quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sentimento de insegurança e falta de autonomia



Uma pessoa insegura desconhece o seu próprio valor e duvida muito de suas possibilidades e habilidades, comprometendo sua capacidade em ser espontâneo, criativo e autônomo. Embora cada pessoa possua uma história e singularidade únicas, o sentimento de insegurança apresenta um traço comum diferenciando-se apenas na intensidade: a percepção distorcida e negativa de si mesmo associada ao sentimento de fragilidade e vulnerabilidade excessivas. Pessoas inseguras (crianças ou adultos) sentem-se vulneráveis, fragilizadas e sem confiança em si mesmo e nos outros com quem convivem e compartilham. As demandas de uma criança são diferentes das demandas de um adulto, mas em ambos os casos os sintomas apresentados são semelhantes: retraimento e isolamento social, funcionando como mecanismos de fuga e defesa. Não é incomum crianças inteligentes e sem nenhum problema neurológico ou cognitivo apresentarem dificuldades em se relacionar com amigos na escola e até mesmo em aprender. Da mesma maneira não é incomum a queixa de adultos que se consideram incompetentes e com muito medo de fracassarem em suas atividades ou relações, por sentirem-se inaptos, despreparados ou de alguma maneira inferiores. Para combater o sentimento angustiante de inferioridade e incapacidade, defesas com aparência e reação oposta ao isolamento também são mobilizadas: ansiedade excessiva, personalidades controladoras, arrogância, paranoia e agressividade. 
Em que momento a insegurança se instala? Por que algumas pessoas são mais inseguras? Compartilho da ideia de que a insegurança surge na mais tenra idade (talvez até durante a vida intrauterina) por aspectos internos da criança (instintos), e seja reforçada por fatores externos da criança (ambiente), nas situações em que as capacidades de adaptação e interação fiquem prejudicadas pela inibição da espontaneidade e criatividade. Essas situações geram entraves do desenvolvimento emocional que com algumas modificações e camuflagens, vão se apresentar na vida adulta quase que da mesma maneira com que se apresentaram na infância.

O processo de desenvolvimento emocional surge desde antes do nascimento e é contínuo, permanecendo durante toda a vida do indivíduo. Por ser contínuo, o adulto sempre pode retomar hoje, aspectos e dificuldades que tiveram origem em seu passado, seja no âmbito interno (instintos), ou externo (ambiente). Os vários estágios deste processo ajudam a observar e compreender razoavelmente as dificuldades que surgem durante a vida das pessoas, bloqueando a capacidade do sujeito em ser espontâneo e criativo para adaptar-se a uma nova realidade. A saúde psíquica depende muito do bom equilíbrio entre estes dois fatores (interno e externo), fundamentais para que o desenvolvimento ocorra e o sujeito possa desenvolver sua autoestima para seguir adiante. A família da criança é o seu primeiro grupo e faz o papel do ambiente externo que porá à prova sua capacidade de adaptação e interação. Aos poucos, se tudo correr bem, o futuro adulto será saudável e capaz de se identificar com grupos cada vez mais amplos e complexos, sem perder o senso de si mesmo e de espontaneidade individual.
O crescimento individual da criança caminha do estágio da dependência para a independência, em direção a autonomia do futuro adulto. A autonomia do adulto depende muito de sua autoestima - aquele amor próprio que se desenvolve através da certeza de que fizemos e fazemos parte, fomos e somos aceitos, fomos e somos amados e, que todos que nos amam torcem por nós e confiam que seremos capazes de enfrentar sozinhos as dificuldades que fazem parte da vida. Ai está a importância do papel dos pais ou cuidadores, como responsáveis diretos em procurar garantir as condições mais adequadas para que o desenvolvimento individual da criança possa ocorrer da melhor maneira possível.

