quarta-feira, 19 de junho de 2013

"Compreendemos quando fazemos parte do que nos é dito" - Martin Heidegger

A indignação deixou de ser virtual e se concretizou nas ruas! As redes sociais saíram do mundo digital e tomaram praças e avenidas, ameaçando assembleias, prefeituras, sedes dos governos estaduais e congresso. De uma hora para a outra R$0,20 se transformaram na fagulha que reacendeu estopins sociais muito antigos e sempre postergados e ignorados pelos governantes: transporte público caótico, caro, insuficiente, poluidor e de péssima qualidade; um sistema de saúde pública deficitário e incompetente para atender com dignidade, humanidade e qualidade a maior parte da população - filas em hospitais falta de treinamento adequado, falta de profissionais qualificados, falta de atendimento, falta de infraestrutura, etc; educação pública que desmerece e não valoriza professores, funcionários e alunos - falta de vagas, prédios e instalações  em péssimas condições, falta de segurança, falta de treinamento e capacitação para professores e funcionários, salários muito abaixo daquilo que se considera razoável para uma profissão tão importante (qualquer assessor parlamentar ganha muito mais do que um professor...); segurança pública deficitária e incompetente, que não investe adequadamente na formação, capacitação e carreira do policial que teoricamente se expõe para proteger a população - carros de polícia com pneus carecas, armas obsoletas, falta de treinamento e capacitação para o exercício da profissão, salários muito baixos, etc;  um sistema judiciário lento e desigual, que prende e manda soltar de acordo com a capacidade do réu para pagar os honorários dos seus advogados de defesa - bons advogados custam muito e sabem como se utilizar de inúmeros recursos e artimanhas jurídicas para atrasar indefinidamente, ou até mesmo mudar sentenças (os réus do mensalão ainda estão todos soltos e as cadeias estão repletas de gente pobre, que em muitos casos cometeu o crime de roubar para comer... e a qualquer momento você pode ser vítima de assalto e arrastão dentro de um restaurante, ou pior ainda, dentro de sua própria casa).Os motivos e questões sociais são inúmeros e nem me sinto capacitado a falar deles com a propriedade e profundidade que gostaria. Acredito que, além de mim, a maior parte da população desconhece planilhas, fórmulas e métodos técnicos para a realização dos orçamentos pelas instituições responsáveis pelos governos. O que a população percebe não necessita de um grande conhecimento tributário ou de economia: a arrecadação e a destinação dos recursos é historicamente realizada de maneira desigual, incompetente, autoritária, muitas vezes corrupta e, que sempre exclui a população com seus desejos e necessidades (quem não se lembra da CPMF, do IPVA, etc.?).

A falta de recursos já não é mais desculpa para a falta de ações mais objetivas pelos governantes. A tecnologia permitiu nos últimos anos que os governos municipal, estadual e federal aumentassem significativamente a arrecadação de impostos, mas mesmo assim, quando saímos à rua ou vamos a um hospital, continuamos a ver cada vez mais crianças pedindo esmolas nos faróis, gente morando embaixo de pontes, filas intermináveis de atendimento em hospitais, ônibus e trens lotados, etc... Diante de tanto descaso, brota um forte sentimento de impotência, exclusão e desrespeito!Os governantes estão assustados com a repercussão das manifestações, por não conseguirem entender ou atender de uma só vez a tantas demandas. Chamam a isto de "pauta difusa". São muitas questões trazidas à tona por uma população inteira, de maneira direta, não editada e formatada por lideranças ou instituições. É um movimento totalmente "horizontal", que foge ao tradicional modelo "vertical", normalmente representado através da liderança dos partidos políticos. Pessoas que tentam utilizar bandeiras de partidos políticos são vaiadas e instigadas a não utilizarem nenhum símbolo. As pessoas que estão protestando nas ruas não possuem líderes, por não se sentirem representadas por nenhuma liderança instituída. Ao contrário, sentem-se usadas e desrespeitadas pelas instituições. Suas insatisfações e demandas são extravasadas diretamente, sem intermediários. Quando digo isto, reitero aqui que sou totalmente contra qualquer forma de violência. Não aprovo e não sou solidário às cenas de violência descabida da polícia, registradas nos primeiros dias dos protestos, e nem do vandalismo que infelizmente acompanhou muitos momentos importantes do movimento. Caminhando juntos nas ruas, existem grupos pró-aborto, ao lado de grupos anti-aborto. Grupos de policiais, de professores, de bombeiros, de estudantes, de trabalhadores, aposentados, pais com crianças de colo, idosos, etc. A velha sociologia política é insuficiente para explicar e formatar estes acontecimentos. Trata-se de um novo fenômeno social, que ainda precisa ser compreendido e estudado, mas que certamente influenciará e trará consequências para a forma do estado se relacionar com a população. Muitos políticos ainda não perceberam isso - ontem assisti nos telejornais as declarações de prefeitos que continuam a fazer um discurso "vertical" e de exclusão: "Vou revogar tal lei..." "Vou decretar tal coisa..."  Enquanto isso a população continuava nas ruas, não dando bola e não escutando. A população só irá compreender quando fizer parte da solução.O sentimento de exclusão foi vencido pela capacidade de organização e demonstração de ações concretas das redes sociais. Não é mais possível os governantes tomarem decisões sem ao menos se preocuparem com a repercussão de suas atitudes. Já o sentimento de impotência, este foi agora transferido para os governantes. Somente a ajuda da população poderá devolver a estabilidade e a capacidade do governo agir com verdadeiro espírito democrático e credibilidade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A sina da repetição... "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"


