quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O medo de dormir e de desligar


A noite, o escuro e o sono podem ser o lugar do repouso aconchegante, da entrega prazerosa, do recolhimento regenerador. O sono é um processo psicofisiológico de vital importância para a existência, tanto quanto a nutrição. Curiosamente, durante o sono ocorrem a redução do estímulo sensorial e o aumento dos processos cerebrais que favorecem o sono. Enquanto dormimos e descansamos, nosso cérebro trabalha como nunca para permitir a ocorrência deste processo cíclico e vital. Mas nem sempre o ato de dormir é tranquilo e natural. O medo de dormir quando não superado na primeira infância, é uma sensação que se perpetuará na vida do adulto, embora essa seja uma lembrança perdida em seu inconsciente. Os bebês tem um sentimento natural de desamparo que Freud associou à primeira grande angústia que todos vivenciam no ato do nascimento. Em sequência, a imaturidade biológica da criança a torna totalmente dependente de sua mãe e de seus cuidadores, tornando em muitos casos o processo natural de separação durante o sono, uma tarefa relativamente difícil e especial. Para a criança pequena o sentimento de solidão é sempre ameaçador. Para a mãe revela-se a dor de deixar de ser um com o filho para ser um consigo mesma.
As crianças tem medo de dormir sozinhas e pedem pela vigilância e segurança dos pais enquanto dormem. A escuridão da noite traz associações com sonhos e também com pesadelos. Talvez o maior deles seja o desaparecimento da própria imagem em meio à escuridão, diante dos olhos vigilantes dos pais - "olhos que vigiam e protegem e que no escuro irão me perder." As primeiras experiências de separação (mãe / bebê) durante o processo de adormecimento, quase sempre são acompanhadas de angústia e sofrimento.  Os rituais de adormecimento (canções de ninar, contar histórias e embalar), surgem como processo de mediação, com a dupla função de afastar o perigo e ao mesmo tempo evocar proteção, em uma solução de compromisso e confiança entre mãe e bebê - "eu confio que você irá me vigiar enquanto eu estiver à mercê..." Com o processo de amadurecimento biológico e emocional, paulatinamente a criança irá introjetar as canções de ninar e as histórias que a encorajam, desenvolvendo a capacidade e o prazer de estar só - "a confiança que tinha em você, agora se transformou na confiança que tenho em mim."

Dormir pode ser assustador porque significa estar imóvel, prostrado, desligado, ausente, em estado de "não ser", sem controle. Quando se dorme, desliga-se do mundo externo e compartilhado e mergulha-se num mundo interno, solitário e misterioso. Dormir é parecido com estar morto. As comparações entre sono e morte são comuns em muitas culturas e também na mitologia - "Hypnos (a personificação do sono) é irmão gêmeo de Thanatos (o deus da morte). Para aqueles que morrem, dizemos: “descanse em paz”... "parece que está dormindo..." Para aqueles que vão dormir, dizemos: "bom descanso...”.
Muitos adultos que sofrem de insônia psicofisiológica, tem verdadeiro horror ao perceber os primeiros sinais da noite que se aproxima. O simples fato de escurecer já é suficiente para que o sujeito inicie seu calvário rotineiro de ruminações e preocupações. Muitos são os fatores que podem influenciar a insônia, mas um fator em especial costuma estar sempre presente: a angústia de ansiedade. O adulto desenvolveu uma habilidosa e poderosa defesa inconsciente em relação ao seu medo infantil: a capacidade de se ocupar excessivamente - "enquanto estou ocupado, não durmo não me entrego e não desligo". São pessoas que trabalham em excesso ou se ocupam em tempo integral para cuidar de tudo e de todos e principalmente, não se permitem errar. É um sentimento que não pode ser controlado pela pessoa causando muito sofrimento. Duas fantasias básicas estão sempre presentes: a de que a pessoa é imprescindível em tudo e em qualquer coisa e, a de que se pode controlar e antecipar tudo. O motor desse sentimento é a ansiedade extrema. A ansiedade surge como defesa ou um remédio paliativo de um sentimento de medo não superado, mas cobra um alto preço ao trazer prejuízos para a saúde física, emocional e psíquica. Reencontrar ou reconstruir suas cantigas de ninar e seus contos de fadas, talvez seja um caminho mais definitivo e mais seguro para o adulto insone.