O mundo corrido e materialista de hoje praticamente torna incompatível a disponibilidade dos pais para conviver mais tempo com suas crianças. Ao mesmo tempo cria uma ilusão com função compensatória de que, "condições adequadas" estejam relacionadas apenas com a provisão material: uma boa casa, boa escola, babás 24 horas por dia, cursos de piano, balé, natação, inglês, brinquedos, passeios, etc. Há a ilusão de que se possa proporcionar felicidade e demonstrar afeto, suprindo a criança com todo tipo de necessidade material (muitas vezes em excesso).
Ter roupas, brinquedos, uma boa casa e ir a uma boa escola é muito importante e desejável, mas é apenas um aspecto das obrigações paternas. O desenvolvimento emocional da criança está vinculado principalmente com a experiência de se "estar junto" com ela. A experiência de "estar junto" é vivenciada através do contato direto e cotidiano: colo, brincar junto, mimos, beijos, abraços, broncas, conversas, cócegas, desenhar, pintar, compartilhamento à mesa, cantar, tocar, contar histórias, ouvir histórias, etc. Nenhum objeto de consumo é capaz de substituir esta experiência.
Com a vida tensa e cada vez mais corrida de hoje, não é nada fácil criar este tempo e disponibilidade. Depois de um dia muito cansativo de trabalho, é muito difícil "estar junto" e disponível. É preciso se fazer uma opção firme para se encontrar este espaço  e certamente essa escolha produzirá consequências significativas na rotina e na vida dos pais. Esta é uma aflição muito comum dos dias de hoje e desconheço a existência de uma fórmula de sucesso. Mas se desejamos que nossas crianças tornem-se adultos mais seguros e felizes, é preciso se construir este espaço. Este é um grande desafio e ao mesmo tempo uma grande oportunidade para pais e cuidadores utilizarem sua espontaneidade e criatividade e se adaptarem em uma nova rotina, sem perderem de vista suas necessidades e anseios profissionais.
O lado bom é que a medida em que a criança se desenvolve e conquista aos poucos sua autonomia, escolhas que foram deixadas para um segundo plano podem voltar a ser consideradas. Bônus inegáveis desta opção: a) quando se "está junto" com os filhos tem-se a oportunidade de retornar à própria infância e ao próprio desenvolvimento emocional - Isto sempre traz benefícios e autoconhecimento; b) ter a certeza de que a facilitação do desenvolvimento emocional dos filhos são ingredientes muito importantes e determinantes na formação de um futuro adulto mais humano e mais feliz.  Talvez estes sejam  ingredientes indispensáveis para a construção de um mundo melhor de se viver: mais humano, menos corrido e mais seguro.

Recomendo a leitura do blog OvO http://beabaos.wordpress.com/2013/01/30/mimo/ de Beatriz Antunes, onde este assunto é tratado através da visão de uma mãe que fez a escolha de "estar junto" com sua filha.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

"Compreendemos quando fazemos parte do que nos é dito" - Martin Heidegger

A indignação deixou de ser virtual e se concretizou nas ruas! As redes sociais saíram do mundo digital e tomaram praças e avenidas, ameaçando assembleias, prefeituras, sedes dos governos estaduais e congresso. De uma hora para a outra R$0,20 se transformaram na fagulha que reacendeu estopins sociais muito antigos e sempre postergados e ignorados pelos governantes: transporte público caótico, caro, insuficiente, poluidor e de péssima qualidade; um sistema de saúde pública deficitário e incompetente para atender com dignidade, humanidade e qualidade a maior parte da população - filas em hospitais falta de treinamento adequado, falta de profissionais qualificados, falta de atendimento, falta de infraestrutura, etc; educação pública que desmerece e não valoriza professores, funcionários e alunos - falta de vagas, prédios e instalações  em péssimas condições, falta de segurança, falta de treinamento e capacitação para professores e funcionários, salários muito abaixo daquilo que se considera razoável para uma profissão tão importante (qualquer assessor parlamentar ganha muito mais do que um professor...); segurança pública deficitária e incompetente, que não investe adequadamente na formação, capacitação e carreira do policial que teoricamente se expõe para proteger a população - carros de polícia com pneus carecas, armas obsoletas, falta de treinamento e capacitação para o exercício da profissão, salários muito baixos, etc;  um sistema judiciário lento e desigual, que prende e manda soltar de acordo com a capacidade do réu para pagar os honorários dos seus advogados de defesa - bons advogados custam muito e sabem como se utilizar de inúmeros recursos e artimanhas jurídicas para atrasar indefinidamente, ou até mesmo mudar sentenças (os réus do mensalão ainda estão todos soltos e as cadeias estão repletas de gente pobre, que em muitos casos cometeu o crime de roubar para comer... e a qualquer momento você pode ser vítima de assalto e arrastão dentro de um restaurante, ou pior ainda, dentro de sua própria casa).Os motivos e questões sociais são inúmeros e nem me sinto capacitado a falar deles com a propriedade e profundidade que gostaria. Acredito que, além de mim, a maior parte da população desconhece planilhas, fórmulas e métodos técnicos para a realização dos orçamentos pelas instituições responsáveis pelos governos. O que a população percebe não necessita de um grande conhecimento tributário ou de economia: a arrecadação e a destinação dos recursos é historicamente realizada de maneira desigual, incompetente, autoritária, muitas vezes corrupta e, que sempre exclui a população com seus desejos e necessidades (quem não se lembra da CPMF, do IPVA, etc.?).

