quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Morte e Nascimento - A capacidade de estar junto e ao lado


Tempos atrás me foi recomendado um paciente de 8 anos de idade, que após a morte de seu avô passou a enfrentar dificuldades na escola e a ter medo de ficar sozinho. Sua mãe era solteira e todos moravam juntos com os avós. A falta do pai biológico contribuiu para que fosse muito apegado ao avô. Com a morte dele a família considerou que seria melhor para uma criança de 8 anos, ser poupada de saber  o que havia acontecido. Tal decisão, embora muito questionável, foi o melhor que puderam pensar e fazer naquele momento confuso e muito difícil. E assim meu paciente não participou dos últimos momentos de seu avô, bem como de seu velório e funeral. Somente depois de alguns dias sua mãe encontrou uma forma de lhe dizer o que realmente havia acontecido. Após alguns meses sua família percebeu os sintomas que o trouxeram para a terapia: isolamento, medo de ficar sozinho até mesmo para tomar banho, e queda de rendimento na escola. 
Em nossos encontros percebi que meu paciente estava confuso sobre o significado de morrer: "Meu avô não vai mais voltar? Todo mundo morre?" Tinha muita curiosidade em saber o que era morrer e como eram os funerais, sentindo ao mesmo tempo muito medo. 
Mesmo que tenha sido com a melhor das intenções, sua família acabou lhe tirando a possibilidade de  acompanhar os últimos momentos do avô e, participar dos rituais de despedida característico dos funerais.


Em uma das sessões concordamos em dramatizar uma cena de velório.  O “morto” da cena foi idealizado pelo paciente com a ajuda de almofadas e outros objetos do consultório. Segundo ele o morto era um amigo imaginário que estava muito velho e por isso havia morrido. Construímos a cena e ficamos num silêncio de velório (angustiante...), por quase 10 minutos. Num certo momento me perguntou o que o morto estava pensando e para onde ele iria. Respondi que não sabia e perguntei se ele gostaria de ocupar o lugar do morto (trocar de papel), para tentar imaginar "o que os mortos pensam e para onde vão". Ele concordou e retiramos as almofadas para que assumisse o novo papel. O paciente ficou ali imóvel e com os olhos fechados, exatamente como os mortos ficam... Após outro angustiante silêncio de velório, repeti a pergunta para sua mãe em voz alta: "Você sabe o que o morto está pensando e para onde ele vai?" Ela respondeu balançando a cabeça negativamente e neste momento, ele abriu os olhos e disse que tinha muita vontade de dizer o que estava pensando e para onde gostaria de ir, mas que os mortos não podiam falar...  Então não havia como as pessoas saberem o que pensam os mortos e para onde gostam de ir...
Sugeri que fizéssemos uma nova cena, mas desta vez uma cena do nascimento de uma criança. A nova cena também foi com uma criança idealizada pelo paciente, com a ajuda de almofadas e outros objetos. Ele havia idealizado o nascimento de um irmão. Construímos um berço com cadeiras e livros e ficamos olhando para a “criança” até que resolvi perguntar para o "bebê", sobre o que estava pensando e de onde tinha vindo. Mais uma vez ficamos sem resposta nenhuma. Voluntariamente meu paciente pediu para ocupar o papel do bebê. Quando repeti a pergunta ele se mexeu muito até se levantar e dizer: “crianças não podem falar e também não podem entender perguntas”...

Lembrei-me deste atendimento que fiz anos atrás e decidi pedir autorização para a mãe de meu ex-paciente, para publicar essa pequena e significativa parte dos trabalhos. Minha intenção foi ilustrar com estes dados o maravilhoso trabalho de livre docência de Maria Julia Kovacs, que resultou no livro: "Educação para a Morte - Temas e Reflexões" - Casa do Psicólogo.  A autora defende a tese de que é possível, embora profundamente desafiadora, uma "Educação para a Morte", voltada inicialmente para profissionais de saúde e educação, e em consequência, para seus principais interlocutores: pacientes e alunos. 