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"Acrescento aqui (tardiamente... após a postagem realizada ontem...) um lindo poema de Winnicott, que está intimamente relacionado com o texto acima. Foi traduzido gentilmente por uma amiga querida (Laura Qualliotine) que é norte americana e fala e escreve fluentemente em português"

Sllep                                             Dorme
Let down your tap root                  Enraíza-se
Suck up the soul                            Absorve a alma
from the infinite source                 da fonte infinita
of your unconscious                      do seu inconsciente
and                                              e
Be evergreen.                              Seja eternamente vivo.  

D.W.Winnicott

quinta-feira, 26 de julho de 2012

As dores da alma


A dor é o que existe de mais terrível na condição humana, não só pelo sofrimento que causa, mas também por ser uma experiência intransferível e solitária. Intransferível porque ninguém consegue assumir o lugar do "outro" que está com dor e sofrendo. Quem está ao lado de quem sente dor, sente a dor da impotência, mas não a dor daquele que sofre. Solitária porque a dor terá que ser vivenciada somente por aquele que está sofrendo. Um bom exemplo dessa sensação de impotência: qual pai e qual mãe não gostariam de transferir para si, a dor insuportável de um filho? Se isso fosse possível, a dor transferida doeria menos que a dor de ver um filho sofrer. A dor é uma velha conhecida, desde os tempos em que fomos um bebezinho: experimentamos cólicas e outras sensações de desconforto não necessariamente físicas. Sei de muitas histórias de pais e mães que contam o desespero que sentiram porque algum filho chorou ininterruptamente, por meses. Um desespero aumentado pelo fato de bebês não falarem e não poderem apontar com precisão: "é aqui que dói". Talvez essa seja a primeira experiência do "cuidador", aquele que permanece ao lado e ajuda o "outro" que sofre a atravessar sua angústia, por verdadeira impossibilidade de assumir o seu lugar.
Tratar do sofrimento humano é a tentativa de "tirar a dor" de alguém que sofre. Quem ajuda o outro na hora do sofrimento máximo, recebe a admiração e o amor mais sincero, destinado somente aos heróis. Acredito nisto porque nos momentos em que sofremos, estamos solitários e desprovidos de qualquer atrativo. Quem fica ao lado, fica por amor verdadeiro. Os médicos fazem (ou deveriam fazer) o papel deste herói: "tiram a dor" do corpo do sujeito utilizando seu poder e sua sabedoria. O sujeito quebra um braço ou uma perna e um bom exame de imagens (raios X, tomografia, etc.), dará ao médico uma boa dimensão do dano "causador da dor". A partir dai vem o diagnóstico e os procedimentos necessários para tratar e “tirar a dor".
Mas existem outros tipos de "dor": dor de angústia, dor de medo, dor de espera interminável, dor de cotovelo, dor de amor, dor de rejeição, dor de depressão, dor de ansiedade extrema, dor de luto (como dói...), etc. Chamo essas dores de "dores da alma". As "dores” da alma são indizíveis e invisíveis, muito embora existam e sejam capazes de fazer um sujeito chegar ao ponto de suicidar-se, surtar, abandonar sua família, etc. São invisíveis porque não podem ser vistas a olho nu (ninguém enxerga uma ferida de uma mágoa), ou através de nenhum tipo de exame de imagens, ou de sangue, ou etc. E são indizíveis porque muitas vezes (quase sempre), carecem de qualquer sentido lógico ou facilmente compreensível, explicável e aceitável.  