A falta de recursos já não é mais desculpa para a falta de ações mais objetivas pelos governantes. A tecnologia permitiu nos últimos anos que os governos municipal, estadual e federal aumentassem significativamente a arrecadação de impostos, mas mesmo assim, quando saímos à rua ou vamos a um hospital, continuamos a ver cada vez mais crianças pedindo esmolas nos faróis, gente morando embaixo de pontes, filas intermináveis de atendimento em hospitais, ônibus e trens lotados, etc... Diante de tanto descaso, brota um forte sentimento de impotência, exclusão e desrespeito!Os governantes estão assustados com a repercussão das manifestações, por não conseguirem entender ou atender de uma só vez a tantas demandas. Chamam a isto de "pauta difusa". São muitas questões trazidas à tona por uma população inteira, de maneira direta, não editada e formatada por lideranças ou instituições. É um movimento totalmente "horizontal", que foge ao tradicional modelo "vertical", normalmente representado através da liderança dos partidos políticos. Pessoas que tentam utilizar bandeiras de partidos políticos são vaiadas e instigadas a não utilizarem nenhum símbolo. As pessoas que estão protestando nas ruas não possuem líderes, por não se sentirem representadas por nenhuma liderança instituída. Ao contrário, sentem-se usadas e desrespeitadas pelas instituições. Suas insatisfações e demandas são extravasadas diretamente, sem intermediários. Quando digo isto, reitero aqui que sou totalmente contra qualquer forma de violência. Não aprovo e não sou solidário às cenas de violência descabida da polícia, registradas nos primeiros dias dos protestos, e nem do vandalismo que infelizmente acompanhou muitos momentos importantes do movimento. Caminhando juntos nas ruas, existem grupos pró-aborto, ao lado de grupos anti-aborto. Grupos de policiais, de professores, de bombeiros, de estudantes, de trabalhadores, aposentados, pais com crianças de colo, idosos, etc. A velha sociologia política é insuficiente para explicar e formatar estes acontecimentos. Trata-se de um novo fenômeno social, que ainda precisa ser compreendido e estudado, mas que certamente influenciará e trará consequências para a forma do estado se relacionar com a população. Muitos políticos ainda não perceberam isso - ontem assisti nos telejornais as declarações de prefeitos que continuam a fazer um discurso "vertical" e de exclusão: "Vou revogar tal lei..." "Vou decretar tal coisa..."  Enquanto isso a população continuava nas ruas, não dando bola e não escutando. A população só irá compreender quando fizer parte da solução.O sentimento de exclusão foi vencido pela capacidade de organização e demonstração de ações concretas das redes sociais. Não é mais possível os governantes tomarem decisões sem ao menos se preocuparem com a repercussão de suas atitudes. Já o sentimento de impotência, este foi agora transferido para os governantes. Somente a ajuda da população poderá devolver a estabilidade e a capacidade do governo agir com verdadeiro espírito democrático e credibilidade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A sina da repetição... "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"