Processos e situações da vida que se repetem de tempos em tempos, que muitas vezes são percebidos como uma sina ou um destino que persegue a pessoa, deixando-a sem saída. O tempo passa e o novo que está para surgir, quando surge, traz consigo uma aparência de novidade, mas uma essência que lembra em muito o velho que já se foi.  Relacionamentos novos que começam com uma aparência diferente e que terminam do mesmo jeito que os anteriores. Trabalhos que parecem diferentes e inovadores, mas que sempre produzem os mesmos resultados A educação dos filhos em que pensamos estar agindo de maneira melhor e diferente, mas quando nos damos conta, estamos repetindo os mesmos erros e acertos de nossos pais. Tragédias causadas pelo descaso das pessoas e das autoridades que deveriam zelar para que não acontecessem nunca mais (mais recentemente Newtown e o incêndio da boate Kiss). Esses são apenas alguns exemplos de situações comuns, que se repetem com frequência na vida privada e coletiva. As pessoas tendem a culpar o próprio "destino", colocando-se como vítimas de algo superior e maquiavélico. Tenho uma convicção diferente: considero que somos os únicos responsáveis por tudo o que ocorre em nossa vida. As repetições e as situações em que participamos, são os frutos que colhemos de nossas intenções inconscientes. Num voo cego e mecânico, provocamos repetições quase que fidedignas de situações já vivenciadas antes, boas ou ruins. O curioso é que procuramos não repetir as situações que causaram grande desconforto, mas quando nos damos conta, já estamos muito envolvidos em  circunstâncias muito semelhantes, que imaginávamos não passar nunca mais. Em outras palavras, a repetição ocorre na maioria das vezes de maneira inconsciente e não planejada, fora do controle da consciência. E isto não tira a nossa responsabilidade.