E por serem invisíveis e indizíveis, as dores da alma não podem contar com a intervenção e ajuda de nenhum "herói externo". Somente o "herói interno”, que faz parte da alma do sujeito que sofre e que está dentro dele, é que pode enxergar, compreender e curar as dores e o sofrimento daquela alma. O psicólogo é o facilitador (ou deveria ser) que pode ajudar o sujeito a dar voz ao seu herói interior para enfrentar e tratar as dores de sua própria alma. Ele sabe "ouvir" (ou deveria saber) e procura formas e maneiras de buscar os significados das dores invisíveis e indizíveis, contidos no "dicionário misterioso" que cada alma possui. Os mistérios da alma são sorrateiros e não se permitem ser explicados facilmente. Quase sempre não possuem racionalidade e nem lógica pura e aceitável. Para tratar as dores da sua alma, o herói interior precisa fazer uma travessia solitária pela angústia que causa seu sofrimento. Solitária porque quem sofre é quem precisa realizá-la, é quem precisa "remar" em direção ao porto seguro. 
Lembro-me da lenda de Orfeu que foi o único mortal cuja música se aproximou em qualidade, da música divina. Na lendária viagem do Argo, sob o comando de Jasão, ele foi um importante "membro" da tripulação. Sempre que os heróis estavam exaustos e enfrentavam dificuldades em remar e seguir adiante, Orfeu começava a executar canções com sua lira, uma mais bela que a outra. A mágica da música recobrava o ânimo dos heróis e os remos se moviam novamente.
Quando realiza a penosa travessia, o herói "renasce" tornando-se um "verdadeiro herói". A expressão "renascer" me leva para a melhor definição de angústia que já encontrei: Rubem Alves (O Médico): "A palavra angústia nasceu do verbo latino angere, que significa apertar, sufocar. Assim, no seu nascedouro, angústia queria dizer estreiteza. O nascimento foi literalmente nossa primeira grande angústia e, pelo resto de nossas vidas, sempre que passarmos por algum canal apertado e escuro, vamos sentir novamente o que sentimos para nascer". Toda vez que "atravessamos a angústia", nascemos novamente e nos tornamos "outra pessoa". Quando conseguimos atravessar a angústia, a dor fica para trás transformada na vitamina que nos torna mais fortes e mais experientes, com um novo ânimo. A dor se transforma na sabedoria que cria novas formas, novas possibilidades e novas esperanças.    


Obs. e Dica: Assisti ao espetáculo infantil “Sonhatório” (Cia Truks – Teatro de Bonecos), que está em cartaz no SESC Pinheiros até o dia 29/07 (NÃO PERCAM!). Nosso objetivo era levar nossa filha de quatro anos para o teatro, mas fomos surpreendidos pela magia do teatro de bonecos e pela maravilha do encantamento do “faz de conta”. A peça conta a história de três loucos (sonhadores, alienados...) que esperam pelo almoço em um sanatório (daí o trocadilho com o título da peça). Enquanto aguardam pela comida, protagonizam uma verdadeira enxurrada de espontaneidade e criatividade: todos os objetos da cozinha criam vida e passam a ter papeis em histórias conhecidas pela maioria das pessoas, que tocam no fundo da alma. É mais um exemplo maravilhoso do poder que adquirimos quando decidimos “imaginar” e “brincar”, enquanto a vida nos faz “esperar por alguma coisa”.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Capitão, a Fada contadora de histórias e o Mago