Processos e situações da vida que se repetem de tempos em tempos, que muitas vezes são percebidos como uma sina ou um destino que persegue a pessoa, deixando-a sem saída. O tempo passa e o novo que está para surgir, quando surge, traz consigo uma aparência de novidade, mas uma essência que lembra em muito o velho que já se foi.  Relacionamentos novos que começam com uma aparência diferente e que terminam do mesmo jeito que os anteriores. Trabalhos que parecem diferentes e inovadores, mas que sempre produzem os mesmos resultados A educação dos filhos em que pensamos estar agindo de maneira melhor e diferente, mas quando nos damos conta, estamos repetindo os mesmos erros e acertos de nossos pais. Tragédias causadas pelo descaso das pessoas e das autoridades que deveriam zelar para que não acontecessem nunca mais (mais recentemente Newtown e o incêndio da boate Kiss). Esses são apenas alguns exemplos de situações comuns, que se repetem com frequência na vida privada e coletiva. As pessoas tendem a culpar o próprio "destino", colocando-se como vítimas de algo superior e maquiavélico. Tenho uma convicção diferente: considero que somos os únicos responsáveis por tudo o que ocorre em nossa vida. As repetições e as situações em que participamos, são os frutos que colhemos de nossas intenções inconscientes. Num voo cego e mecânico, provocamos repetições quase que fidedignas de situações já vivenciadas antes, boas ou ruins. O curioso é que procuramos não repetir as situações que causaram grande desconforto, mas quando nos damos conta, já estamos muito envolvidos em  circunstâncias muito semelhantes, que imaginávamos não passar nunca mais. Em outras palavras, a repetição ocorre na maioria das vezes de maneira inconsciente e não planejada, fora do controle da consciência. E isto não tira a nossa responsabilidade.

Freud e a psicanálise partem do princípio que o neurótico (todos nós) sempre repete - "...representando o que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento e em especial a reprodução de uma percepção anterior." (Vocabulário de Psicanálise - Laplanche e Pontalis). O psicodrama traz uma visão diferente, mas que complementa bem a visão da psicanálise: considera que tendemos a sempre representar os papeis que estão atrelados ao "drama inconsciente" que cada indivíduo carrega consigo. Pois bem, este drama inconsciente é passível de muitas outras informações que não cabem neste texto. Mas a forma como ele pode se desenrolar, que é através da representação de papeis, sim.  E o que significa o termo "papel"? A definição do termo "papel" segundo o dicionário Aurélio: "Atribuição de natureza moral, jurídica, técnica, etc.; desempenho, função." Em sua leitura e análise sobre "A teoria dos papeis e socionomia", Naffah Neto (Psicodrama - Descolonizando o Imaginário) menciona que o equivalente a papel em francês é o termo rôle, que é derivado etimologicamente do latim medieval rotulus
que significa, de um lado, uma folha enrolada contendo um escrito e, de outro lado, aquilo que deve recitar um ator numa peça de teatro. Se imaginarmos que cada indivíduo constrói e possui seu próprio"rótulo",  podemos dizer que de certa maneira, estamos atrelados a uma forma e a uma maneira "previsível" de se comportar e viver. Este "rótulo" tem grande importância na construção da identidade, que é uma construção dinâmica da unidade de consciência de si, que corresponde a um sentimento subjetivo de permanência e de continuidade. Para "permanecer e continuar", o sujeito precisa da concordância e da validação dos outros sujeitos - precisa ser aceito. Creio que a insegurança e o medo da não aceitação, sejam importantes fatores na dificuldade do sujeito em conseguir abandonar ou trocar os "rótulos" e papeis que lhe causam sofrimento.

O desvendamento do drama inconsciente é a maior e talvez única possibilidade, do indivíduo se livrar dos papeis que não quer mais representar em sua vida. Este é um longo e difícil processo de autoconhecimento, onde a psicoterapia pode ser de grande ajuda.


Bernardo Soares em "O livro do desassossego" descreveu com poesia esta dificuldade: "...estes moços da porta da taberna antiga, esta inutilidade trabalhosa de todos os dias iguais, esta repetição pegada das mesmas personagens, como um drama que consiste apenas no cenário, e o cenário estivesse às avessas… Mas vejo também que fugir a isto seria ou dominá-lo ou repudiá-lo, e eu nem o domino, porque o não excedo adentro do real, nem o repudio, porque, sonhe o que sonhe, fico sempre onde estou."
Curiosamente estou ouvindo neste momento Elis Regina cantar "Como os nossos pais", de Belchior: "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais."