Reli este livro por ter sido muito tocado por ele. Pude confirmar mais uma vez que suas ideias e considerações são  muito próximas daquilo que acredito e procuro exercer como profissional de saúde. Tenho enfrentado situações emblemáticas no consultório, onde a morte tem surgido como pano de fundo, ou como uma ameaça iminente. 
Sempre escuto com reservas quando alguém me diz: "não tenho medo da morte". É possível que eu esteja muito enganado em duvidar de tal afirmação. Talvez minha dúvida não passe de um reflexo do meu próprio medo da morte projetado pela minha desconfiança. Mas o que sei realmente é que a morte é um evento que não pode ser descrito e explicado facilmente. Essa dificuldade em se descrever e tentar explicar a morte torna-a mais terrível, misteriosa e assustadora. Quase sempre (ou talvez, sempre...) que nos deparamos com a morte, ficamos sem palavras, sem compreensão e com um profundo sentimento de vazio. O terrível e frio vazio do luto que procuramos preencher o mais rápido possível, buscando dar os significados compatíveis com nossas crenças e fantasias: “descansou, foi para um lugar melhor, está no paraíso, foi melhor assim, não havia mais nada para se fazer, viveu muito, foi feliz, tudo que era possível foi feito, etc”. Nos momentos de muita dor e de luto, procuramos dizer e ouvir coisas numa tentativa desesperada de encontrar a "melhor explicação" para algo que normalmente é inexplicável.  Enxergo o processo de luto como uma busca desesperada por algum sentido, para uma situação que parece não ter sentido nenhum.  

Algumas das explicações que as pessoas buscam dar são recheadas de argumentos lógicos e racionais. Ao contrário dos argumentos religiosos ou místicos, a racionalização parece ter um poder especial: soa como verdade e temos uma tendência maior em aceitar este tipo de argumento. Lógicos ou religiosos são tentativas de se proteger e sobreviver ao sentimento de dor e de impotência. Aqueles que lidam com a morte em seu dia-a-dia (médicos, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, etc), estão habituados a racionalizar sobre a morte, como forma de proteção. Sem perceberem, muitas vezes acabam endurecendo o coração através de uma lógica própria, quase sempre cruel e incompreensível para seus pacientes. 
Para se compreender a dor e o sofrimento do outro, é preciso já ter sofrido e saber se colocar minimamente no lugar do outro. A capacidade de um cuidador para amar, ser generoso e humano, só surgirá se ele for capaz de sentir a dor do outro em si mesmo. Não uma dor desnorteante, mas uma dor que o incentive cada vez mais a salvar uma vida, a pesquisar uma cura, a descobrir novas e melhores maneiras de proporcionar conforto, enfim, a sempre lutar com seu paciente por uma melhor condição. Até mesmo nas situações em que todos os indícios mostrem que não haja muito que se fazer. Em outras palavras, estar junto de verdade para o que der e vier, mesmo que seja simplesmente ficar junto e ao lado. 


Para mim é muito claro que precisamos de ajuda e de muito amor para morrer, da mesma forma que precisamos de ajuda e muito amor para nascer. Nascer e morrer: "De onde viemos e para onde vamos?" Se não sabemos explicar a morte, também sabemos muito pouco para explicar a vida. Sabemos (ou imaginamos saber...) que um bebê não possui meios para lidar com os novos e terríveis estímulos inerentes ao nascimento. Ele deixa um mundo aparentemente tranquilo e aconchegante, e vem para um mundo barulhento e confuso. É uma mudança brusca que normalmente produz a ansiedade que irá acompanhar e moldar o futuro adulto. Acredita-se que seu choro inicial esteja relacionado com o medo e sensação de desamparo total, causados por estímulos até então desconhecidos e assustadores. Precisa da ajuda da mãe ou substituto para dar-lhe a confiança e ajuda necessária. Ela irá estar junto com ele, o acolherá e irá segurá-lo no colo, mostrando que aos poucos, conseguirá ultrapassar os limites que precisa enfrentar. O que sabemos é que quanto mais a mãe ou seu substituto estiverem verdadeiramente junto e ao lado de seu bebê, mais facilmente ele enfrentará a transição do nascimento e melhor será seu desenvolvimento cognitivo e emocional. 