Era uma vez o capitão de um barco muito especial, que gostava muito de crianças e de desenhar e colorir histórias. Esse capitão tinha um chapéu que também era especial, pois de um lado ele era claro como o dia e tinha um lindo sol que brilhava.  Do outro lado ele era escuro como a noite e tinha pequenas estrelas que o iluminavam. Esse barco que o capitão dirigia também era muito especial porque ficava estacionado em um porto cheio de crianças. Todas as tardes algumas crianças entravam no barco e ficavam lá, brincando com o capitão e seu ajudante durante todo o tempo. Os pais e mães destas crianças gostavam e confiavam muito neste capitão, porque enxergavam em seus olhos todo o amor sincero que o capitão era capaz de dar para seus filhos.
Nesse barco tinham: brinquedos, um tanque de areia, cordas, balanços e as crianças cantavam, faziam roda, brincavam, tomavam lanche e sempre ouviam histórias antes de ir embora. O capitão gostava muito daquelas crianças e adorava ficar lá, cuidando delas. Porém, um dia, ele ouviu um chamado muito especial que vinha lá do outro lado do mundo, onde moram os cangurus, os coalas e os ornitorrincos. Esse lugar era muito distante e, todos os dias, enquanto aqui o sol brilhava lá as estrelas iluminavam o céu. E quando aqui as estrelas chegavam, lá aparecia o sol, assim como mostrava os dois lados do chapéu do capitão.
O capitão tinha muita vontade de conhecer esse lugar e então conversou com seu coração durante um tempo e decidiu ir morar lá, nessa terra distante O seu ajudante que era muito querido e gostava muito das crianças, então ganhou o chapéu do capitão. O capitão, para não ficar com muita saudade das crianças que ficavam com ele toda tarde, guardou com muito carinho o sorriso de cada uma delas dentro do seu coração. Mais ainda, deu de presente para cada uma delas um lindo chapéu, igualzinho ao seu, para que não se esquecessem que mesmo enquanto ele estiver morando lá do outro lado do mundo, elas vão continuar em seu coração.

(Marina Maluf Alves)



Winnicott (1975) : "... é no brincar que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral."


Minha postagem deste mês é uma reverência aos maravilhosos personagens da vida real, que dedicam suas vidas à arte e à saúde das pequenas grandes almas deste mundo:

Agradeço profundamente ao "Capitão Marina M. Alves", por toda a sua generosidade, criatividade, docilidade e compromisso com a educação pré-escolar. Seu lindo e importante trabalho certamente contribuirá muito para a formação dos nossos "futuros adultos", tornando-os mais humanos, mais criativos, mais generosos e principalmente, felizes. Desejo que  o "outro lado do mundo" possa usufruir de todo o seu talento, com muita alegria e amor.
Também agradeço a "Fada Contadora de Histórias Alessandra Giordano", que embora não conheça o "Capitão Marina", ficará feliz em se sentir de certa forma "representada" pela criação dessa linda história, que tem o objetivo lúdico de tornar mais possível a difícil digestão do adeus (mesmo que por pouco tempo...). A "Fada Alessandra" certamente influenciou e influencia muitos "Capitães", ajudando a colorir seus chapéus. Para isso conta com a ajuda de suas Fadas ajudantes, em especial a Fada Miriam Winiaver Garini, que levou a alegria, o riso e a diversão para uma porção de crianças de um certo reino, em um certo dia...  Ao "Mago Tato Fischer",  fica o eterno agradecimento pela "magia" de sua música e pelo "encantamento" de suas mágicas, que tem o incrível poder de abrir mais ainda os corações das crianças, lhes pondo um lindo sorriso no rosto. A "mágica" é o "toque final" dos anjos que torna o "chapéu" dos muitos capitães que existem pelo mundo, tão poderoso e tão especial.


"Contar Histórias - um recurso arteterapêutico de transformação e cura" - Alessandra Giordano - 2007 - Editora Artes Médicas.


Tato Fischer - http://www.tatofischer.com.br/ - Músico, compositor, maestro, arranjador, professor de canto e de piano, mágico e "mago".

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ser espontâneo é estar "presente"

Em minha última postagem escrevi sobre a teoria da espontaneidade de Moreno e do psicodrama, além do que considero uma aproximação desse conceito com o trabalho clínico que venho fazendo. Fiquei feliz por ter recebido muitos comentários, a maior parte deles veio através de e-mails, e outros que foram postados diretamente no blog. Considerei necessário continuar com o assunto para buscar responder e completar algumas questões que de alguma forma chamaram a atenção. Pretendia responder diretamente, em cada comentário, mas achei mais adequado e mais completo prosseguir com o texto e espero que essa forma saia a contento.