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Newtown, mais uma tragédia



Na última sexta pela manhã, quando cheguei à padaria que costumo frequentar para tomar meu cafezinho expresso da manhã, havia um silêncio diferente no ambiente. As pessoas quase não falavam e olhavam atentamente para o aparelho de TV preso no teto. Já tinha visto esta cena antes: um silêncio incomum dos frequentadores, um clima de medo e inconformação. Mais uma vez as pessoas olhavam incrédulas para a televisão, à espera de algo muito ruim. As cenas que mostravam a polícia cercando as instalações da escola Sand Hook, causavam calafrios. O canal de televisão fazia tomadas aéreas da escola e do seu entorno, enquanto esperava por informações novas e conclusivas. O repórter repetia as mesmas frases o tempo todo, como se estivesse fazendo um grande esforço para acreditar que, mais uma vez, alguma pessoa maluca e fora de controle, possivelmente houvesse assassinado pessoas inocentes.  Naquele momento ninguém sabia se alguém havia morrido, se crianças tinham sido atingidas, quem era o autor dos disparos e se ele ainda estava vivo. Só se sabia que havia ocorrido um tiroteio dentro de uma escola cheia de crianças entre 5 e 10 anos e que esse era um mau presságio. Mau presságio porque a memória dos atentados ocorridos em Hungerford / Inglaterra (1987 - 16 mortos), Dunblaine / Escócia (1996 - 16 mortos), Columbine (1999 -13 mortos), Osaka / Japão (2001 - 8 mortos), Virginia Tech (2007 - 33 mortos), Noruega - Ilha de Utoeya (2011 - 85 mortos), Escola Tasso da Silveira no Rio de Janeiro (2011 - 12 mortos), Cinema Aurora no Colorado (2012 - 12 mortos), e muitos outros, ainda assombram por sua difícil digestão e compreensão. Como aceitar que alguém empunhe uma arma e covardemente atire em pessoas desarmadas e que sequer estavam preparadas para enfrentar tal situação. Como entender que alguém mate covardemente crianças pequenas? Como entender que essas coisas puderam acontecer?
Mais tarde os maus presságios se confirmaram: 27 mortos, sendo que 20 eram crianças entre 5 e 7 anos de idade, além da própria mãe do assassino, morta em sua casa. Um fato em comum de todas estas tragédias que me chamou a atenção: as vítimas são em sua grande maioria crianças e jovens em idade escolar. Posso estar enganado, mas não me lembro de ter acompanhado ou escutado de nenhum especialista, tanto da área de segurança como principalmente da área psiquiátrica, alguma menção sobre esse aspecto. O foco das preocupações esteve e está sempre com as questões sobre a necessidade do controle de armas de fogo, além da importante necessidade da constatação da "loucura" do atirador assassino.
Estas preocupações são pertinentes e muito necessárias, mas considero estes caminhos insuficientes e estreitos para trazer alguma luz e esperança sobre este assunto. Realmente nós precisamos de que haja um maior controle sobre o comércio de armas de fogo e avaliação e qualificação de seus consumidores. Mas esta é uma discussão longa e que exige muito amadurecimento. De um lado existem aqueles que são totalmente favoráveis ao desarmamento (onde eu me incluo). De maneira resumida este grupo acredita que uma arma de fogo é um bem de consumo, cuja única maneira de ser consumido, é usando-se a arma. Ou seja, atirando em alguma coisa ou em alguém. Portanto, o seu uso traz mais malefícios do que benefícios.
Do outro lado existem pessoas que defendem o armamento e se justificam dizendo que, se nos locais dos atentados houvesse pessoas armadas, os atiradores teriam sido coibidos de alguma maneira. É um argumento que tem certa lógica, mas fico pensando se eu matricularia minha filha de 4 anos em uma escola cheia de seguranças armados... Penso que enquanto sociedade, não amadurecemos este assunto suficientemente para tirarmos qualquer conclusão objetiva e útil.
Por outro lado procura-se por uma melhoria nos métodos de diagnóstico para identificação de pessoas potencialmente perigosas. Embora considere que de alguma maneira esse esforço possa trazer benefícios, honestamente eu não acredito que isso seja eficiente ou possível. Da forma e modelo como ocorrem hoje, nossos diagnósticos serão tardios na maioria das vezes. Ainda sabemos muito pouco sobre a sanidade das pessoas e corremos o sério e muito provável risco de cometer equívocos e injustiças. Medicar e controlar pessoas potencialmente perigosas, passa pelo crivo de uma decisão clínica, que no modelo atual é tomada por uma única pessoa: o médico responsável pelo tratamento do indivíduo. Qualquer profissional de saúde que já tenha atuado em instituições psiquiátricas, já se defrontou com pacientes inadequadamente hiper-medicados.