Será a morte algo parecido? O sentimento de medo e desamparo do bebê é semelhante ao sentimento de medo e solidão do moribundo? Não sabemos e acredito que não temos como saber. Mas podemos inferir que em ambos os casos, a presença de uma "mãe" se faz necessária. Neste caso, uma "mãe" representada pela família, pelos amigos próximos e pelos cuidadores responsáveis. Estar ao lado de alguém, tanto nos momentos de prazer como nos momentos de dor, é uma prova de crescimento emocional e espiritual. 

Como defende Maria Julia Kovacs, também acredito que seja possível desenvolvermos uma educação para a morte. Uma educação baseada na tolerância, paciência e desenvolvimento da capacidade de enfrentarmos a dor. As ferramentas básicas são a generosidade e o verdadeiro amor.  Infelizmente não fazemos isso normalmente pelo enorme medo que temos em nos depararmos com a própria morte.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O príncipe, o mestre e a águia


Era uma vez uma rainha cujo marido havia morrido quando seu filho tinha somente cinco anos. Ela foi então nomeada regente do reino até que seu filho completasse 18 anos e fosse capaz de governar.
O único "defeito" da rainha era que amava demasiadamente seu filho, Hasan, e lhe permitia fazer qualquer coisa que desejasse. E assim, apesar de ser uma boa monarca, seu filho ficava mais e mais teimoso e cheio de caprichos à medida que crescia.
Um dia a rainha chamou seu grão-vizir e lhe disse: 
- Diga-me francamente o que posso fazer com meu filho. É insolente, orgulhoso e muito difícil de controlar. Que posso fazer para corrigir os seus defeitos agora, antes que seja demasiado tarde?
O vizir respondeu:
- Coloque o príncipe aos cuidados de um mestre, e assim ele poderá adquirir sabedoria.
- Onde há um mestre que possa ajudar meu filho? - perguntou a rainha.
- Neste momento se encontra na cidade um velho homem sábio que dirige Al Azhar, a universidade do Islã. Irei falar-lhe, direi que o príncipe necessita de seu ensinamento, e talvez ele queira vir.
- Traga-o imediatamente, se puder - disse a rainha.
Então o vizir partiu, e logo retornou com o mestre, que tomou o príncipe sob seus cuidados.
Todos os dias o ancião e o menino se sentavam para estudar e ler.
O mestre lhe contava das maravilhas do mundo, da sabedoria do sagrado Corão e da ciência exata da álgebra.
Todas as semanas a rainha mandava buscar o mestre e perguntava:
- Como está progredindo meu filho?
O mestre sacudia a cabeça e se retirava.
Um dia a rainha lhe perguntou: - Meu filho agora está progredindo, mestre?
- Ele ainda não aprendeu que um príncipe precisa ser humilde, que um rei é um servidor de seu povo e que não há poder a não ser em Deus.
- O que podemos fazer? - perguntou a rainha.
- Majestade, deixe-me levá-lo para viajar comigo - disse o mestre. - Se estivermos mais perto da natureza, talvez isso modifique o seu caráter.
A rainha aceitou e os dois partiram vestidos com roupas simples como as que usam os andarilhos.
No fim do primeiro dia de viagem, quando se sentaram para fazer café ao lado de um pequeno fogo, dois pássaros apareceram como do nada, pousaram sobre o alforje do ancião e começaram a gorjear.
- Faz muito tempo que aprendi a linguagem dos pássaros - disse o mestre, - mas agora me arrependo de tê-lo feito.
- Por quê? - perguntou o príncipe.
A princípio o mestre não queria explicar a Hasan o que os pássaros haviam dito, mas o menino insistiu tanto que afinal ele falou:
