.
Enquanto isso, o ladrão achou melhor aproveitar a oportunidade e fugir, sorrateiro, antes que fosse preso; o camponês, impressionado pelo ar sério do sacerdote, também achou melhor sair de mansinho, para não ser admoestado por sua sovinice; e o pastor, por sua vez, temendo uma possível reprimenda daquele santo e severo homem, considerou de bom alvitre voltar às suas pacatas ovelhas.
O sacerdote, vendo desfeita a confusão, sorriu, pensativo. Sem dúvida, naquele dia ele aprendera uma coisa: quando se conversa com surdos, o melhor que se tem a fazer é fingir-se de mudo...

Conto extraído do livro: Novas Histórias Antigas - 9ª reimpressão - página 11 - Brinque-Book, Rosane Pamplona com ilustração de Dino Bernardi Junior.  

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sentimento de insegurança e falta de autonomia



Uma pessoa insegura desconhece o seu próprio valor e duvida muito de suas possibilidades e habilidades, comprometendo sua capacidade em ser espontâneo, criativo e autônomo. Embora cada pessoa possua uma história e singularidade únicas, o sentimento de insegurança apresenta um traço comum diferenciando-se apenas na intensidade: a percepção distorcida e negativa de si mesmo associada ao sentimento de fragilidade e vulnerabilidade excessivas. Pessoas inseguras (crianças ou adultos) sentem-se vulneráveis, fragilizadas e sem confiança em si mesmo e nos outros com quem convivem e compartilham. As demandas de uma criança são diferentes das demandas de um adulto, mas em ambos os casos os sintomas apresentados são semelhantes: retraimento e isolamento social, funcionando como mecanismos de fuga e defesa. Não é incomum crianças inteligentes e sem nenhum problema neurológico ou cognitivo apresentarem dificuldades em se relacionar com amigos na escola e até mesmo em aprender. Da mesma maneira não é incomum a queixa de adultos que se consideram incompetentes e com muito medo de fracassarem em suas atividades ou relações, por sentirem-se inaptos, despreparados ou de alguma maneira inferiores. Para combater o sentimento angustiante de inferioridade e incapacidade, defesas com aparência e reação oposta ao isolamento também são mobilizadas: ansiedade excessiva, personalidades controladoras, arrogância, paranoia e agressividade. 
Em que momento a insegurança se instala? Por que algumas pessoas são mais inseguras? Compartilho da ideia de que a insegurança surge na mais tenra idade (talvez até durante a vida intrauterina) por aspectos internos da criança (instintos), e seja reforçada por fatores externos da criança (ambiente), nas situações em que as capacidades de adaptação e interação fiquem prejudicadas pela inibição da espontaneidade e criatividade. Essas situações geram entraves do desenvolvimento emocional que com algumas modificações e camuflagens, vão se apresentar na vida adulta quase que da mesma maneira com que se apresentaram na infância.

O processo de desenvolvimento emocional surge desde antes do nascimento e é contínuo, permanecendo durante toda a vida do indivíduo. Por ser contínuo, o adulto sempre pode retomar hoje, aspectos e dificuldades que tiveram origem em seu passado, seja no âmbito interno (instintos), ou externo (ambiente). Os vários estágios deste processo ajudam a observar e compreender razoavelmente as dificuldades que surgem durante a vida das pessoas, bloqueando a capacidade do sujeito em ser espontâneo e criativo para adaptar-se a uma nova realidade. A saúde psíquica depende muito do bom equilíbrio entre estes dois fatores (interno e externo), fundamentais para que o desenvolvimento ocorra e o sujeito possa desenvolver sua autoestima para seguir adiante. A família da criança é o seu primeiro grupo e faz o papel do ambiente externo que porá à prova sua capacidade de adaptação e interação. Aos poucos, se tudo correr bem, o futuro adulto será saudável e capaz de se identificar com grupos cada vez mais amplos e complexos, sem perder o senso de si mesmo e de espontaneidade individual.
O crescimento individual da criança caminha do estágio da dependência para a independência, em direção a autonomia do futuro adulto. A autonomia do adulto depende muito de sua autoestima - aquele amor próprio que se desenvolve através da certeza de que fizemos e fazemos parte, fomos e somos aceitos, fomos e somos amados e, que todos que nos amam torcem por nós e confiam que seremos capazes de enfrentar sozinhos as dificuldades que fazem parte da vida. Ai está a importância do papel dos pais ou cuidadores, como responsáveis diretos em procurar garantir as condições mais adequadas para que o desenvolvimento individual da criança possa ocorrer da melhor maneira possível.