Tragédias como a de Newtown ocorridas nos últimos 25 anos e em vários lugares do mundo, são notoriamente um importante e emergente assunto de saúde pública. Acredito que a tentativa de compreensão destes fatos, através da ótica da psicologia social e de grupos, talvez possa acrescentar alguma luz e ajuda. Observar com profundidade o traço comum de que as vítimas eram crianças e jovens em idade escolar, já nos dá uma razoável indicação por qual caminho começar. É obvio que algo muito relevante e importante está acontecendo no processo de educação e formação das crianças. Não podemos esquecer que os atiradores eram em sua maioria, jovens que voltaram para suas escolas para praticar os assassinatos. Não podemos considerar somente o transtorno e a doença do atirador ou de um possível atirador em potencial! Ninguém está totalmente isolado e de alguma maneira, o ambiente do atirador (sua casa, sua escola e sua cidade), também está doente. Um ambiente "adoecido" costuma apresentar sinais que podem ser percebidos com alguma brevidade, proporcionando a utilização de medidas preventivas. Pelo foco social, a antropologia sócio-médica precisa se reciclar e ampliar suas formas de atuação. O desenvolvimento de grupos interdisciplinares para estudar este assunto, são uma excelente alternativa, porque não se restringem em procurar e identificar somente "uma pessoa" potencialmente perigosa. Toda a história de um determinado grupo virá à tona, permitindo uma maior e melhor compreensão das incontáveis causas que podem gerar uma tragédia. Um grupo interdisciplinar combina conhecimentos e técnicas, trabalhando num conceito horizontal. O modelo atual é vertical e normalmente está vinculado ao saber médico, que está no topo desta hierarquia. Considero insuficiente e até injusto, se levar em conta apenas a opinião de um médico, ou de um psicólogo, ou de um psiquiatra, para determinar se alguém pode vir a ter um comportamento potencialmente perigoso. Tudo o que se sabe até hoje, é insuficiente para nos dar esta certeza. Num processo de trabalho compartilhado, abrangente e responsável, muito provavelmente outras causas normalmente geradoras de comportamentos potencialmente perigosos, poderão vir a ser consideradas como prioritárias e urgentes.
O grande grupo humano precisa buscar se enxergar mais enquanto grande grupo, onde todos nós dependemos de todos nós, sem exceção. Desde quando optamos por viver de maneira civilizada, não é possível se viver sozinho e isolado. Ninguém consegue ou pode fazer isso. Nem mesmo o ermitão.  Quando verdadeiramente nos enxergamos como participantes de um grande grupo,  procuramos por respostas práticas e objetivas para aquilo que nos aflige. Essa simplicidade de atuação passa longe do pieguismo e da superficialidade. Por que tanta violência? Por que alguns de nós são ou se tornaram tão violentos? Como podemos evitar que isso aconteça de novo?
Gostaria de ter publicado mais um conto sobre o natal e sobre renovação, mas este triste assunto não saiu da minha cabeça e do meu coração. Precisava compartilhar de alguma maneira. Desejo a todos um feliz natal e um ano novo cheio de saúde, com muitas respostas práticas e muita ação realizadora.


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Grupo familiar e transtorno mental