- O primeiro pássaro estava dizendo que no tempo em que fores rei haverá grande regozijo entre os pássaros que comem frutas, pois os jardins e os hortos serão abandonados e os pássaros poderão alimentar-se em paz. Ninguém os incomodará porque todo o povo destas terras terá ido embora. Ninguém quererá viver sob um reinado tão impopular.
- Que dizia o outro pássaro? - perguntou Hasan.
- O segundo pássaro disse que ele também ficará contente, pois haverá muitos gafanhotos para comer. Não haverá gente suficiente para atear fogo nos campos e afugentar os gafanhotos quando eles chegarem - foi a resposta do mestre.
No dia seguinte chegaram a um oásis onde os camelos estavam bebendo. Quando os viajantes tiraram seus cantis os camelos começaram a fazer ruídos, como resmungos, entre si. O ancião sorriu ao escutá-los.
- O que estão dizendo os camelos? - perguntou o príncipe.
A princípio o mestre não quis responder, mas Hasan insistiu e finalmente conseguiu que falasse:
- Eles estão se queixando porque quando fores rei haverá tanta gente aqui dando de beber aos animais e preparando-se para abandonar o país para viver em outro lugar que será muito difícil para eles virem beber - disse o mestre.
O príncipe e o ancião seguiram viajando por alguns dias até que pararam ao pé de uma montanha muito alta onde, sobre uma ponta rochosa, havia um ninho de filhotes de águia.
Ao aproximarem-se, puderam ouvir a águia piando a seus filhotes, e o ancião traduziu:
- Ela está dizendo a seus jovens filhos que quando ficarem adultos e tu estiveres no trono, deverão caçar ovelhas nos reinos vizinhos, pois as daqui estarão magras e fracas. As cobras e as lagartixas tomarão sol entre as ruínas da tua capital, e a grande mesquita estará vazia às sextas-feiras, quando tu fores rei. A menos...
O mestre parou de falar, mas Hasan lhe disse:
- Por favor, dize-me o que disse a águia.
- Ela disse que se corrigires tua conduta agora, e melhorares dia a dia, então teu nome será querido e teu reino será grande e feliz.
O príncipe não falou, mas o mestre viu que ele estava refletindo sobre tudo o que havia ocorrido.
- Voltamos agora ao palácio para continuarmos com nossos estudos? - perguntou o mestre.
Hasan concordou.
Regressaram pelo mesmo caminho que tinham ido, e o mestre se alegrava em ver que seu aluno era a cada dia mais amável e reflexivo. Finalmente Hasan parecia haver compreendido o que significavam suas lições e agora realmente se esforçava por aprender.
O ancião foi ver a rainha e falou:
- Agora eu posso partir, pois o príncipe está se preparando para transformar-se em rei. Será um bom soberano, porque agora sabe que antes de poder governar os outros, ele deve ser capaz de governar a si mesmo.
A rainha encantada ofereceu-lhe um posto na corte, mas ele disse:
- Não. Tenho que continuar o meu caminho, pois ainda tenho muito trabalho a fazer.
Quando chegou o tempo em que se tornou rei, Hasan recordou as coisas que seu mestre havia lhe ensinado, e governou bem e sabiamente até o final de sua vida.
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O conto acima foi escolhido e vivenciado por integrantes de grupo de psicoterapia, com o objetivo de trabalhar a dificuldade em se ter e, impor limites. Inicialmente as personagens foram vivenciadas e dramatizadas, tal como a história acima. A partir de um determinado ponto, a história foi sendo reescrita e refeita, de acordo com a realidade, contornos e desejos do grupo. Esta publicação e explicação foi um pedido dos integrantes, como forma de compartilhar o que consideraram ser uma experiência rica e esclarecedora.