A teoria da espontaneidade de Moreno não é em hipótese alguma um valor absoluto. Ao contrário, é uma bela e interessante tentativa de organizar e sistematizar o "ser-em-situação" que está mergulhado nas mais diversas e dinâmicas formas de experiência. O sujeito despojado de sua força espontânea e criadora fica reduzido a uma mera engrenagem ou peça, um autômato que repete valores e comportamentos estereotipados. Essa condição normalmente produz sofrimento através de um sentimento de vazio, de impotência e de inutilidade. A espontaneidade quando age, faz o sujeito presente nas situações afetivas e sociais de sua vida, tornando-o agente ativo do próprio destino. Alfredo Naffah Neto em seu maravilhoso livro: "Psicodramatizar", faz uma citação que sintetiza muito bem: " Como uma ponte de ligação entre o presente, o passado e o futuro, entre o real e o imaginário, é sempre através de seus horizontes espacio-temporais e da posição que assume perante o mundo que habita, que se exprime e se realiza uma certa modalidade existencial, uma certa forma de ser."  
A espontaneidade pode se manifestar produzindo criações maravilhosas e inéditas (ações normalmente atribuídas aos gênios), ou simplesmente transformando e dando vida e presença a comportamentos repetitivos do cotidiano. Ser espontâneo não significa "ser o gênio da lâmpada" ou se ter a necessidade de provocar a mudança pela simples mudança. Ser espontâneo significa "estar presente" nas situações da própria vida, transformando adequadamente os seus aspectos insatisfatórios. Em sua teoria Moreno considerou que  a espontaneidade se apresenta através de quatro formas complementares:


a) a espontaneidade que ativa e dá nova cor às conservas culturais e estereótipos sociais. Esse tipo de espontaneidade confere novidade e vivacidade a sentimentos, ações e expressões verbais que nada mais são do que repetições de situações que o sujeito experimentou antes, milhares e milhares de vezes (caminhar, comer, bater papo, etc). Ou seja, nada tem de original ou criador. O que existe de novo aqui é o "sabor especial" que o sujeito atribui a sua vida cotidiana e a sua rotina. Para esse sentimento especial de vivacidade, Moreno deu o nome de: Qualidade dramática do sujeito, que funciona como uma espécie de "energização" e "tonificação" do eu, produzindo um modo genuíno de auto-expressão.
b) a espontaneidade que produz a criação de novas formas de arte e estruturas ambientais. Este sentimento de pura criatividade está totalmente atrelado ao compromisso de se criar novas formas, novas ideias e novas invenções. O sujeito está permanentemente empenhado em produzir novas experiências em seu íntimo, a fim de que elas possam transformar o mundo a sua volta. Como o próprio Moreno enfatizou, o exemplo acima trata de um sujeito idealizado, mas certamente temos vários exemplos de verdadeiros "gênios", na história.
c) a espontaneidade que atua na formação de livres expressões da personalidade. Aqui a originalidade do sujeito atua na produção e expansão daquilo que já existe e não é novo, mas que ganha uma nova cor e se expande. Moreno cita como exemplo os desenhos das crianças e a poesia dos adolescentes, que acrescentam algo novo à velha forma original, sem lhe modificar a essência.
d) a espontaneidade que produz respostas adequadas a novas situações. Uma pessoa pode ser criativaoriginal dramática, mas não necessariamente produzir uma resposta adequada à situação que está vivenciando. Quando se fala em "resposta adequada", se está querendo dizer "resposta adequada" à situação em que se está inserido. Moreno cita vários exemplos: um incêndio, um assalto, uma emergência qualquer em que salvar a própria vida é o que existe de mais adequado. Nesses casos a espontaneidade faz uso da inteligência, do senso de oportunidade, da memória do sujeito (conservas), da originalidade e do bom-senso para a escolha adequada. "É uma aptidão plástica de adaptação, mobilidade e flexibilidade do eu, indispensável a um organismo em rápido crescimento num meio em rápida mudança." - Psicodrama, pg. 144 - Cultrix - 1975 Moreno, Jacob L. 