Freud e a psicanálise partem do princípio que o neurótico (todos nós) sempre repete - "...representando o que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento e em especial a reprodução de uma percepção anterior." (Vocabulário de Psicanálise - Laplanche e Pontalis). O psicodrama traz uma visão diferente, mas que complementa bem a visão da psicanálise: considera que tendemos a sempre representar os papeis que estão atrelados ao "drama inconsciente" que cada indivíduo carrega consigo. Pois bem, este drama inconsciente é passível de muitas outras informações que não cabem neste texto. Mas a forma como ele pode se desenrolar, que é através da representação de papeis, sim.  E o que significa o termo "papel"? A definição do termo "papel" segundo o dicionário Aurélio: "Atribuição de natureza moral, jurídica, técnica, etc.; desempenho, função." Em sua leitura e análise sobre "A teoria dos papeis e socionomia", Naffah Neto (Psicodrama - Descolonizando o Imaginário) menciona que o equivalente a papel em francês é o termo rôle, que é derivado etimologicamente do latim medieval rotulus
que significa, de um lado, uma folha enrolada contendo um escrito e, de outro lado, aquilo que deve recitar um ator numa peça de teatro. Se imaginarmos que cada indivíduo constrói e possui seu próprio"rótulo",  podemos dizer que de certa maneira, estamos atrelados a uma forma e a uma maneira "previsível" de se comportar e viver. Este "rótulo" tem grande importância na construção da identidade, que é uma construção dinâmica da unidade de consciência de si, que corresponde a um sentimento subjetivo de permanência e de continuidade. Para "permanecer e continuar", o sujeito precisa da concordância e da validação dos outros sujeitos - precisa ser aceito. Creio que a insegurança e o medo da não aceitação, sejam importantes fatores na dificuldade do sujeito em conseguir abandonar ou trocar os "rótulos" e papeis que lhe causam sofrimento.

O desvendamento do drama inconsciente é a maior e talvez única possibilidade, do indivíduo se livrar dos papeis que não quer mais representar em sua vida. Este é um longo e difícil processo de autoconhecimento, onde a psicoterapia pode ser de grande ajuda.


Bernardo Soares em "O livro do desassossego" descreveu com poesia esta dificuldade: "...estes moços da porta da taberna antiga, esta inutilidade trabalhosa de todos os dias iguais, esta repetição pegada das mesmas personagens, como um drama que consiste apenas no cenário, e o cenário estivesse às avessas… Mas vejo também que fugir a isto seria ou dominá-lo ou repudiá-lo, e eu nem o domino, porque o não excedo adentro do real, nem o repudio, porque, sonhe o que sonhe, fico sempre onde estou."
Curiosamente estou ouvindo neste momento Elis Regina cantar "Como os nossos pais", de Belchior: "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais."