("O príncipe, o mestre e a águia" - Histórias da Tradição Sufi - Rio de Janeiro - 1993 - Edições Dervish, página 53.)   

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O medo de dormir e de desligar


A noite, o escuro e o sono podem ser o lugar do repouso aconchegante, da entrega prazerosa, do recolhimento regenerador. O sono é um processo psicofisiológico de vital importância para a existência, tanto quanto a nutrição. Curiosamente, durante o sono ocorrem a redução do estímulo sensorial e o aumento dos processos cerebrais que favorecem o sono. Enquanto dormimos e descansamos, nosso cérebro trabalha como nunca para permitir a ocorrência deste processo cíclico e vital. Mas nem sempre o ato de dormir é tranquilo e natural. O medo de dormir quando não superado na primeira infância, é uma sensação que se perpetuará na vida do adulto, embora essa seja uma lembrança perdida em seu inconsciente. Os bebês tem um sentimento natural de desamparo que Freud associou à primeira grande angústia que todos vivenciam no ato do nascimento. Em sequência, a imaturidade biológica da criança a torna totalmente dependente de sua mãe e de seus cuidadores, tornando em muitos casos o processo natural de separação durante o sono, uma tarefa relativamente difícil e especial. Para a criança pequena o sentimento de solidão é sempre ameaçador. Para a mãe revela-se a dor de deixar de ser um com o filho para ser um consigo mesma.
As crianças tem medo de dormir sozinhas e pedem pela vigilância e segurança dos pais enquanto dormem. A escuridão da noite traz associações com sonhos e também com pesadelos. Talvez o maior deles seja o desaparecimento da própria imagem em meio à escuridão, diante dos olhos vigilantes dos pais - "olhos que vigiam e protegem e que no escuro irão me perder." As primeiras experiências de separação (mãe / bebê) durante o processo de adormecimento, quase sempre são acompanhadas de angústia e sofrimento.  Os rituais de adormecimento (canções de ninar, contar histórias e embalar), surgem como processo de mediação, com a dupla função de afastar o perigo e ao mesmo tempo evocar proteção, em uma solução de compromisso e confiança entre mãe e bebê - "eu confio que você irá me vigiar enquanto eu estiver à mercê..." Com o processo de amadurecimento biológico e emocional, paulatinamente a criança irá introjetar as canções de ninar e as histórias que a encorajam, desenvolvendo a capacidade e o prazer de estar só - "a confiança que tinha em você, agora se transformou na confiança que tenho em mim."

Dormir pode ser assustador porque significa estar imóvel, prostrado, desligado, ausente, em estado de "não ser", sem controle. Quando se dorme, desliga-se do mundo externo e compartilhado e mergulha-se num mundo interno, solitário e misterioso. Dormir é parecido com estar morto. As comparações entre sono e morte são comuns em muitas culturas e também na mitologia - "Hypnos (a personificação do sono) é irmão gêmeo de Thanatos (o deus da morte). Para aqueles que morrem, dizemos: “descanse em paz”... "parece que está dormindo..." Para aqueles que vão dormir, dizemos: "bom descanso...”.
Muitos adultos que sofrem de insônia psicofisiológica, tem verdadeiro horror ao perceber os primeiros sinais da noite que se aproxima. O simples fato de escurecer já é suficiente para que o sujeito inicie seu calvário rotineiro de ruminações e preocupações. Muitos são os fatores que podem influenciar a insônia, mas um fator em especial costuma estar sempre presente: a angústia de ansiedade. O adulto desenvolveu uma habilidosa e poderosa defesa inconsciente em relação ao seu medo infantil: a capacidade de se ocupar excessivamente - "enquanto estou ocupado, não durmo não me entrego e não desligo". São pessoas que trabalham em excesso ou se ocupam em tempo integral para cuidar de tudo e de todos e principalmente, não se permitem errar. É um sentimento que não pode ser controlado pela pessoa causando muito sofrimento. Duas fantasias básicas estão sempre presentes: a de que a pessoa é imprescindível em tudo e em qualquer coisa e, a de que se pode controlar e antecipar tudo. O motor desse sentimento é a ansiedade extrema. A ansiedade surge como defesa ou um remédio paliativo de um sentimento de medo não superado, mas cobra um alto preço ao trazer prejuízos para a saúde física, emocional e psíquica. Reencontrar ou reconstruir suas cantigas de ninar e seus contos de fadas, talvez seja um caminho mais definitivo e mais seguro para o adulto insone.