Sempre que recebo uma criança como paciente, condiciono meus serviços à participação ativa do grupo familiar nas sessões de psicoterapia. A participação dos papéis de pai, mãe e filho ou filha no processo terapêutico, são fundamentais para que qualquer coisa que seja feita tenha um caráter elaborativo e distensionador. Procuro manter o mesmo princípio nos casos em que recebo pacientes maiores de idade, mas com algum tipo de transtorno mental que cause sofrimento, tanto no indivíduo como também em seu grupo familiar. Reconheço que nestes casos é muito mais difícil conseguir a participação da família. Há um equivocado senso comum de que somente o "portador" de algum distúrbio ou sofrimento é que deve se submeter à psicoterapia. Parto do princípio de que, quando alguém se encontra doente, todo seu grupo familiar também está comprometido de alguma maneira. Infelizmente, o ambiente social em que participamos é muito pouco cooperativo para mudar essa situação. Cada vez mais temos menos tempo para escutar, compartilhar e compreender. Tento aqui justificar a importância da participação direta ou indireta da família, em qualquer processo terapêutico.Os termos: transtorno, perturbação, disfunção e distúrbio, são utilizados pela psicologia e psiquiatria para descrever anormalidades, sofrimento ou comprometimento de ordem psicológica e mental. Os transtornos mentais são a expressão de nossa incapacidade para lidar e elaborar o sofrimento psíquico. Invariavelmente a origem destes transtornos encontra-se na depressão infantil básica: frustrações, aspirações, doenças, birras, medos, sentimento de culpa patológico, inibições, etc. Aquele que está sofrendo com algum transtorno mental, normalmente possui uma visão irreal e diferente da de seu grupo familiar, intensificando a falta de comunicação e desajuste. É neste momento que o sujeito experimenta a vivência de falta de controle sobre si, vivenciando um caos interno que produz enorme sofrimento e desespero.
A psicologia social define a família como um grupo primário que está presente em todas as formas de organização social. Malinowski (Bronislaw Kasper Malinowski – pensador polonês fundador da antropologia social – 1884 / 1942)  insistia na impossibilidade de se imaginar qualquer forma de organização social em que a estrutura familiar não estivesse presente. Trata-se do "primeiro grupo" de cada indivíduo, acrescido dos laços de parentesco, embora isso às vezes não ocorra. A família é o primeiro modelo e o sustentáculo da organização social, principal unidade de convivência e interação entre as pessoas. Através da dinâmica de três papéis básicos (pai, mãe e filho), a família tem a responsabilidade pela socialização do indivíduo, construindo uma base que lhe permita uma adaptação ativa à realidade da vida. Entende-se por adaptação ativa a capacidade de ser modificado pelo ambiente e, ao mesmo tempo, também ser um agente modificador do ambiente.Num ambiente facilitador e generoso, o grupo familiar pode possuir uma boa rede de comunicação que se desenvolve natural e eficazmente. Os indivíduos são modificados e, ao mesmo tempo, são agentes modificadores em seu meio mais íntimo. Cada membro tem um papel específico atribuído, mas com um alto grau de plasticidade que lhe permitirá assumir outros papéis funcionais em situações emergenciais ou de exceção. Isso com a confiança, o aval e o reconhecimento de todos os outros membros. O exercício contínuo dessa vivência motivadora é o solo fértil do desenvolvimento da autoconfiança e do sentimento de segurança.  A ansiedade global do grupo familiar é distribuída de maneira adequada e sadia, facilitando para que seus membros lidem com suas diferenças culturais e biológicas. Essa dinâmica produz a matéria-prima necessária para a construção e desenvolvimento da identidade própria. Nesse ambiente facilitador, a espontaneidade e a criatividade podem surgir como poderosas e fundamentais ferramentas, sempre que as situações imprevistas e as dificuldades da vida surgirem. Aqui se trata de um grupo familiar aberto à comunicação e à aprendizagem social.

O dia-a-dia de um mundo ansioso, violento e muito pouco generoso contribui para que as vias de comunicação do grupo familiar sejam prejudicadas: falta de tempo, de convívio, de conversa, de amor, de paciência, de comer junto etc. Quando a comunicação é interrompida ou prejudicada, a aprendizagem e a interação são estruturalmente perturbadas. A ansiedade global da família acaba sendo mal distribuída e, invariavelmente, assumida por algum membro. Com a intenção inconsciente de manter o grupo, este membro assume um novo papel, tornando-se o porta-voz ou o depositário da ansiedade global do grupo familiar. Em outras palavras, assume inconscientemente o papel de "bode expiatório", transformando a falta de comunicação e a ansiedade global do grupo em transtornos, em doença. A estrutura grupal sofre alterações profundas, ocorrem perturbações no sistema de criação e distribuição de papéis, instala-se uma certa insegurança social e aparecem os mecanismos de segregação do "doente". Qualquer pessoa pertencente a um grupo familiar, que esteja sofrendo de algum transtorno mental (ansiedade, depressão, dependência química, psicoses etc.), provavelmente será excluída através de um sutil mecanismo de segregação. Acredita-se que isso ocorra em função da fantasia de que, com o afastamento desse membro, o grupo maior também terá afastado de si, o "bode expiatório" e seus problemas. Aqui o indivíduo é desprovido da confiança e do aval do grupo maior, medida que desconstrói a identidade do sujeito, abalando sua autoconfiança. Para se proteger da ansiedade, o grupo familiar passa a ocultar fatos do sujeito "doente", sem perceber que este é um mecanismo sutil de segregação, que reforça o seu distúrbio. Os sentimentos de incerteza, vazio e insegurança estão na base de todos os transtornos individuais e grupais. Por amor ou por ódio, um sujeito pode adoecer gravemente pelo, sentimento de insegurança excessivo causado pelo abandono.