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Newtown, mais uma tragédia



Na última sexta pela manhã, quando cheguei à padaria que costumo frequentar para tomar meu cafezinho expresso da manhã, havia um silêncio diferente no ambiente. As pessoas quase não falavam e olhavam atentamente para o aparelho de TV preso no teto. Já tinha visto esta cena antes: um silêncio incomum dos frequentadores, um clima de medo e inconformação. Mais uma vez as pessoas olhavam incrédulas para a televisão, à espera de algo muito ruim. As cenas que mostravam a polícia cercando as instalações da escola Sand Hook, causavam calafrios. O canal de televisão fazia tomadas aéreas da escola e do seu entorno, enquanto esperava por informações novas e conclusivas. O repórter repetia as mesmas frases o tempo todo, como se estivesse fazendo um grande esforço para acreditar que, mais uma vez, alguma pessoa maluca e fora de controle, possivelmente houvesse assassinado pessoas inocentes.  Naquele momento ninguém sabia se alguém havia morrido, se crianças tinham sido atingidas, quem era o autor dos disparos e se ele ainda estava vivo. Só se sabia que havia ocorrido um tiroteio dentro de uma escola cheia de crianças entre 5 e 10 anos e que esse era um mau presságio. Mau presságio porque a memória dos atentados ocorridos em Hungerford / Inglaterra (1987 - 16 mortos), Dunblaine / Escócia (1996 - 16 mortos), Columbine (1999 -13 mortos), Osaka / Japão (2001 - 8 mortos), Virginia Tech (2007 - 33 mortos), Noruega - Ilha de Utoeya (2011 - 85 mortos), Escola Tasso da Silveira no Rio de Janeiro (2011 - 12 mortos), Cinema Aurora no Colorado (2012 - 12 mortos), e muitos outros, ainda assombram por sua difícil digestão e compreensão. Como aceitar que alguém empunhe uma arma e covardemente atire em pessoas desarmadas e que sequer estavam preparadas para enfrentar tal situação. Como entender que alguém mate covardemente crianças pequenas? Como entender que essas coisas puderam acontecer?
Mais tarde os maus presságios se confirmaram: 27 mortos, sendo que 20 eram crianças entre 5 e 7 anos de idade, além da própria mãe do assassino, morta em sua casa. Um fato em comum de todas estas tragédias que me chamou a atenção: as vítimas são em sua grande maioria crianças e jovens em idade escolar. Posso estar enganado, mas não me lembro de ter acompanhado ou escutado de nenhum especialista, tanto da área de segurança como principalmente da área psiquiátrica, alguma menção sobre esse aspecto. O foco das preocupações esteve e está sempre com as questões sobre a necessidade do controle de armas de fogo, além da importante necessidade da constatação da "loucura" do atirador assassino.
Estas preocupações são pertinentes e muito necessárias, mas considero estes caminhos insuficientes e estreitos para trazer alguma luz e esperança sobre este assunto. Realmente nós precisamos de que haja um maior controle sobre o comércio de armas de fogo e avaliação e qualificação de seus consumidores. Mas esta é uma discussão longa e que exige muito amadurecimento. De um lado existem aqueles que são totalmente favoráveis ao desarmamento (onde eu me incluo). De maneira resumida este grupo acredita que uma arma de fogo é um bem de consumo, cuja única maneira de ser consumido, é usando-se a arma. Ou seja, atirando em alguma coisa ou em alguém. Portanto, o seu uso traz mais malefícios do que benefícios.
Do outro lado existem pessoas que defendem o armamento e se justificam dizendo que, se nos locais dos atentados houvesse pessoas armadas, os atiradores teriam sido coibidos de alguma maneira. É um argumento que tem certa lógica, mas fico pensando se eu matricularia minha filha de 4 anos em uma escola cheia de seguranças armados... Penso que enquanto sociedade, não amadurecemos este assunto suficientemente para tirarmos qualquer conclusão objetiva e útil.
Por outro lado procura-se por uma melhoria nos métodos de diagnóstico para identificação de pessoas potencialmente perigosas. Embora considere que de alguma maneira esse esforço possa trazer benefícios, honestamente eu não acredito que isso seja eficiente ou possível. Da forma e modelo como ocorrem hoje, nossos diagnósticos serão tardios na maioria das vezes. Ainda sabemos muito pouco sobre a sanidade das pessoas e corremos o sério e muito provável risco de cometer equívocos e injustiças. Medicar e controlar pessoas potencialmente perigosas, passa pelo crivo de uma decisão clínica, que no modelo atual é tomada por uma única pessoa: o médico responsável pelo tratamento do indivíduo. Qualquer profissional de saúde que já tenha atuado em instituições psiquiátricas, já se defrontou com pacientes inadequadamente hiper-medicados.


Tragédias como a de Newtown ocorridas nos últimos 25 anos e em vários lugares do mundo, são notoriamente um importante e emergente assunto de saúde pública. Acredito que a tentativa de compreensão destes fatos, através da ótica da psicologia social e de grupos, talvez possa acrescentar alguma luz e ajuda. Observar com profundidade o traço comum de que as vítimas eram crianças e jovens em idade escolar, já nos dá uma razoável indicação por qual caminho começar. É obvio que algo muito relevante e importante está acontecendo no processo de educação e formação das crianças. Não podemos esquecer que os atiradores eram em sua maioria, jovens que voltaram para suas escolas para praticar os assassinatos. Não podemos considerar somente o transtorno e a doença do atirador ou de um possível atirador em potencial! Ninguém está totalmente isolado e de alguma maneira, o ambiente do atirador (sua casa, sua escola e sua cidade), também está doente. Um ambiente "adoecido" costuma apresentar sinais que podem ser percebidos com alguma brevidade, proporcionando a utilização de medidas preventivas. Pelo foco social, a antropologia sócio-médica precisa se reciclar e ampliar suas formas de atuação. O desenvolvimento de grupos interdisciplinares para estudar este assunto, são uma excelente alternativa, porque não se restringem em procurar e identificar somente "uma pessoa" potencialmente perigosa. Toda a história de um determinado grupo virá à tona, permitindo uma maior e melhor compreensão das incontáveis causas que podem gerar uma tragédia. Um grupo interdisciplinar combina conhecimentos e técnicas, trabalhando num conceito horizontal. O modelo atual é vertical e normalmente está vinculado ao saber médico, que está no topo desta hierarquia. Considero insuficiente e até injusto, se levar em conta apenas a opinião de um médico, ou de um psicólogo, ou de um psiquiatra, para determinar se alguém pode vir a ter um comportamento potencialmente perigoso. Tudo o que se sabe até hoje, é insuficiente para nos dar esta certeza. Num processo de trabalho compartilhado, abrangente e responsável, muito provavelmente outras causas normalmente geradoras de comportamentos potencialmente perigosos, poderão vir a ser consideradas como prioritárias e urgentes.
O grande grupo humano precisa buscar se enxergar mais enquanto grande grupo, onde todos nós dependemos de todos nós, sem exceção. Desde quando optamos por viver de maneira civilizada, não é possível se viver sozinho e isolado. Ninguém consegue ou pode fazer isso. Nem mesmo o ermitão.  Quando verdadeiramente nos enxergamos como participantes de um grande grupo,  procuramos por respostas práticas e objetivas para aquilo que nos aflige. Essa simplicidade de atuação passa longe do pieguismo e da superficialidade. Por que tanta violência? Por que alguns de nós são ou se tornaram tão violentos? Como podemos evitar que isso aconteça de novo?
Gostaria de ter publicado mais um conto sobre o natal e sobre renovação, mas este triste assunto não saiu da minha cabeça e do meu coração. Precisava compartilhar de alguma maneira. Desejo a todos um feliz natal e um ano novo cheio de saúde, com muitas respostas práticas e muita ação realizadora.