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"Acrescento aqui (tardiamente... após a postagem realizada ontem...) um lindo poema de Winnicott, que está intimamente relacionado com o texto acima. Foi traduzido gentilmente por uma amiga querida (Laura Qualliotine) que é norte americana e fala e escreve fluentemente em português"

Sllep                                             Dorme
Let down your tap root                  Enraíza-se
Suck up the soul                            Absorve a alma
from the infinite source                 da fonte infinita
of your unconscious                      do seu inconsciente
and                                              e
Be evergreen.                              Seja eternamente vivo.  

D.W.Winnicott

quinta-feira, 26 de julho de 2012

As dores da alma


A dor é o que existe de mais terrível na condição humana, não só pelo sofrimento que causa, mas também por ser uma experiência intransferível e solitária. Intransferível porque ninguém consegue assumir o lugar do "outro" que está com dor e sofrendo. Quem está ao lado de quem sente dor, sente a dor da impotência, mas não a dor daquele que sofre. Solitária porque a dor terá que ser vivenciada somente por aquele que está sofrendo. Um bom exemplo dessa sensação de impotência: qual pai e qual mãe não gostariam de transferir para si, a dor insuportável de um filho? Se isso fosse possível, a dor transferida doeria menos que a dor de ver um filho sofrer. A dor é uma velha conhecida, desde os tempos em que fomos um bebezinho: experimentamos cólicas e outras sensações de desconforto não necessariamente físicas. Sei de muitas histórias de pais e mães que contam o desespero que sentiram porque algum filho chorou ininterruptamente, por meses. Um desespero aumentado pelo fato de bebês não falarem e não poderem apontar com precisão: "é aqui que dói". Talvez essa seja a primeira experiência do "cuidador", aquele que permanece ao lado e ajuda o "outro" que sofre a atravessar sua angústia, por verdadeira impossibilidade de assumir o seu lugar.
Tratar do sofrimento humano é a tentativa de "tirar a dor" de alguém que sofre. Quem ajuda o outro na hora do sofrimento máximo, recebe a admiração e o amor mais sincero, destinado somente aos heróis. Acredito nisto porque nos momentos em que sofremos, estamos solitários e desprovidos de qualquer atrativo. Quem fica ao lado, fica por amor verdadeiro. Os médicos fazem (ou deveriam fazer) o papel deste herói: "tiram a dor" do corpo do sujeito utilizando seu poder e sua sabedoria. O sujeito quebra um braço ou uma perna e um bom exame de imagens (raios X, tomografia, etc.), dará ao médico uma boa dimensão do dano "causador da dor". A partir dai vem o diagnóstico e os procedimentos necessários para tratar e “tirar a dor".
Mas existem outros tipos de "dor": dor de angústia, dor de medo, dor de espera interminável, dor de cotovelo, dor de amor, dor de rejeição, dor de depressão, dor de ansiedade extrema, dor de luto (como dói...), etc. Chamo essas dores de "dores da alma". As "dores” da alma são indizíveis e invisíveis, muito embora existam e sejam capazes de fazer um sujeito chegar ao ponto de suicidar-se, surtar, abandonar sua família, etc. São invisíveis porque não podem ser vistas a olho nu (ninguém enxerga uma ferida de uma mágoa), ou através de nenhum tipo de exame de imagens, ou de sangue, ou etc. E são indizíveis porque muitas vezes (quase sempre), carecem de qualquer sentido lógico ou facilmente compreensível, explicável e aceitável.  