O mundo corrido e materialista de hoje praticamente torna incompatível a disponibilidade dos pais para conviver mais tempo com suas crianças. Ao mesmo tempo cria uma ilusão com função compensatória de que, "condições adequadas" estejam relacionadas apenas com a provisão material: uma boa casa, boa escola, babás 24 horas por dia, cursos de piano, balé, natação, inglês, brinquedos, passeios, etc. Há a ilusão de que se possa proporcionar felicidade e demonstrar afeto, suprindo a criança com todo tipo de necessidade material (muitas vezes em excesso).
Ter roupas, brinquedos, uma boa casa e ir a uma boa escola é muito importante e desejável, mas é apenas um aspecto das obrigações paternas. O desenvolvimento emocional da criança está vinculado principalmente com a experiência de se "estar junto" com ela. A experiência de "estar junto" é vivenciada através do contato direto e cotidiano: colo, brincar junto, mimos, beijos, abraços, broncas, conversas, cócegas, desenhar, pintar, compartilhamento à mesa, cantar, tocar, contar histórias, ouvir histórias, etc. Nenhum objeto de consumo é capaz de substituir esta experiência.
Com a vida tensa e cada vez mais corrida de hoje, não é nada fácil criar este tempo e disponibilidade. Depois de um dia muito cansativo de trabalho, é muito difícil "estar junto" e disponível. É preciso se fazer uma opção firme para se encontrar este espaço  e certamente essa escolha produzirá consequências significativas na rotina e na vida dos pais. Esta é uma aflição muito comum dos dias de hoje e desconheço a existência de uma fórmula de sucesso. Mas se desejamos que nossas crianças tornem-se adultos mais seguros e felizes, é preciso se construir este espaço. Este é um grande desafio e ao mesmo tempo uma grande oportunidade para pais e cuidadores utilizarem sua espontaneidade e criatividade e se adaptarem em uma nova rotina, sem perderem de vista suas necessidades e anseios profissionais.
O lado bom é que a medida em que a criança se desenvolve e conquista aos poucos sua autonomia, escolhas que foram deixadas para um segundo plano podem voltar a ser consideradas. Bônus inegáveis desta opção: a) quando se "está junto" com os filhos tem-se a oportunidade de retornar à própria infância e ao próprio desenvolvimento emocional - Isto sempre traz benefícios e autoconhecimento; b) ter a certeza de que a facilitação do desenvolvimento emocional dos filhos são ingredientes muito importantes e determinantes na formação de um futuro adulto mais humano e mais feliz.  Talvez estes sejam  ingredientes indispensáveis para a construção de um mundo melhor de se viver: mais humano, menos corrido e mais seguro.

Recomendo a leitura do blog OvO http://beabaos.wordpress.com/2013/01/30/mimo/ de Beatriz Antunes, onde este assunto é tratado através da visão de uma mãe que fez a escolha de "estar junto" com sua filha.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