O "ser-em-situação" está sempre em movimento. Assim, o corpo do sujeito é o veículo motor de sua espontaneidade. Esse processo tem início na infância, quando a criança se identifica com o adulto e representa ludicamente o seu papel. Moreno chamava essa "conquista" da criança como "função psicodramática" - capacidade de jogo simbólico onde inverte papéis com os pais e descobre, através da vivência, a rede dos papéis sociais em que está inscrita a sua identidade. Dessa forma a função psicodramática transforma a espontaneidade, antes apenas uma função adaptativa, numa função criativa.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Espontaneidade é a capacidade natural de reinventar


Diante de situações e circunstâncias boas ou ruins, tendemos a agir mecanicamente, produzindo respostas semelhantes ou repetidas para as situações do cotidiano. Qualquer bom observador é capaz de reparar que na maior parte do tempo as pessoas tendem a repetir como num ritual, seus comportamentos e emoções. Seja em situações boas ou ruins. "Repetimos" aquilo que já aprendemos na vida para de alguma maneira nos sentirmos seguros e sobreviver - "esse jeito de fazer, de pensar, de sofrer ou de rir" é o "jeito que conheço". Precisamos e contamos com a previsibilidade, como um guia que precisa ser seguido. Mas "segurança" em excesso também traz sentimentos não muito bons: enfado, sensação de estagnação, sentimento de vazio e de perda de tempo, desnorteamento, etc. Exemplos do que estou dizendo não faltam: casamentos e namoros mornos e cambaleantes, empregos ou trabalhos insuportáveis, círculos familiares ou de amizade que não produzem mais prazer, mesmices, etc. O que me chama a atenção é que mesmo diante do vazio causado pela "repetição" constante, insistimos em continuar "repetindo". A necessidade da previsibilidade acaba falando mais alto. Sejam hábitos que precisam ser mudados, sejam relações que precisam se reconfigurar, etc.
Me lembro do tempo em que fazia atendimentos na clínica da faculdade e numa sessão em que fui observado pelo meu orientador (que era psicanalista) através da sala de espelhos, perdi uma enorme oportunidade (certamente pelo meu nervosismo) de apresentar uma interpretação para meu paciente. Tenho certeza até hoje de que o que eu iria dizer àquela pessoa, iria ajudá-la muito naquele momento. Após o atendimento e já na supervisão, expus ao meu orientador o quanto estava chateado pela minha distração. Para minha surpresa ouvi um conselho que se mostra verdadeiro até hoje: " Não se preocupe, nós neuróticos sempre repetimos... e seu paciente não foge à regra... logo, logo você terá a sua oportunidade novamente". E ele estava muito certo!
Mudar não é nada fácil para a maior parte das pessoas. É terrível mudar hábitos, mudar de vida, mudar de emprego, mudar conceitos, mudar de amigos, mudar... Isso normalmente só acontece quando somos empurrados à força pelas circunstâncias. Precisamos de esquemas prontos para seguir adiante e nos sentirmos em segurança. Aprendemos a repetir para sobreviver mas o efeito colateral da repetição produz "conservas" (expressão psicodramática que significa: ficar parado em estado seguro, preservar)  que  escravizam e engessam a capacidade da pessoa em ser flexível e criativa. Parece bastante óbvio que as "conservas" são muito importantes por serem uma espécie de armazém de conhecimento e de aprendizado que funcionam como uma espécie de guia. Mas para viver de maneira criativa e espontânea, é preciso ousar e se permitir a um certo grau de novidade e de flexibilidade para o novo. O novo produzirá novos conhecimentos e novos "jeitos de ser e fazer", aperfeiçoando ou até mesmo modificando o conteúdo armazenado nas "conservas". No momento da criação do novo, ocorre de uma certa maneira um rompimento com aquilo que já está estabelecido e determinado pelas "conservas". Caso contrário o novo não surgiria. A evolução do conhecimento científico é um ótimo exemplo: novos achados surgem e complementam ou até mesmo substituem o que já se sabia.