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Grupo familiar e transtorno mental



Sempre que recebo uma criança como paciente, condiciono meus serviços à participação ativa do grupo familiar nas sessões de psicoterapia. A participação dos papéis de pai, mãe e filho ou filha no processo terapêutico, são fundamentais para que qualquer coisa que seja feita tenha um caráter elaborativo e distensionador. Procuro manter o mesmo princípio nos casos em que recebo pacientes maiores de idade, mas com algum tipo de transtorno mental que cause sofrimento, tanto no indivíduo como também em seu grupo familiar. Reconheço que nestes casos é muito mais difícil conseguir a participação da família. Há um equivocado senso comum de que somente o "portador" de algum distúrbio ou sofrimento é que deve se submeter à psicoterapia. Parto do princípio de que, quando alguém se encontra doente, todo seu grupo familiar também está comprometido de alguma maneira. Infelizmente, o ambiente social em que participamos é muito pouco cooperativo para mudar essa situação. Cada vez mais temos menos tempo para escutar, compartilhar e compreender. Tento aqui justificar a importância da participação direta ou indireta da família, em qualquer processo terapêutico.Os termos: transtorno, perturbação, disfunção e distúrbio, são utilizados pela psicologia e psiquiatria para descrever anormalidades, sofrimento ou comprometimento de ordem psicológica e mental. Os transtornos mentais são a expressão de nossa incapacidade para lidar e elaborar o sofrimento psíquico. Invariavelmente a origem destes transtornos encontra-se na depressão infantil básica: frustrações, aspirações, doenças, birras, medos, sentimento de culpa patológico, inibições, etc. Aquele que está sofrendo com algum transtorno mental, normalmente possui uma visão irreal e diferente da de seu grupo familiar, intensificando a falta de comunicação e desajuste. É neste momento que o sujeito experimenta a vivência de falta de controle sobre si, vivenciando um caos interno que produz enorme sofrimento e desespero.
A psicologia social define a família como um grupo primário que está presente em todas as formas de organização social. Malinowski (Bronislaw Kasper Malinowski – pensador polonês fundador da antropologia social – 1884 / 1942)  insistia na impossibilidade de se imaginar qualquer forma de organização social em que a estrutura familiar não estivesse presente. Trata-se do "primeiro grupo" de cada indivíduo, acrescido dos laços de parentesco, embora isso às vezes não ocorra. A família é o primeiro modelo e o sustentáculo da organização social, principal unidade de convivência e interação entre as pessoas. Através da dinâmica de três papéis básicos (pai, mãe e filho), a família tem a responsabilidade pela socialização do indivíduo, construindo uma base que lhe permita uma adaptação ativa à realidade da vida. Entende-se por adaptação ativa a capacidade de ser modificado pelo ambiente e, ao mesmo tempo, também ser um agente modificador do ambiente.Num ambiente facilitador e generoso, o grupo familiar pode possuir uma boa rede de comunicação que se desenvolve natural e eficazmente. Os indivíduos são modificados e, ao mesmo tempo, são agentes modificadores em seu meio mais íntimo. Cada membro tem um papel específico atribuído, mas com um alto grau de plasticidade que lhe permitirá assumir outros papéis funcionais em situações emergenciais ou de exceção. Isso com a confiança, o aval e o reconhecimento de todos os outros membros. O exercício contínuo dessa vivência motivadora é o solo fértil do desenvolvimento da autoconfiança e do sentimento de segurança.  A ansiedade global do grupo familiar é distribuída de maneira adequada e sadia, facilitando para que seus membros lidem com suas diferenças culturais e biológicas. Essa dinâmica produz a matéria-prima necessária para a construção e desenvolvimento da identidade própria. Nesse ambiente facilitador, a espontaneidade e a criatividade podem surgir como poderosas e fundamentais ferramentas, sempre que as situações imprevistas e as dificuldades da vida surgirem. Aqui se trata de um grupo familiar aberto à comunicação e à aprendizagem social.

O dia-a-dia de um mundo ansioso, violento e muito pouco generoso contribui para que as vias de comunicação do grupo familiar sejam prejudicadas: falta de tempo, de convívio, de conversa, de amor, de paciência, de comer junto etc. Quando a comunicação é interrompida ou prejudicada, a aprendizagem e a interação são estruturalmente perturbadas. A ansiedade global da família acaba sendo mal distribuída e, invariavelmente, assumida por algum membro. Com a intenção inconsciente de manter o grupo, este membro assume um novo papel, tornando-se o porta-voz ou o depositário da ansiedade global do grupo familiar. Em outras palavras, assume inconscientemente o papel de "bode expiatório", transformando a falta de comunicação e a ansiedade global do grupo em transtornos, em doença. A estrutura grupal sofre alterações profundas, ocorrem perturbações no sistema de criação e distribuição de papéis, instala-se uma certa insegurança social e aparecem os mecanismos de segregação do "doente". Qualquer pessoa pertencente a um grupo familiar, que esteja sofrendo de algum transtorno mental (ansiedade, depressão, dependência química, psicoses etc.), provavelmente será excluída através de um sutil mecanismo de segregação. Acredita-se que isso ocorra em função da fantasia de que, com o afastamento desse membro, o grupo maior também terá afastado de si, o "bode expiatório" e seus problemas. Aqui o indivíduo é desprovido da confiança e do aval do grupo maior, medida que desconstrói a identidade do sujeito, abalando sua autoconfiança. Para se proteger da ansiedade, o grupo familiar passa a ocultar fatos do sujeito "doente", sem perceber que este é um mecanismo sutil de segregação, que reforça o seu distúrbio. Os sentimentos de incerteza, vazio e insegurança estão na base de todos os transtornos individuais e grupais. Por amor ou por ódio, um sujeito pode adoecer gravemente pelo, sentimento de insegurança excessivo causado pelo abandono.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Morte e Nascimento - A capacidade de estar junto e ao lado


Tempos atrás me foi recomendado um paciente de 8 anos de idade, que após a morte de seu avô passou a enfrentar dificuldades na escola e a ter medo de ficar sozinho. Sua mãe era solteira e todos moravam juntos com os avós. A falta do pai biológico contribuiu para que fosse muito apegado ao avô. Com a morte dele a família considerou que seria melhor para uma criança de 8 anos, ser poupada de saber  o que havia acontecido. Tal decisão, embora muito questionável, foi o melhor que puderam pensar e fazer naquele momento confuso e muito difícil. E assim meu paciente não participou dos últimos momentos de seu avô, bem como de seu velório e funeral. Somente depois de alguns dias sua mãe encontrou uma forma de lhe dizer o que realmente havia acontecido. Após alguns meses sua família percebeu os sintomas que o trouxeram para a terapia: isolamento, medo de ficar sozinho até mesmo para tomar banho, e queda de rendimento na escola. 
Em nossos encontros percebi que meu paciente estava confuso sobre o significado de morrer: "Meu avô não vai mais voltar? Todo mundo morre?" Tinha muita curiosidade em saber o que era morrer e como eram os funerais, sentindo ao mesmo tempo muito medo. 
Mesmo que tenha sido com a melhor das intenções, sua família acabou lhe tirando a possibilidade de  acompanhar os últimos momentos do avô e, participar dos rituais de despedida característico dos funerais.


Em uma das sessões concordamos em dramatizar uma cena de velório.  O “morto” da cena foi idealizado pelo paciente com a ajuda de almofadas e outros objetos do consultório. Segundo ele o morto era um amigo imaginário que estava muito velho e por isso havia morrido. Construímos a cena e ficamos num silêncio de velório (angustiante...), por quase 10 minutos. Num certo momento me perguntou o que o morto estava pensando e para onde ele iria. Respondi que não sabia e perguntei se ele gostaria de ocupar o lugar do morto (trocar de papel), para tentar imaginar "o que os mortos pensam e para onde vão". Ele concordou e retiramos as almofadas para que assumisse o novo papel. O paciente ficou ali imóvel e com os olhos fechados, exatamente como os mortos ficam... Após outro angustiante silêncio de velório, repeti a pergunta para sua mãe em voz alta: "Você sabe o que o morto está pensando e para onde ele vai?" Ela respondeu balançando a cabeça negativamente e neste momento, ele abriu os olhos e disse que tinha muita vontade de dizer o que estava pensando e para onde gostaria de ir, mas que os mortos não podiam falar...  Então não havia como as pessoas saberem o que pensam os mortos e para onde gostam de ir...
Sugeri que fizéssemos uma nova cena, mas desta vez uma cena do nascimento de uma criança. A nova cena também foi com uma criança idealizada pelo paciente, com a ajuda de almofadas e outros objetos. Ele havia idealizado o nascimento de um irmão. Construímos um berço com cadeiras e livros e ficamos olhando para a “criança” até que resolvi perguntar para o "bebê", sobre o que estava pensando e de onde tinha vindo. Mais uma vez ficamos sem resposta nenhuma. Voluntariamente meu paciente pediu para ocupar o papel do bebê. Quando repeti a pergunta ele se mexeu muito até se levantar e dizer: “crianças não podem falar e também não podem entender perguntas”...

Lembrei-me deste atendimento que fiz anos atrás e decidi pedir autorização para a mãe de meu ex-paciente, para publicar essa pequena e significativa parte dos trabalhos. Minha intenção foi ilustrar com estes dados o maravilhoso trabalho de livre docência de Maria Julia Kovacs, que resultou no livro: "Educação para a Morte - Temas e Reflexões" - Casa do Psicólogo.  A autora defende a tese de que é possível, embora profundamente desafiadora, uma "Educação para a Morte", voltada inicialmente para profissionais de saúde e educação, e em consequência, para seus principais interlocutores: pacientes e alunos. 

Reli este livro por ter sido muito tocado por ele. Pude confirmar mais uma vez que suas ideias e considerações são  muito próximas daquilo que acredito e procuro exercer como profissional de saúde. Tenho enfrentado situações emblemáticas no consultório, onde a morte tem surgido como pano de fundo, ou como uma ameaça iminente. 
Sempre escuto com reservas quando alguém me diz: "não tenho medo da morte". É possível que eu esteja muito enganado em duvidar de tal afirmação. Talvez minha dúvida não passe de um reflexo do meu próprio medo da morte projetado pela minha desconfiança. Mas o que sei realmente é que a morte é um evento que não pode ser descrito e explicado facilmente. Essa dificuldade em se descrever e tentar explicar a morte torna-a mais terrível, misteriosa e assustadora. Quase sempre (ou talvez, sempre...) que nos deparamos com a morte, ficamos sem palavras, sem compreensão e com um profundo sentimento de vazio. O terrível e frio vazio do luto que procuramos preencher o mais rápido possível, buscando dar os significados compatíveis com nossas crenças e fantasias: “descansou, foi para um lugar melhor, está no paraíso, foi melhor assim, não havia mais nada para se fazer, viveu muito, foi feliz, tudo que era possível foi feito, etc”. Nos momentos de muita dor e de luto, procuramos dizer e ouvir coisas numa tentativa desesperada de encontrar a "melhor explicação" para algo que normalmente é inexplicável.  Enxergo o processo de luto como uma busca desesperada por algum sentido, para uma situação que parece não ter sentido nenhum.  