"Compreendemos quando fazemos parte do que nos é dito" - Martin Heidegger

A indignação deixou de ser virtual e se concretizou nas ruas! As redes sociais saíram do mundo digital e tomaram praças e avenidas, ameaçando assembleias, prefeituras, sedes dos governos estaduais e congresso. De uma hora para a outra R$0,20 se transformaram na fagulha que reacendeu estopins sociais muito antigos e sempre postergados e ignorados pelos governantes: transporte público caótico, caro, insuficiente, poluidor e de péssima qualidade; um sistema de saúde pública deficitário e incompetente para atender com dignidade, humanidade e qualidade a maior parte da população - filas em hospitais falta de treinamento adequado, falta de profissionais qualificados, falta de atendimento, falta de infraestrutura, etc; educação pública que desmerece e não valoriza professores, funcionários e alunos - falta de vagas, prédios e instalações  em péssimas condições, falta de segurança, falta de treinamento e capacitação para professores e funcionários, salários muito abaixo daquilo que se considera razoável para uma profissão tão importante (qualquer assessor parlamentar ganha muito mais do que um professor...); segurança pública deficitária e incompetente, que não investe adequadamente na formação, capacitação e carreira do policial que teoricamente se expõe para proteger a população - carros de polícia com pneus carecas, armas obsoletas, falta de treinamento e capacitação para o exercício da profissão, salários muito baixos, etc;  um sistema judiciário lento e desigual, que prende e manda soltar de acordo com a capacidade do réu para pagar os honorários dos seus advogados de defesa - bons advogados custam muito e sabem como se utilizar de inúmeros recursos e artimanhas jurídicas para atrasar indefinidamente, ou até mesmo mudar sentenças (os réus do mensalão ainda estão todos soltos e as cadeias estão repletas de gente pobre, que em muitos casos cometeu o crime de roubar para comer... e a qualquer momento você pode ser vítima de assalto e arrastão dentro de um restaurante, ou pior ainda, dentro de sua própria casa).Os motivos e questões sociais são inúmeros e nem me sinto capacitado a falar deles com a propriedade e profundidade que gostaria. Acredito que, além de mim, a maior parte da população desconhece planilhas, fórmulas e métodos técnicos para a realização dos orçamentos pelas instituições responsáveis pelos governos. O que a população percebe não necessita de um grande conhecimento tributário ou de economia: a arrecadação e a destinação dos recursos é historicamente realizada de maneira desigual, incompetente, autoritária, muitas vezes corrupta e, que sempre exclui a população com seus desejos e necessidades (quem não se lembra da CPMF, do IPVA, etc.?).

A falta de recursos já não é mais desculpa para a falta de ações mais objetivas pelos governantes. A tecnologia permitiu nos últimos anos que os governos municipal, estadual e federal aumentassem significativamente a arrecadação de impostos, mas mesmo assim, quando saímos à rua ou vamos a um hospital, continuamos a ver cada vez mais crianças pedindo esmolas nos faróis, gente morando embaixo de pontes, filas intermináveis de atendimento em hospitais, ônibus e trens lotados, etc... Diante de tanto descaso, brota um forte sentimento de impotência, exclusão e desrespeito!Os governantes estão assustados com a repercussão das manifestações, por não conseguirem entender ou atender de uma só vez a tantas demandas. Chamam a isto de "pauta difusa". São muitas questões trazidas à tona por uma população inteira, de maneira direta, não editada e formatada por lideranças ou instituições. É um movimento totalmente "horizontal", que foge ao tradicional modelo "vertical", normalmente representado através da liderança dos partidos políticos. Pessoas que tentam utilizar bandeiras de partidos políticos são vaiadas e instigadas a não utilizarem nenhum símbolo. As pessoas que estão protestando nas ruas não possuem líderes, por não se sentirem representadas por nenhuma liderança instituída. Ao contrário, sentem-se usadas e desrespeitadas pelas instituições. Suas insatisfações e demandas são extravasadas diretamente, sem intermediários. Quando digo isto, reitero aqui que sou totalmente contra qualquer forma de violência. Não aprovo e não sou solidário às cenas de violência descabida da polícia, registradas nos primeiros dias dos protestos, e nem do vandalismo que infelizmente acompanhou muitos momentos importantes do movimento. Caminhando juntos nas ruas, existem grupos pró-aborto, ao lado de grupos anti-aborto. Grupos de policiais, de professores, de bombeiros, de estudantes, de trabalhadores, aposentados, pais com crianças de colo, idosos, etc. A velha sociologia política é insuficiente para explicar e formatar estes acontecimentos. Trata-se de um novo fenômeno social, que ainda precisa ser compreendido e estudado, mas que certamente influenciará e trará consequências para a forma do estado se relacionar com a população. Muitos políticos ainda não perceberam isso - ontem assisti nos telejornais as declarações de prefeitos que continuam a fazer um discurso "vertical" e de exclusão: "Vou revogar tal lei..." "Vou decretar tal coisa..."  Enquanto isso a população continuava nas ruas, não dando bola e não escutando. A população só irá compreender quando fizer parte da solução.O sentimento de exclusão foi vencido pela capacidade de organização e demonstração de ações concretas das redes sociais. Não é mais possível os governantes tomarem decisões sem ao menos se preocuparem com a repercussão de suas atitudes. Já o sentimento de impotência, este foi agora transferido para os governantes. Somente a ajuda da população poderá devolver a estabilidade e a capacidade do governo agir com verdadeiro espírito democrático e credibilidade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A sina da repetição... "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"