E por serem invisíveis e indizíveis, as dores da alma não podem contar com a intervenção e ajuda de nenhum "herói externo". Somente o "herói interno”, que faz parte da alma do sujeito que sofre e que está dentro dele, é que pode enxergar, compreender e curar as dores e o sofrimento daquela alma. O psicólogo é o facilitador (ou deveria ser) que pode ajudar o sujeito a dar voz ao seu herói interior para enfrentar e tratar as dores de sua própria alma. Ele sabe "ouvir" (ou deveria saber) e procura formas e maneiras de buscar os significados das dores invisíveis e indizíveis, contidos no "dicionário misterioso" que cada alma possui. Os mistérios da alma são sorrateiros e não se permitem ser explicados facilmente. Quase sempre não possuem racionalidade e nem lógica pura e aceitável. Para tratar as dores da sua alma, o herói interior precisa fazer uma travessia solitária pela angústia que causa seu sofrimento. Solitária porque quem sofre é quem precisa realizá-la, é quem precisa "remar" em direção ao porto seguro. 
Lembro-me da lenda de Orfeu que foi o único mortal cuja música se aproximou em qualidade, da música divina. Na lendária viagem do Argo, sob o comando de Jasão, ele foi um importante "membro" da tripulação. Sempre que os heróis estavam exaustos e enfrentavam dificuldades em remar e seguir adiante, Orfeu começava a executar canções com sua lira, uma mais bela que a outra. A mágica da música recobrava o ânimo dos heróis e os remos se moviam novamente.
Quando realiza a penosa travessia, o herói "renasce" tornando-se um "verdadeiro herói". A expressão "renascer" me leva para a melhor definição de angústia que já encontrei: Rubem Alves (O Médico): "A palavra angústia nasceu do verbo latino angere, que significa apertar, sufocar. Assim, no seu nascedouro, angústia queria dizer estreiteza. O nascimento foi literalmente nossa primeira grande angústia e, pelo resto de nossas vidas, sempre que passarmos por algum canal apertado e escuro, vamos sentir novamente o que sentimos para nascer". Toda vez que "atravessamos a angústia", nascemos novamente e nos tornamos "outra pessoa". Quando conseguimos atravessar a angústia, a dor fica para trás transformada na vitamina que nos torna mais fortes e mais experientes, com um novo ânimo. A dor se transforma na sabedoria que cria novas formas, novas possibilidades e novas esperanças.    


Obs. e Dica: Assisti ao espetáculo infantil “Sonhatório” (Cia Truks – Teatro de Bonecos), que está em cartaz no SESC Pinheiros até o dia 29/07 (NÃO PERCAM!). Nosso objetivo era levar nossa filha de quatro anos para o teatro, mas fomos surpreendidos pela magia do teatro de bonecos e pela maravilha do encantamento do “faz de conta”. A peça conta a história de três loucos (sonhadores, alienados...) que esperam pelo almoço em um sanatório (daí o trocadilho com o título da peça). Enquanto aguardam pela comida, protagonizam uma verdadeira enxurrada de espontaneidade e criatividade: todos os objetos da cozinha criam vida e passam a ter papeis em histórias conhecidas pela maioria das pessoas, que tocam no fundo da alma. É mais um exemplo maravilhoso do poder que adquirimos quando decidimos “imaginar” e “brincar”, enquanto a vida nos faz “esperar por alguma coisa”.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Capitão, a Fada contadora de histórias e o Mago

Era uma vez o capitão de um barco muito especial, que gostava muito de crianças e de desenhar e colorir histórias. Esse capitão tinha um chapéu que também era especial, pois de um lado ele era claro como o dia e tinha um lindo sol que brilhava.  Do outro lado ele era escuro como a noite e tinha pequenas estrelas que o iluminavam. Esse barco que o capitão dirigia também era muito especial porque ficava estacionado em um porto cheio de crianças. Todas as tardes algumas crianças entravam no barco e ficavam lá, brincando com o capitão e seu ajudante durante todo o tempo. Os pais e mães destas crianças gostavam e confiavam muito neste capitão, porque enxergavam em seus olhos todo o amor sincero que o capitão era capaz de dar para seus filhos.
Nesse barco tinham: brinquedos, um tanque de areia, cordas, balanços e as crianças cantavam, faziam roda, brincavam, tomavam lanche e sempre ouviam histórias antes de ir embora. O capitão gostava muito daquelas crianças e adorava ficar lá, cuidando delas. Porém, um dia, ele ouviu um chamado muito especial que vinha lá do outro lado do mundo, onde moram os cangurus, os coalas e os ornitorrincos. Esse lugar era muito distante e, todos os dias, enquanto aqui o sol brilhava lá as estrelas iluminavam o céu. E quando aqui as estrelas chegavam, lá aparecia o sol, assim como mostrava os dois lados do chapéu do capitão.
O capitão tinha muita vontade de conhecer esse lugar e então conversou com seu coração durante um tempo e decidiu ir morar lá, nessa terra distante O seu ajudante que era muito querido e gostava muito das crianças, então ganhou o chapéu do capitão. O capitão, para não ficar com muita saudade das crianças que ficavam com ele toda tarde, guardou com muito carinho o sorriso de cada uma delas dentro do seu coração. Mais ainda, deu de presente para cada uma delas um lindo chapéu, igualzinho ao seu, para que não se esquecessem que mesmo enquanto ele estiver morando lá do outro lado do mundo, elas vão continuar em seu coração.

(Marina Maluf Alves)



Winnicott (1975) : "... é no brincar que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral."


Minha postagem deste mês é uma reverência aos maravilhosos personagens da vida real, que dedicam suas vidas à arte e à saúde das pequenas grandes almas deste mundo:

Agradeço profundamente ao "Capitão Marina M. Alves", por toda a sua generosidade, criatividade, docilidade e compromisso com a educação pré-escolar. Seu lindo e importante trabalho certamente contribuirá muito para a formação dos nossos "futuros adultos", tornando-os mais humanos, mais criativos, mais generosos e principalmente, felizes. Desejo que  o "outro lado do mundo" possa usufruir de todo o seu talento, com muita alegria e amor.
Também agradeço a "Fada Contadora de Histórias Alessandra Giordano", que embora não conheça o "Capitão Marina", ficará feliz em se sentir de certa forma "representada" pela criação dessa linda história, que tem o objetivo lúdico de tornar mais possível a difícil digestão do adeus (mesmo que por pouco tempo...). A "Fada Alessandra" certamente influenciou e influencia muitos "Capitães", ajudando a colorir seus chapéus. Para isso conta com a ajuda de suas Fadas ajudantes, em especial a Fada Miriam Winiaver Garini, que levou a alegria, o riso e a diversão para uma porção de crianças de um certo reino, em um certo dia...  Ao "Mago Tato Fischer",  fica o eterno agradecimento pela "magia" de sua música e pelo "encantamento" de suas mágicas, que tem o incrível poder de abrir mais ainda os corações das crianças, lhes pondo um lindo sorriso no rosto. A "mágica" é o "toque final" dos anjos que torna o "chapéu" dos muitos capitães que existem pelo mundo, tão poderoso e tão especial.


"Contar Histórias - um recurso arteterapêutico de transformação e cura" - Alessandra Giordano - 2007 - Editora Artes Médicas.


Tato Fischer - http://www.tatofischer.com.br/ - Músico, compositor, maestro, arranjador, professor de canto e de piano, mágico e "mago".