Algumas das explicações que as pessoas buscam dar são recheadas de argumentos lógicos e racionais. Ao contrário dos argumentos religiosos ou místicos, a racionalização parece ter um poder especial: soa como verdade e temos uma tendência maior em aceitar este tipo de argumento. Lógicos ou religiosos são tentativas de se proteger e sobreviver ao sentimento de dor e de impotência. Aqueles que lidam com a morte em seu dia-a-dia (médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, etc), estão habituados a racionalizar sobre a morte, como forma de proteção. Sem perceberem, muitas vezes acabam endurecendo o coração através de uma lógica própria, quase sempre cruel e incompreensível para seus pacientes. 
Para se compreender a dor e o sofrimento do outro, é preciso já ter sofrido e saber se colocar minimamente no lugar do outro. A capacidade de um cuidador para amar, ser generoso e humano, só surgirá se ele for capaz de sentir a dor do outro em si mesmo. Não uma dor desnorteante, mas uma dor que o incentive cada vez mais a salvar uma vida, a pesquisar uma cura, a descobrir novas e melhores maneiras de proporcionar conforto, enfim, a sempre lutar com seu paciente por uma melhor condição. Até mesmo nas situações em que todos os indícios mostrem que não haja muito que se fazer. Em outras palavras, estar junto de verdade para o que der e vier, mesmo que seja simplesmente ficar junto e ao lado. 


Para mim é muito claro que precisamos de ajuda e de muito amor para morrer, da mesma forma que precisamos de ajuda e muito amor para nascer. Nascer e morrer: "De onde viemos e para onde vamos?" Se não sabemos explicar a morte, também sabemos muito pouco para explicar a vida. Sabemos (ou imaginamos saber...) que um bebê não possui meios para lidar com os novos e terríveis estímulos inerentes ao nascimento. Ele deixa um mundo aparentemente tranquilo e aconchegante, e vem para um mundo barulhento e confuso. É uma mudança brusca que normalmente produz a ansiedade que irá acompanhar e moldar o futuro adulto. Acredita-se que seu choro inicial esteja relacionado com o medo e sensação de desamparo total, causados por estímulos até então desconhecidos e assustadores. Precisa da ajuda da mãe ou substituto para dar-lhe a confiança e ajuda necessária. Ela irá estar junto com ele, o acolherá e irá segurá-lo no colo, mostrando que aos poucos, conseguirá ultrapassar os limites que precisa enfrentar. O que sabemos é que quanto mais a mãe ou seu substituto estiverem verdadeiramente junto e ao lado de seu bebê, mais facilmente ele enfrentará a transição do nascimento e melhor será seu desenvolvimento cognitivo e emocional. 

Será a morte algo parecido? O sentimento de medo e desamparo do bebê é semelhante ao sentimento de medo e solidão do moribundo? Não sabemos e acredito que não temos como saber. Mas podemos inferir que em ambos os casos, a presença de uma "mãe" se faz necessária. Neste caso, uma "mãe" representada pela família, pelos amigos próximos e pelos cuidadores responsáveis. Estar ao lado de alguém, tanto nos momentos de prazer como nos momentos de dor, é uma prova de crescimento emocional e espiritual. 

Como defende Maria Julia Kovacs, também acredito que seja possível desenvolvermos uma educação para a morte. Uma educação baseada na tolerância, paciência e desenvolvimento da capacidade de enfrentarmos a dor. As ferramentas básicas são a generosidade e o verdadeiro amor.  Infelizmente não fazemos isso normalmente pelo enorme medo que temos em nos depararmos com a própria morte.