O rompimento dessas "conservas" se dá através de movimentos espontâneos e criativos, que produzem respostas novas e adequadas, para questões e aflições antigas. A espontaneidade, a flexibilidade e a experiência vivida, trabalham juntas como forças criativas e transformadoras da realidade, produzindo novos conceitos, novos olhares, novos comportamentos e atitudes, etc. Não é possível ser espontâneo sem ser flexível e sem "experimentar na prática". Penso que é neste ponto que a maioria das pessoas estancam na busca pelo novo e tendem mais facilmente a repetir e a não mudar. Se um indivíduo conhecer de antemão a espécie de situação que vai encontrar quanto a sua forma, tempo, consequências e lugar, o espaço para a espontaneidade deixará de existir. Como já disse antes, é natural que busquemos a segurança da previsibilidade. Mas o que ocorre na maior parte das vezes é que buscamos a previsibilidade através de uma  fantasia de que podemos prever e controlar tudo. E isso não é possível. Essa é uma das principais características da ansiedade. Há uma feliz  frase de Mao Tsé Tung que exemplifica muito bem: "Para adquirir conhecimentos é preciso participar na prática que transforma a realidade. Para se conhecer o gosto de uma pêra, é preciso transformá-la, comendo-a."

A espontaneidade se manifesta como que por instinto, de forma não racional ou premeditada. Creio que o "ser espontâneo" e criativo está mais atento ao "aqui e agora", livre para a experiência nova que está inserido e, menos atento às suas fantasias de previsibilidade. Um jogo de futebol pode ser um bom exemplo: Trata-se de um jogo que existe a mais de cem anos, com praticamente as mesmas regras, a mesma bola, o mesmo formato, o mesmo jeito. No entanto de tempos em tempos, surge um novo jogador que simplesmente transforma esse jogo velho de maneira imprevisível. Onde à princípio, tudo é previsível, surge algo novo e inédito. Todos param para assistir e se encantam.
O psicodrama de Moreno bebeu muito do conhecimento do filósofo francês  Henri Louis Bergson, que acreditava na "experiência imediata e na intuição" como verdadeiras ferramentas de compreensão da realidade, mais do que a razão e a previsibilidade da lógica científica. Begson dizia que: "a percepção "mergulha no real através de suas raízes profundas", em que a realidade não será construída ou reconstruída, mas tocada, penetrada, vivida" Moreno dizia que a razão e a lógica estavam "engessadas" pelas leis universais que procuram explicar a realidade de maneira previsível e fixa: "Um certo grau de imprevisibilidade dos eventos futuros  é uma premissa em que deve se assentar a idéia da espontaneidade. O futuro pertence ao acaso..." Em outras palavras, não podemos controlar o futuro ou as pessoas (a fantasia mais presente na ansiedade), podemos apenas viver e experienciar um dia de cada vez. Alguns casos de depressão e ansiedade que tenho acompanhado no consultório e que tem apresentado um desfecho positivo e de alguma melhora perceptível dos pacientes, levam a um questionamento quase que rotineiro, realizado de várias maneiras mas sempre com o mesmo sentido e conteúdo: "Por que estou me sentindo bem melhor se nada mudou na minha vida? Será que estou melhor mesmo?" E minha resposta tem sido com frequência, sempre a mesma: "Creio que o que mudou não foi a sua vida, e sim você e a forma de vivencia-la".