Processos e situações da vida que se repetem de tempos em tempos, que muitas vezes são percebidos como uma sina ou um destino que persegue a pessoa, deixando-a sem saída. O tempo passa e o novo que está para surgir, quando surge, traz consigo uma aparência de novidade, mas uma essência que lembra em muito o velho que já se foi.  Relacionamentos novos que começam com uma aparência diferente e que terminam do mesmo jeito que os anteriores. Trabalhos que parecem diferentes e inovadores, mas que sempre produzem os mesmos resultados A educação dos filhos em que pensamos estar agindo de maneira melhor e diferente, mas quando nos damos conta, estamos repetindo os mesmos erros e acertos de nossos pais. Tragédias causadas pelo descaso das pessoas e das autoridades que deveriam zelar para que não acontecessem nunca mais (mais recentemente Newtown e o incêndio da boate Kiss). Esses são apenas alguns exemplos de situações comuns, que se repetem com frequência na vida privada e coletiva. As pessoas tendem a culpar o próprio "destino", colocando-se como vítimas de algo superior e maquiavélico. Tenho uma convicção diferente: considero que somos os únicos responsáveis por tudo o que ocorre em nossa vida. As repetições e as situações em que participamos, são os frutos que colhemos de nossas intenções inconscientes. Num voo cego e mecânico, provocamos repetições quase que fidedignas de situações já vivenciadas antes, boas ou ruins. O curioso é que procuramos não repetir as situações que causaram grande desconforto, mas quando nos damos conta, já estamos muito envolvidos em  circunstâncias muito semelhantes, que imaginávamos não passar nunca mais. Em outras palavras, a repetição ocorre na maioria das vezes de maneira inconsciente e não planejada, fora do controle da consciência. E isto não tira a nossa responsabilidade.

Freud e a psicanálise partem do princípio que o neurótico (todos nós) sempre repete - "...representando o que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento e em especial a reprodução de uma percepção anterior." (Vocabulário de Psicanálise - Laplanche e Pontalis). O psicodrama traz uma visão diferente, mas que complementa bem a visão da psicanálise: considera que tendemos a sempre representar os papeis que estão atrelados ao "drama inconsciente" que cada indivíduo carrega consigo. Pois bem, este drama inconsciente é passível de muitas outras informações que não cabem neste texto. Mas a forma como ele pode se desenrolar, que é através da representação de papeis, sim.  E o que significa o termo "papel"? A definição do termo "papel" segundo o dicionário Aurélio: "Atribuição de natureza moral, jurídica, técnica, etc.; desempenho, função." Em sua leitura e análise sobre "A teoria dos papeis e socionomia", Naffah Neto (Psicodrama - Descolonizando o Imaginário) menciona que o equivalente a papel em francês é o termo rôle, que é derivado etimologicamente do latim medieval rotulus
que significa, de um lado, uma folha enrolada contendo um escrito e, de outro lado, aquilo que deve recitar um ator numa peça de teatro. Se imaginarmos que cada indivíduo constrói e possui seu próprio"rótulo",  podemos dizer que de certa maneira, estamos atrelados a uma forma e a uma maneira "previsível" de se comportar e viver. Este "rótulo" tem grande importância na construção da identidade, que é uma construção dinâmica da unidade de consciência de si, que corresponde a um sentimento subjetivo de permanência e de continuidade. Para "permanecer e continuar", o sujeito precisa da concordância e da validação dos outros sujeitos - precisa ser aceito. Creio que a insegurança e o medo da não aceitação, sejam importantes fatores na dificuldade do sujeito em conseguir abandonar ou trocar os "rótulos" e papeis que lhe causam sofrimento.

O desvendamento do drama inconsciente é a maior e talvez única possibilidade, do indivíduo se livrar dos papeis que não quer mais representar em sua vida. Este é um longo e difícil processo de autoconhecimento, onde a psicoterapia pode ser de grande ajuda.


Bernardo Soares em "O livro do desassossego" descreveu com poesia esta dificuldade: "...estes moços da porta da taberna antiga, esta inutilidade trabalhosa de todos os dias iguais, esta repetição pegada das mesmas personagens, como um drama que consiste apenas no cenário, e o cenário estivesse às avessas… Mas vejo também que fugir a isto seria ou dominá-lo ou repudiá-lo, e eu nem o domino, porque o não excedo adentro do real, nem o repudio, porque, sonhe o que sonhe, fico sempre onde estou."
Curiosamente estou ouvindo neste momento Elis Regina cantar "Como os nossos pais", de Belchior: "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais."