
O
sentimento de angústia tem dado o tom maior para boa parte das pessoas.
Angústia é uma expressão que tem sua origem no latim e significa: caminho
estreito, aflição intensa, agonia, limite de espaço e de tempo. Significado
perfeito para estes tempos difíceis e motivos para esse estado emocional pesado
parecem não faltar. Começa por termos a sensação de não termos mais tempo para
nada. O tempo está passando muito rápido e não conseguimos sequer parar por um
instante. Sem contar que a convivência no mundo atual está recheada de
extrema violência, com muitos conflitos, mentiras (fake news), desorientação,
doenças novas e assustadoras, doenças velhas que estavam praticamente extintas
e estão ressurgindo, falta de oportunidades, intolerância e brutalidade. Parece
que o valor pela vida e pelo ser humano desceu significativamente a régua, ou
se foi para sempre. Atitudes e comportamentos inacreditáveis nos fazem crer que
as portas do esgoto subterrâneo da psique humana estão escancaradas. O homem
civilizado está sendo colocado à prova e a sensação desesperadora que temos, é
que ele está perdendo feio. A saúde da psique que já possui uma fragilidade
genuína, diante de cenários macro tão difíceis demonstra estar acusando o
golpe. Perda de sentido na vida, explosões de raiva, descontrole,
depressão, transtornos de ansiedade e uma importante fragmentação da identidade
tem sido sintomas muito comuns. Minha experiência profissional tem confirmado
essa impressão, infelizmente.

Se
o cenário interno não estiver bom, claro que o cenário externo também não
estará. Não podemos esquecer que a forma como enxergamos o mundo e a vida, são
projeções de nossa mente: ("Não vemos as coisas como elas são, nós
vemos as coisas como nós somos! - Anaís Nin"). Esses argumentos me
fazem crer que talvez uma boa maneira de melhorarmos esse mundo difícil e
caótico, seria primeiro melhorando nosso mundo interno. E como podemos fazer
isso? Talvez seja prestando mais atenção na riqueza do mundo interno, restabelecendo
uma boa conexão entre consciência e inconsciente e permitindo que a criatividade traga soluções genuínas e transformadoras para a vida.
Permitir-se experimentar conscientemente sentimentos, sentidos e
intuições. Quando ressalto "experimentar conscientemente",
me refiro ao fato da intuição e dos sentidos pertencerem ao mundo inconsciente, e
não fazerem parte da consciência, que naturalmente costuma
rejeitar as mensagens sempre cifradas enviadas pelo inconsciente. A consciência do homem
moderno por utilizar normalmente a lógica e a razão, tende a ignorar essas
mensagens cifradas através de sonhos, impressões e intuições. Combinada
com os conteúdos inconscientes, a percepção da realidade objetiva e externa
aumenta significativamente porque aumenta-se a quantidade e a qualidade dos
sentidos, aumentando e fortalecendo a consciência. A intuição poderá
espontânea e criativamente trazer luz para aquilo que se está observando
conscientemente e que parece não ter saída. A espontaneidade e a criatividade
surgem do mundo inconsciente, trazendo respostas novas para
questões antigas. Aumentando a sua percepção da realidade, o homem saberá como
se posicionar e se adaptar equilibradamente diante das dificuldades e das
facilidades.
Como
dizia Gilberto Gil em sua linda canção: "A luz nasce na escuridão".
Mas
infelizmente, olhar para dentro de si parece não ter nenhuma validade ou
importância para a maior parte das pessoas. Nos acostumamos a apenas "pensar"
para organizar intelectualmente aquilo que percebemos sensorialmente
(5 sentidos) sobre as experiências da vida. Provavelmente isso
esteja relacionado com o medo recorrente que o homem tem do novo e daquilo que
provocará mudanças onde aparentemente ele perderá o controle. E uma forma de se
proteger desse medo é ignorar tudo o que não pareça ser racional e
intelectualmente lógico. A lógica racional nos faz crer erroneamente, que estamos no controle. O conteúdo inconsciente é sempre
simbólico, mítico e consequentemente mais assustador. Suas mensagens são sempre cifradas. Sonhar, meditar,
dançar, fazer mantras, ouvir música, observar telas de arte, esculturas, ler
poemas, contemplar a natureza, são maneiras e atividades que podem facilitar esse contato. A linguagem dos sonhos é um bom exemplo
da forma simbólica como o inconsciente se comunica. Observar os próprios sonhos
e utilizá-los como forma de meditação, inspiração e motivação para a mudança. A psicologia Jungiana se utiliza
da "imaginação ativa" como uma importante forma de
transcendência e autoconhecimento. Jung foi o precursor deste método e o
utilizou para estimular pacientes psiquiátricos a extravasarem fantasias
inconscientes e conscientes e exercitarem a espontaneidade e criatividade
através das artes. Este assunto tem me fascinado ultimamente e pretendo
discorrer mais sobre ele futuramente.
Mas
neste mundo corrido, ao invés disso a maior parte das pessoas está aprisionada
pela tecnologia. O homem moderno dedica mais tempo para a tecnologia do que
para si mesmo. Passou a confiar quase que cegamente na tecnologia para resolver
todos os problemas do seu dia a dia. Curiosamente,
na medida em que o conhecimento tecnológico aumenta sua abrangência e
capacidade em propor novas soluções, diminui-se na mesma ou maior proporção o
grau de humanização. Estamos isolados diante de uma tela, praticamente
impossibilitados de exercitar a empatia. Para se humanizar é preciso entrar em
contato profundo com a própria humanidade e compartilhá-la através de nossas
ações práticas e objetivas na vida cotidiana.
Volto a escrever mais sobre a riqueza do inconsciente e na importância da sua conexão com a consciência, como forma de preservá-la saudável, maior e menos frágil.